• Entrevista por:
  • Marta Santos Silva

Open Access: Como fazer ondas no mercado de artigos científicos que move milhões

"Se estamos todos a pagar subscrições de revistas, milhões de euros por ano, porque não há uma parcela para o open access?", questiona o fundador da primeira editora do tipo em Portugal.

António Vieira foi viver para a Suíça depois de ter passado por Lisboa, Bruxelas e Eslovénia para os seus estudos. Foi lá que descobriu o open access: um movimento no meio académico baseado na ideia de que o conhecimento científico deve ser de acesso livre para todos. Formado em jornalismo e posteriormente ciência política, António começou a trabalhar numa editora suíça de revistas open access e, de regresso a Portugal, fundou uma sua. Agora, a Cogitatio Press já tem quatro revistas: uma de ciência política, uma de sociologia, uma de ciências da comunicação e uma quarta, a mais jovem, de planeamento urbano — todas acessíveis livremente por qualquer pessoa.

Ao ECO, o jovem empresário falou sobre o estado do movimento open access em Portugal, numa altura em que, a nível internacional, os desafios se multiplicam. Por um lado, os investigadores e académicos são incentivados a publicar principalmente em revistas com Impact Factor para progredirem na carreira. O Impact Factor é uma forma de medir a importância de uma revista científica que deixa desfavorecidas as revistas mais jovens e de acesso livre, e favorece as mais antigas e já instaladas, que pedem subscrições milionárias às instituições. Por outro, as universidades dedicam os seus orçamentos ao pagamento dessas subscrições para poderem dar aos seus investigadores o acesso de que precisam aos artigos científicos publicados nas revistas de subscrição, desde a Nature à The Lancet, preferindo não investir em revistas de acesso livre que pedem (relativamente) pequenas taxas para publicar os artigos dos seus autores.

Onde está a Cogitatio Press? Bem no meio deste movimento em processo de revolução. O movimento open access tem dois braços: o green e o gold. O gold open access baseia-se em revistas independentes que publiquem artigos científicos, com um processo de revisão tão rigoroso como o das revistas de subscrição. O green open access, por sua vez, era inicialmente considerado como um passo anterior ao da chegada ao gold: trata-se do arquivo, em repositórios, de artigos que já foram aceites em revistas de subscrição, e passaram por isso por um processo de revisão. A Cogitatio Press segue o modelo gold, o que a obriga a cobrar pela publicação de certos artigos — que nem todos veem com bons olhos.

Como começou esta aventura nas revistas open acess?

Começámos com três revistas, sobretudo na área das ciências sociais: uma na área da política, outra da comunicação, outra da sociologia. No ano passado lançámos uma nova na área do urbanismo, portanto neste momento temos quatro. São as quatro internacionais, portanto publicamos exclusivamente em inglês.

Todas elas são open access, não há nenhum artigo que não possa ser acedido por qualquer pessoa, e em áreas que eu acredito que é fundamental que o conhecimento esteja livremente acessível. Acredito em princípio que o conhecimento científico tem de estar livremente acessível, mas aqui tenho de puxar também a brasa à minha sardinha: na área das ciências sociais ainda é mais importante o público em geral conseguir aceder, porque o conhecimento e o interesse que poderá ter nessas áreas será um bocadinho maior do que nas ciências como a física aplicada. Quer queiramos quer não são áreas diferentes e por natureza o interesse do público em geral poderá ser maior.

Encontram relutância dos autores em publicar em open access, em vez de em revistas de acesso condicionado de grande renome?

Na área das ciências sociais ainda não é muito bem visto, porque os autores pensam que o open access e a necessidade de pagar para publicar diminuem a credibilidade do trabalho deles. O que tentamos fazer os autores ver é que pagar para publicar nada tem a ver com a credibilidade, porque o processo que temos de revisão de pares é exatamente igual ao de uma revista de subscrição. A única diferença é que deixamos o trabalho acessível para toda a gente.

O movimento do open access na área das ciências sociais ainda é muito novo e o apoio que é dado é muito reduzido, quando comparado com as ciências exatas. A verdade é que também há revistas científicas em open access na área das ciências sociais onde não se paga para publicar.

