Manuel Tarré: “Salário mínimo de 600 euros é muito pequeno”

O CEO da Gelpeixe defende a redução do Pagamento Especial por Conta, a taxa do sal - embora não com valores tão elevados - e a decisão da ministra Ana Paula Vitorino de proibir a pesca da sardinha.

Manuel Tarré reconhece que um salário mínimo de 600 euros, como a esquerda exige, é muito pequeno, mas também lembra que muitos setores de atividade em Portugal não conseguem suportar um valor tão elevado porque têm muitos trabalhadores e margens financeiras mais pequenas.

Para o CEO da Gelpeixe, empresa que celebra 40 anos de existência, “este ano tem sido atípico”, porque “o consumo tem-se desviado para produtos mais baratos do que o peixe”, um reflexo das dificuldades que as famílias ainda sentem, apesar da política de devolução de rendimentos. “Os orçamentos são pequenos”, defende. Manuel Tarré concorda com a redução do Pagamento Especial por Conta, apoia a taxa do sal — embora não com valores tão elevados — e a decisão da ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, de proibir a pesca da sardinha no norte e centro.

A redução do Pagamento Especial por Conta que já está em vigor é uma medida suficiente para compensar a subida do salário mínimo?

É alguma. Não é muito, mas é alguma. Quando estamos a discutir um salário mínimo que não chega aos 600 euros, independentemente de todas as argumentações, é um salário muito pequeno. Todos deveríamos merecer mais. A esquerda deseja ter os 600 euros, mas deveria aligeirar essa constante reclamação de mais direitos. 600 euros, 585 ou 570… realmente há uma certa diferença. Mas mais diferença faz se as pessoas estiverem empenhadas em fazer o seu trabalho de uma forma correta e envolvida. Para a empresa não é essa pequena diferença que vai contar, conta mais o envolvimento das pessoas.

Quando estamos a discutir um salário mínimo que não chega aos 600 euros, independentemente de todas as argumentações, é um salário muito pequeno. Todos deveríamos merecer mais.

Manuel Tarré

CEO da Gelpeixe

O tecido empresarial português aguenta um salário mínimo de 600 euros, em 2019?

Não tenho a certeza. Alguns setores aguentam, mas outros não conseguem aguentar.

Onde antecipa maiores problemas?

Nas áreas em que são necessários muito mais trabalhadores e em que as margens são muito pequenas e em que existem estes pequenos conflitos. Na área em que estou, e que represento, de transformação do pescado e dos congelados, diria que, com prémios, de forma direta ou indireta, todos ganham acima disso. Na Gelpeixe temos um pacote de colaboradores que estão dentro desses valores, mas depois têm um pacote complementar que ultrapassa esse valor. Mas reconheço que há algumas áreas críticas, que possam pôr em risco a sua existência, rentabilidade e desempenho.

A área da Gelpeixe está intimamente ligada ao consumo das famílias, pelo menos no mercado interno. A política de devolução de rendimentos tem-se refletido na vossa atividade?

Vai-se refletindo lentamente. Este ano tem sido atípico, porque de forma transversal o consumo tem-se desviado para produtos ainda mais baratos do que o peixe. Os orçamentos são pequenos e as pessoas precisam pagar os livros escolares, educar os filhos, comer, pagar a eletricidade, água, rendas e nota-se, em algumas áreas geográficas até, alguma dificuldade em comprar produtos em que o preço por quilo seja menos baixo. Quando temos o preço da sardinha a mais de cinco euros o quilo, e temos o quilo de frango que não chega a dois, torna-se difícil competir, ou com a carne de porco que está relativamente barata. Esta é a realidade. Mas na minha atividade, puxando a brasa à minha sardinha, na proteína animal, o peixe é mais saudável.

Uma das novidades que este Orçamento introduziu foram medidas disciplinadoras de consumos mais nocivos para a saúde, como a taxa do sal ou das bebidas com elevado teor de açúcar. Concorda ou considera que é uma intromissão nos hábitos alimentares dos portugueses?

Há sempre duas faces da mesma moeda. Pudemos dizer que o Estado não tem nada a ver com isso porque o consumidor é livre de tomar o que quiser: beber uma bebida gasificada e com açúcar ou comer algo com sal. Mas o Estado não deixa de ter razão quando tem uma carga hospitalar, de gastos de saúde, muito mais elevada, precisamente por estas condutas que não são disciplinadas. No lugar do Estado também teria muita dificuldade em decidir, mas provavelmente teria decido no sentido daquilo que tem vindo a decidir. Com taxas, num caso ou noutro, não tão pesadas, mas que fazem sentido. E o Estado não está a inventar uma carga fiscal, isto já está a acontecer noutros países da Europa.

Que impacto vai ter na vossa atividade a decisão da ministra do Mar de interditar, em certas zonas do centro e norte, a pesca da sardinha?

A nós a questão da sardinha há muito que nos vem afetando, porque precisávamos de sardinha para exportação e não a temos. É uma medida de coragem, porque provavelmente já deveria ter sido tomada há mais tempo, porque peca por tardia, mas é preferível alguma vez ser feita e resolver o problema da sardinha do que continuar a adotar medidas que tentam agradar a todos e não resolvem o problema. A ministra estará na posse da avaliação dos recursos que temos nas nossas águas e se essa é a melhor decisão estarei com ela, certamente, porque precisamos ter a sardinha com o paladar que estamos habituados. A nossa indústria da conservas consome dezenas de milhares de toneladas e não temos de a importar. A sardinha apesar de ser muito semelhante e ter os seus condimentos não é a mesma que a nacional. Seria muito simpático voltar aos volumes que tínhamos no passado.

[Proibir a pesca da sardinha] é uma medida de coragem, porque provavelmente já deveria ter sido tomada há mais tempo, porque peca por tardia. Mas é preferível alguma vez ser feita e resolver problema da sardinha do que continuar a adotar medidas que tentam agradar a todos e não resolvem o problema.

Manuel Tarré

CEO da Gelpeixe

Receia que outras frotas pesqueiras entrem nas nossas águas territoriais para pescar onde os portugueses estão proibidos?

Esse é um problema que a senhora ministra tem de resolver. O problema do policiamento das nossas águas cabe à polícia marítima. Isso é algo que não pode acontecer. Se as quotas são para cumprir, são para cumprir para as empresas de pesca nacionais e não nacionais.

  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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