Félix Morgado: “Até sei o que é um banco alimentar, mas um banco social não sei”

Félix Morgado admite a erosão nas relações com Tomás Correia, que, garante, nunca o convidou para liderar o futuro do Montepio. O gestor diz que a missão que assumiu era difícil, mas foi cumprida.

Um dia depois de ter deixado a presidência do Montepio, quase um ano antes do termino do mandato, Félix Morgado dá a sua primeira entrevista como ex-presidente executivo da instituição. Apesar de o tom ser mais cordial do que o demonstrado no email que marcou a sua despedida junto dos quadros do banco — onde afirmava “é difícil ser vertical, sério, honrado e garantir um governo societário rigoroso” –, Félix Morgado reconhece que as relações com o acionista, personificado em Tomás Correia, sofreram uma erosão.

O gestor diz que o conselho a que presidia tinha uma missão difícil, mas que esta foi cumprida. Para além de ter passado de prejuízos a lucros, em dois anos, foi ainda capaz de levar por diante a separação entre o acionista, a Associação Mutualista Montepio Geral, e o banco, a Caixa Económica Montepio Geral.

“O banco que encontrámos em 2015 e o banco que temos hoje é completamente diferente. Basta olhar para os referenciais de valores de que se falam hoje no mercado. Em 2015, o banco estava numa situação bastante difícil, eventualmente teria um valor próximo de zero e hoje fala-se em valorizações para a totalidade do banco à volta de 1.900 milhões de euros”.

Sobre a ideia de Tomás Correia para o futuro do Montepio, Félix Morgado é sarcástico: “até sei o que é um banco alimentar, mas um banco social não sei”. E, garante, o presidente da AMMG nunca o convidou para liderar o futuro do Montepio enquanto banco social, função que caberá a Carlos Tavares, ex-presidente da CMVM.

No email de despedida que enviou aos trabalhadores diz que sai porque foi fiel aos “princípios éticos e profissionais, sem ceder a interesses que não sejam os da instituição e dos trabalhadores”. A que interesses optou não ceder?

Estou aqui como ex-presidente do conselho de administração da Caixa Económica Montepio Geral. Gostava de aproveitar, antes de responder à pergunta, para fazer um esclarecimento e um apelo. Em primeiro lugar, um esclarecimento porque tenho visto muitas notícias e muitos comentários que referem o Montepio sem especificar o que é a Caixa Económica, o que é o banco, e o que é a Associação Mutualista. São duas entidades autónomas. A minha responsabilidade, desde agosto de 2015, foi sobre a Caixa Económica, o banco, e não sobre a Associação Mutualista. A Caixa Económica, durante o meu mandato, foi inclusivamente transformada em sociedade anónima com um governo societário próprio, logo independente. Em segundo lugar, tenho visto alguns líderes de opinião fazerem comentários no sentido de salvar o banco. Falaram, inclusive, no montante de 800 milhões de euros [de créditos fiscais que foram concedidos à AMMG]. O que queria deixar, desde já, é uma mensagem aos clientes da Caixa Económica, aos clientes do banco, que é a de que o banco está saudável, reforçado e com um modelo sustentável. Não se trata de salvar o banco, porque este está numa situação bastante estável.

Mas, voltando ao email enviado aos colaboradores… A que interesses é que não cedeu?

A afirmação é feita pela positiva, os interesses a que qualquer conselho de administração e que qualquer sociedade por maioria de razão tem, são os interesses de quem? Em primeiro lugar, dos seus clientes. Os conselhos de administração dos bancos têm o dever fiduciário face aos seus clientes, e depois a todos os outros stakeholders, em que se incluem os trabalhadores. Aquilo que sempre norteou o conselho de administração foi o de saber o que era melhor para a Caixa Económica dentro da missão que tem, que era um missão de ter um modelo de negócio sustentável e de reforçar a notoriedade e a credibilidade do banco. E esses foram sempre esses os valores que nos nortearam.

É CEO do Montepio desde agosto de 2015. Terminava o mandato no final deste ano. Ao sair antes do mandato acabar e ao fazer este email aos trabalhadores, dizendo que não cede a interesses, que tem o princípios, os trabalhadores e o banco como principal preocupação, levanta-se a questão: porque é que saiu?

Saio exatamente pelo rigor na aplicação do governo societário, pelo rigor nas decisões que foram tomadas em nome do interesse da Caixa Económica e dos trabalhadores e, depois, recordo um facto que em algum momento surgiu que era um projeto de um banco social. Eu não sei o que é — até porque foi referido na altura que eu não teria perfil para um banco social — um banco social. Sei o que é um banco de crédito à habitação, sei o que é um banco de crédito ao consumo, um banco de investimento… Diria que até sei o que é um banco alimentar, mas um banco social não sei.

Diz que saiu para manter esses princípios, mas alguém lhe pediu para não ter esses princípios ou alguém lhe pôs em cima da mesa uma ideia de banco, ou de operações, que violavam esses princípios a que não quis ceder?