António Vieira tinha menos de 30 anos quando decidiu fundar a editora de revistas científicas open access Cogitatio Press.Paula Nunes/ECO

São modelos de negócio diferentes?

Muitas das revistas em que não é preciso pagar taxa de publicação estão associadas à própria universidade, em modelo green open access. Os professores e quem trabalha com as revistas fazem-no um pouco de forma voluntária e estão a ser pagos já pela universidade. Têm a vantagem de ser, lá está, gratuito, mas claro que também tem algumas desvantagens, porque o serviço que é prestado por estas revistas não é um serviço se calhar tão célere nem tão profissional quanto o de uma editora que se dedique exclusivamente a esse meio e a essas revistas.

Quais são as vantagens de publicar numa revista de open access?

São a todos os níveis para todos. Sabemos que no mundo académico cada vez mais as publicações e o número de citações que os investigadores têm são critérios a ter em conta na progressão na carreira. Portanto, a vantagem para o académico é que o trabalho está disponível livremente para todas as pessoas e como tal a probabilidade de ele ter citações é maior. A vantagem é também para a sociedade em geral: a de poder ter acesso a conhecimento que de outra forma não teria.

Como vê o open access em Portugal? Em que pé estamos?

Está muito fraco, sinceramente. Dá-se muita ênfase ao green open access, que é a possibilidade de se colocar um artigo num repositório institucional da universidade. Está-se a caminhar muito nesse sentido, e não tanto no chamado gold open access: o modelo que nós utilizamos de publicação em revistas científicas em open access.

Tem de haver muito mais formação para os académicos nesse sentido sobre o open access. Depois é preciso criar as condições para que os autores o possam fazer. Temos uma taxa de publicação mas acreditamos que não é o autor que deve pagar esta taxa. Defendemos que as universidades, da mesma forma que já estão a financiar revistas de acesso restrito, de subscrição, também o façam em revistas de open access.

Se há dinheiro alocado para um tipo de revistas que está a restringir o acesso, tem de haver aqui uma mudança de paradigma. Com um artigo que esteja publicado numa revista de subscrição, com acesso restrito, todas as universidades têm de pagar para aceder àquele artigo. Porque não fazer ao contrário? A universidade paga para publicar o artigo de um autor da sua academia e qualquer pessoa de outra universidade, ou de uma ONG, ou um jornalista, pode aceder ao artigo para toda a eternidade sem pagar nada.

Eu tenho consciência de que a taxa de publicação que cobramos não é exequível em Portugal. É por isso que nós nem sequer trabalhamos com autores portugueses, não é por falta de vontade mas as condições em Portugal não o permitem.

António Vieira

Fundador da Cogitatio Press

Quais são os custos envolvidos numa revista open access?

Temos editores, pessoas que trabalham para a revista, portanto temos os salários e todas as taxas e impostos que é preciso pagar. Depois temos de ter um escritório e materiais de trabalho. Temos o sistema informático, os custos do site e de manter os artigos online, temos um informático, e depois temos a parte da edição, layout, o paginador tem de paginar os artigos. No nosso caso de uma pequena editora um artigo tem de cobrir vários custos que temos e, às vezes, é difícil.

Qual é que costuma ser a taxa de publicação?

A nossa taxa é de 900 euros. Dependendo do autor e do caso podemos ter a possibilidade de atribuir descontos ou até de oferecer a publicação. Sabemos que 900 euros não é o mesmo para um autor nos Estados Unidos, Canadá ou Norte da Europa ou, por exemplo, na América do Sul, África ou na Ásia. Como subsistimos unicamente destas taxas de publicação, não podemos publicar todos de graça ou atribuir descontos a todos.

Temos ainda um programa de afiliados a que as universidades podem juntar-se, pagando uma taxa anual de associação de cerca de 1200 euros com a vantagem de depois não pagar artigo a artigo.

Tenho consciência de que a taxa de publicação que cobramos não é exequível em Portugal. É por isso que nem sequer trabalhamos com autores portugueses, não é por falta de vontade, mas as condições em Portugal não o permitem.

