Patrícia Caixinha (STAS): “O sindicalismo tem de mudar o seu mind set tradicional”

O que pensa a primeira mulher presidente do poderoso sindicato dos seguros e como quer preparar a defesa dos trabalhadores para a era digital.

A presidente do STAS quer distinguir trabalhadores sindicalizados daqueles que o não são: “Quem não contribui para os custos da negociação coletiva não pode ter os mesmos benefícios”.Hugo Amaral/ECO

A socióloga Patrícia Caixinha, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Atividade Seguradora (STAS), quer adaptar a sua missão aos novos tempos: “A era digital veio revolucionar o modelo das organizações e de trabalho, a pandemia veio acelerar essa necessidade de adaptação, pelo que o mundo sindical precisa também ele de se adaptar e reinventar a todas estas mudanças”. Aos 45 anos e mestranda no ISCTE em sociologia, está a preparar uma tese exatamente sobre “O Sindicalismo e a Era Digital”. Começou atividade profissional na Império há 23 anos como administrativa e esteve em gestão de sinistros já na Fidelidade.

O STAS, sindicato fundador e membro da UGT, é o mais representativo do setor segurador, partilhando a defesa dos trabalhadores com o Sisep, também filiado na UGT e com o Sinapsa afeto à CGTP. O STAS é também representado na FEBASE – Federação do Sector Financeiro por Patrícia Caixinha que aponta para algumas empresas que “preferem manter-nos afastados – porque a lei assim o permite – quando o resultado se trabalhássemos conjuntamente certamente poderia ser bem mais proveitoso”, refere nesta entrevista que concedeu a ECOseguros.

Como pode o sindicalismo agir nos tempos económico-sociais atuais? Não apenas com guerra e pandemia, mas nesta década 2020…

O sindicalismo atual tem necessariamente de se adaptar a um mundo laboral diferente, onde surgem novas realidades e formas de trabalhar, e por isso tem de mudar o seu mind set de um modelo de sindicalismo tradicional que já não serve porque está desatualizado e desajustado. A era digital veio revolucionar o modelo das organizações e de trabalho, a pandemia veio acelerar essa necessidade de adaptação, pelo que o mundo sindical precisa também ele de se adaptar e reinventar a todas estas mudanças.

Como tem evoluído o sindicalismo nas últimas décadas. Negociar hoje é muito diferente do que era há 20 anos?

Bem, há 20 anos eu pessoalmente ainda não negociava…, mas posso dizer que relativamente há 14 anos existem algumas diferenças, sobretudo no setor segurador. Em primeiro lugar, os valores percentuais negociados para as tabelas salariais passaram a ser negociados em euros e os valores negociados, porque a inflação normalizou, verificaram-se mais baixos. A título de exemplo, no ano 2002, a percentagem de aumento negociada pelos sindicatos do setor foi de 2,62. Atualmente, negociamos diversas tabelas, mas apenas a da empresa Caravela se aproximou deste número em 2020. Passámos a negociar instrumentos de regulamentação coletiva (IRCT) diferentes e personalizados, adequados a cada empresa e, em consequência, várias mesas negociais em simultâneo. Mais recentemente a negociação coletiva, e até os processos de conciliação no Ministério do Trabalho, passaram a ser possíveis online.

Tem havido boa adaptação a essa nova realidade?

Os sindicatos em geral, e o STAS em particular, têm procurado adaptar-se às rápidas transformações que têm surgido no contexto laboral, e no setor segurador em particular.

Os diversos Acordos de Empresa mostram diferenças que estão interligadas com o posicionamento que cada empresa detém no mercado, à sua sustentabilidade económica e financeira, a sua própria gestão e estrutura organizacional

Os contratos coletivos ainda são adequados?

Na atividade seguradora atualmente só o setor da mediação e da corretagem tem um Contrato Coletivo de Trabalho (CCT) que foi revisto totalmente em 2018 e que é aplicado a todos os trabalhadores e trabalhadoras desse setor desde que sindicalizados nos sindicatos outorgantes. Nessa revisão, procurámos adaptar e ajustar à realidade do setor e ao negócio o instrumento que negociámos de raiz, procurando incluir melhorias significativas e uma mais próxima adequação ao setor de atividade.

No setor segurador, desde 2012 que a contratação coletiva no setor encontrou uma adequação mais próxima da realidade organizacional. Até aí tínhamos um único contrato coletivo que refletia um setor de há 40 anos atrás. O mercado de trabalho foi evoluindo, as categorias e funções internamente também, e houve uma necessidade de evoluirmos em termos de contratação coletiva. Por exemplo, existia ainda no setor a categoria de “operador de máquinas de contabilidade”, uma categoria ultrapassada para a realidade da atividade.

Como está a situação atual quanto a convenções particulares?

Atualmente no setor segurador temos 6 Acordos Coletivos de Trabalho (ACT) sendo um destes subscrito por 25 empresas, e 6 Acordos de Empresa (AE), o que permite adequar a contratação coletiva à realidade interna de cada empresa.

As convenções de empresa são hoje mais ajustadas à realidade económica do setor?

Os designados acordos de empresa procuram refletir a realidade organizacional de uma organização. Os diversos AE mostram diferenças que estão interligadas com o posicionamento que cada empresa detém no mercado, à sua sustentabilidade económica e financeira, a sua própria gestão e estrutura organizacional.

Como tem evoluído a relação do sindicato com o Estado, Governo, outras instituições públicas? E qual a situação atual?

O STAS é independente e autónomo em relação ao governo e outras instituições, mas temos tido uma relação cordial e diplomática, participando nas matérias laborais que somos solicitados quando tal é necessário, até porque temos representação na UGT que, por sua vez é parceira na concertação social. Fazemos parte do grupo de trabalho de negociação coletiva da UGT, e temos prestado diversos contributos nomeadamente com a experiência que temos no que diz respeito à atividade seguradora.