A missão deste conselho de administração era uma missão difícil. Era a missão de separar aquilo que esteve junto cerca de 174 anos, em que as decisões eram tomadas em comum e, portanto, não quer dizer que sejam interesses no sentido errado ou no sentido negativo, mas,de facto, quando temos uma entidade autónoma e de governo autónomo, temos que olhar para os interesses das instituições.

Estamos a falar de interesses autónomos…

Da Caixa Económica e da Associação Mutualista.

A Associação Mutualista é dona a 100% da Caixa Económica. O que se depreende da sua saída é que o presidente e a Associação Mutualista não confiaram em si o suficiente para protagonizar o projeto da Caixa Económica. É isso que devemos entender da sua saída?

Não, julgo que não. Mas isso terá que perguntar ao acionista e não a mim.

"Estimo todos os meus colegas nesta área da gestão, mas com certeza que não deve ter havido nenhuma equipa que gerou, em dois anos, 1.900 milhões de valor.”

José Félix Morgado

Ex-CEO do Montepio

O acionista decidiu que não queria continuar consigo e escolheu outro CEO…

Com certeza, ele terá que explicar essa decisão. Aquilo que posso dizer é que relativamente à missão que tínhamos, a de separação da Caixa Económica, da criação de um modelo de negócio sustentável e do reforço da posição de liquidez e de capital da Caixa Económica, foi cumprido. E foram cumpridos sempre com o apoio do conselho geral de supervisão e dos trabalhadores e com a confiança do Banco de Portugal. Cumprimos a nossa missão. O banco que encontramos em 2015 e o banco que temos hoje é completamente diferente. Basta olhar até para os referenciais de valores de que se falam hoje no mercado. Em 2015, o banco estava numa situação bastante difícil, eventualmente teria um valor próximo de zero e hoje falam-se em valorizações para a totalidade do banco à volta de 1.900 milhões de euros. Quer dizer que esta equipa de gestão gerou, em dois anos, 1.900 milhões de valor. Estimo todos os meus colegas nesta área da gestão, mas com certeza que não deve ter havido nenhuma equipa que gerou, em dois anos, 1.900 milhões de valor.

Voltando ao e-mail, disse que teria sido mais fácil responder a pedidos… que pedidos foram esses?

Eu não vou identificar, em especial, porque não me cumpre fazer isso. Essa foi uma comunicação feita aos trabalhadores, e estes sabem o respeito, a admiração e o compromisso com que esta administração trabalhou, durante estes dois anos. Essa matéria é um tema interno que não vou aqui identificar. O que posso dizer, pela afirmativa, é que nos guiámos pelas melhores práticas em termos de governo interno e pelos princípios éticos e profissionais que são os normais.

Os pedidos que lhe foram feitos não se guiavam pelas melhores práticas do ponto de vista da gestão?

É uma conclusão sua.

Participou em algum momento ao regulador Banco de Portugal, que tem responsabilidade de regulação da Caixa Económica, alguns destes pedidos ou destes interesses? E estes pedidos, que se depreendem da sua carta, punham de algum maneira em causa o rigor e a independência do banco Montepio?

É natural que a separação do governo societário destas duas entidades, que viveram juntas durante 174 anos, tenha criado erosão na relação entre o conselho e o acionista. Portanto, é natural que ao fim de algum tempo essa erosão tenha o resultado que foi este de interrupção do mandato, estando o conselho perfeitamente tranquilo relativamente à missão que cumpriu. Deixe-me acrescentar que tivemos o maior suporte do Banco de Portugal e houve um trabalho sempre muito próximo de total transparência com todos os órgãos sociais e com o regulador.

Como era a sua relação com Tomás Correia? Não partilhavam a mesma ideia para o futuro do banco?

A minha relação com o Dr. Tomás Correia era a relação que um presidente de um banco deve ter com o seu acionista. Se partilhamos a mesma visão relativamente ao banco? Eu entendo que não.

Porquê?

Pelo que acabei de explicar e, por vários outros motivos, e um deles é porque eu não sei o que é que é um banco social.

Mas o banco social não faz sentido?

Não sei o que é. Não sei se faz sentido nem senão. Não sei explicar se faz sentido porque não sei o que é.

A minha relação com o Dr. Tomás Correia era a relação que um presidente de um banco deve ter com o seu acionista. Se partilhamos a mesma visão relativamente ao banco? Eu entendo que não.

José Félix Morgado

Ex-CEO do Montepio

O presidente da Associação Mutualista disse em entrevista que a equipa que liderava não tinha o perfil para esse projeto de banco social. Tomás Correia algum lhe dia lhe explicou o que é queria para esse banco social? No fundo se lhe disse: tenho aqui uma ideia para um banco social, gostava que a protagonizasse?

Não.

Portanto não foi em nenhum momento convidado para sequer protagonizar esse novo ciclo?

Não, claro que não.

  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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