Que certificações de qualidade existem para as revistas da Cogitatio?

Existem alguns critérios que muitas universidades já utilizam para distinguir o que é que são os bons e os maus. Estamos no DOAJ (Diretório de Revistas Open Access), e somos membros da organização de publishers de editoras em open access, que é outra associação que também garante que quem se junta são editoras que cumprem os requisitos em termos de qualidade. Uma terceira forma de garantia é que as nossas revistas apesar de serem muito novas já estão indexadas nas bases de dados: em duas das maiores, na Web of Science e no SCOPUS.

A Cogitatio Press tem atualmente quatro revistas: uma de comunicação e média, uma de ciência política, uma de sociologia e uma de planeamento urbano.Paula Nunes/ECO

Parece que há um círculo vicioso em que as maiores editoras de revistas de subscrição, chamadas legacy, podem aumentar os preços, refazer acordos, e as universidades têm pouco poder para negociar. Como se pode quebrar esse círculo?

Vai ser muito difícil de quebrar. As universidades vão estar sempre muito dependentes das grandes editoras porque têm basicamente um monopólio das revistas: têm milhares e milhares de revistas científicas, e sabem que os seus autores e académicos precisam de aceder a essas mesmas revistas, por isso acabam por ter aqui a faca e o queijo na mão.

De que forma é que se pode quebrar? Vendo aqui da nossa perspetiva, é as universidades também apoiarem e colaborarem cada vez mais com pequenas editoras como a nossa. Temos às vezes casos em que tentamos estabelecer parcerias com universidades porque temos até autores que querem colaborar connosco mas as bibliotecas dizem “não temos fundos, não podemos colaborar com vocês porque já estão todos alocados para as grandes editoras.” Sendo assim é sempre um bocadinho difícil de quebrar este círculo vicioso.

Como é que responderia àqueles no movimento open access que veem com maus olhos as revistas com taxas para publicação?

Leiam a revista. É o mais simples. Se o medo das pessoas é que por haver taxa de publicação é de má qualidade, leiam a revista, e aí vão descobrir se realmente é de qualidade ou não é. Tenham outros fatores em conta: onde é que a revista está indexada? Está nas melhores bases de dados, que são criteriosas em quem escolhem? Se estiver, é bom sinal, é porque tem qualidade.

Aos académicos, recomendo que procurem perceber se realmente têm apoios para publicar em revistas que têm taxa de publicação, porque notamos muitas vezes que as pessoas não têm conhecimento. As próprias universidades, muitas já têm fundos específicos para publicar em revistas open access. Se estamos todos a pagar subscrições de revistas, milhões de euros por ano, e milhões não é um pleonasmo, é a realidade, se há dinheiro para isso, porque não há, mesmo que seja uma parcela, para canalizar para revistas em open access? E têm de ser os próprios académicos a demonstrar esse interesse, porque é do benefício deles e dos colegas.

Acha que se joga aqui o papel do Impact Factor de uma publicação, e de os académicos preferirem publicar onde ele existe?

Muito, infelizmente é aqui um bocadinho o calcanhar de Aquiles. Não só em Portugal como a nível mundial os autores estão a ser incutidos a publicar exclusivamente em revistas que têm Impact Factor. Percebo que, de certo modo, às vezes é preciso ter uma forma mais quantitativa de analisar o percurso do académico e aquilo que é feito, se bem que nem sempre o Impact Factor dá realmente a dimensão que se quer dar a esse número.

E isso para a revista de open access ou qualquer outra revista que surja é muito complicado, porque para se conseguir um Impact Factor, a revista tem de conseguir entrar na Web of Science, publicar durante vários anos, e a Thomsom Reuters que é responsável por este Impact Factor só aceita uma percentagem mínima de revistas para integração por ano. Conclusão: uma revista nova, como é o caso das nossas, que surja há pouco tempo e tenha dois ou três anos de existência pode estar a publicar artigos fantásticos, com extrema qualidade, mas não pode ter um Impact Factor. É raríssima ainda a revista em open access que o tenha.

  • Marta Santos Silva
  • Redatora

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