Temos ainda procurado interceder em algumas matérias que consideramos pertinentes, e participado na discussão de algumas questões laborais pertinentes, dando a conhecer a realidade do setor, como, entre outras, em Portarias de Extensão e legislação laboral nomeadamente quanto ao Teletrabalho.

Atualmente, assistimos ao reconhecimento de grandes sindicalistas, mulheres e homens, que foram chamados para fazer parte desta legislatura, o que revela a importância do sindicalismo, dos sindicatos e dos sindicalistas.

Tenho preocupações relativas a conseguir-se garantir que a nova vaga de trabalhadores e trabalhadoras altamente qualificados no setor sejam justamente valorizados, remunerados e compensados pela empresa

Tem existido modificação do perfil dos trabalhadores dos seguros? E dos sindicalizados?

O perfil dos trabalhadores e trabalhadoras de seguros tem vindo a modificar-se, até pelas próprias exigências do mercado e do setor. Mão de obra mais qualificada, e altamente qualificada, habilitações literárias mínimas mais elevadas, jovens, e com um conhecimento e aptidão para as tecnologias da informação e da comunicação.

Os sindicalizados têm modificado de perfil, mas um ritmo diferente e bem mais moderado. A juventude tem alguma resistência em se sindicalizar, por um lado, e por outro ainda persiste a crença (diga-se errada) de que os sindicatos “não servem para nada”. O grande desafio sindical é captar novos sócios quando a atividade seguradora está em profunda transformação, a que a pandemia e o teletrabalho vieram acelerar.

Quais são as suas principais preocupações relativas ao futuro dos trabalhadores dos seguros?

São sobretudo preocupações relativas ao surgimento de novas formas (atípicas) de trabalhar, e a sua conciliação com os diversos aspetos da vida familiar, pessoal e profissional:

  • São os efeitos da digitalização e a adaptação desta nova realidade ao negócio, às pessoas e à produtividade;
  • São preocupações relativas a progressões na carreira e a sistemas justos de avaliação de desempenho;
  • São preocupações relativas a conseguir-se garantir que a nova vaga de trabalhadores e trabalhadoras altamente qualificados no setor sejam justamente valorizados, remunerados e compensados pela empresa;
  • Preocupações relativas ao reconhecimento e valorização dos trabalhadores, e em particular, dos mais antigos, que ainda são válidos para as empresas, mas que já sentem a pressão da idade no mercado de trabalho;
  • São preocupações relativas à sindicalização e à necessidade de fazer passar a ideia de que sem sindicatos não há negociação e que os sindicatos negoceiam para os sindicalizados/as.

Como caracteriza o diálogo com as associações empresariais e com as empresas?

O STAS sempre se pautou por praticar um sindicalismo responsável e de entendimento. Por isso privilegiamos o diálogo acima de tudo, quando este é viável. No setor segurador, o diálogo e a relação com as associações empresariais e com as empresas têm sido cordiais e possíveis de chegar a entendimento, em parte porque o STAS é reconhecido no setor pela sua excelente capacidade para chegar a consensos. Os meus antecessores, pela sua competência e pela sua capacidade relacional e institucional ao longo dos anos, contribuíram para o posicionamento atual do sindicato. Tudo farei para manter as boas relações institucionais que foram criadas.

A distância ideológica e a postura (dos outros sindicatos) fazem com que discordemos de algumas matérias mais sensíveis. Ainda assim, até ao momento, temos vindo a conseguir manter uma mesa negocial única

Quais as medidas que imediatamente gostava de ver em prática?

Uma das medidas que gostava de ver em prática é um tanto ou quanto polémica, mas igualmente necessária. Trata-se de formalizar uma clara distinção entre quem é sindicalizado e quem não é sindicalizado. Quem não contribui para os custos da negociação coletiva, que é feita pelos sindicatos, não pode ter os mesmos benefícios. Por outro lado, gostava que existisse um reconhecimento por parte das empresas para um maior envolvimento dos sindicatos em matérias de caráter laboral, para além daquelas que conseguimos trazer para as mesas negociais. O STAS está sempre disponível para encontrar soluções e, muitas vezes, algumas empresas, preferem manter-nos afastados (porque a lei assim o permite) quando o resultado se o trabalhássemos conjuntamente, certamente poderia ser bem mais proveitoso. Creio que é necessária, também aqui uma mudança de mentalidade de que, apesar daquilo que nos separa, é possível melhorar se trabalharmos juntos e, acima de tudo, se houver essa disponibilidade e abertura para o fazer.

Sendo o STAS fundador da UGT, sente que o setor tem peso na estrutura da central?

O setor financeiro, globalmente, tem um grande peso na estrutura da UGT, atendendo que engloba os sindicatos mais representativos do setor e da própria central, pela sua dimensão e expressão a nível nacional. Quanto ao STAS, até aqui, no seio da central, é um sindicato que, com a sua dimensão e representatividade individual, tem sido solicitado para participar e contribuir em diversos fóruns, desde a negociação coletiva às questões da juventude e da igualdade e não discriminação.

Como são as relações com os outros sindicatos setoriais? A ideologia continua a ter muita influência no diálogo social prático?

Procuramos manter relações cordiais sempre que possível. Efetivamente, por vezes, a distância ideológica e a postura fazem com que discordemos de algumas matérias mais sensíveis. Ainda assim, até ao momento, temos vindo a conseguir manter uma mesa negocial única. No setor existem três sindicatos principais que negoceiam na mesma mesa, um afeto à CGTP e os outros dois afetos à UGT. O STAS, na maior parte das vezes, apresenta propostas conjuntas com o outro sindicato da mesma central sindical.

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