“Vejo uma certa analogia entre Seguro e Rio”

O que o "PS deve fazer de forma clara é pedir o maior número de votos possível", diz Brilhante Dias. Mas não a maioria absoluta, porque isso seria "um elemento de quase chantagem sobre os eleitores".

Eurico Brilhante Dias recusa pedir uma maioria absoluta para o PS porque “isso seria um elemento de quase chantagem sobre os eleitores”. No entanto, o partido “deve pedir o maior número de votos possíveis”, defende o secretário de Estado da Internacionalização em entrevista ao ECO. E com as sondagens a colocarem sistematicamente o PS na liderança, depois de uma vitória nas eleições europeias, o segurista reconhece semelhanças entre Rui Rio e António José Seguro: ambos têm problemas com o grupo parlamentar e se um foi líder num momento em que “do ponto de vista psicológico nunca o país esteve tão preparado para sofrer austeridade como em 2011”, o outro é confrontado com “os bons resultados da economia” que “são bons para o Governo e para o país, mas dificultam a vida de qualquer líder da oposição”.

Já em entrevistas e declarações públicas passadas disse que o PS deveria lutar pela maioria absoluta, embora sem a a pedir diretamente.

Não disse isso assim tão diretamente.

Tendo em conta os resultados das eleições europeias é o momento de pedir diretamente a maioria absoluta?

Isso seria um elemento de quase chantagem sobre os eleitores que não ficaria bem.

Houve no passado partidos que já pediram maiorias absolutas.

As maiorias absolutas acontecem quando os eleitores, ou a maioria dos eleitores entende que deve dar áquele partido, naquele momento, uma autonomia de Governo. Por razões de estabilidade política e por razões de implementação do programa político. São as duas razões fundamentais. E para a estabilidade há sempre um elemento decisivo que é o medo — ou seja, as pessoas não querem instabilidade e, portanto, colocam muitos ovos, muitos votos naquele partido. Segundo, porque consideram que aquele programa político deve ter ou continuidade, ou deve ser implementado com uma determinada autonomia política. Isso aconteceu na vida política portuguesa muito poucas vezes. Aconteceu com Cavaco Silva por duas vezes. E aconteceu com José Sócrates em 2005. O PS o que deve fazer de forma clara é pedir o maior número de votos possível. Isso eu digo e sublinho outra vez. É legítimo que o PS queira ter o maior número de votos possível e ninguém nos deve coibir de querermos ter o maior número de votos possível para o nosso programa. Neste caso para o programa do Partido Socialista.

O PS o que deve fazer de forma clara é pedir o maior número de votos possível. Isso eu digo e sublinho outra vez. É legítimo que o PS queira ter o maior número de votos possível .

Os resultados das europeias e os desenvolvimentos que a vida política têm tido nas últimas semanas, com um maior confronto entre o PS e os partidos mais à esquerda, favorecem um melhor resultado do PS nas urnas?

Não. Essa maior confrontação que tem tido ilustrações no Parlamento — esta discussão da Lei de Bases da Saúde é apenas um pormenor — tem a ver com o facto de termos ultrapassado uma determinada fase da política portuguesa. O Partido Socialista no princípio desta legislatura confrontava-se com as dúvidas de que seria possível executar um determinado programa e ao mesmo tempo permanecer dentro das regras do euro. Essa fase obrigou e teve uma maior confrontação é evidente com o PSD e CDS, que tinha a ver, precisamente, com um ponto: o PSD e o CDS consideravam que o programa do PS, ainda para mais com os acordos com o Bloco de Esquerda e com o PCP, não era compaginável com as regras do euro. A confrontação deu-se até mesmo pelo passado da legislatura anterior. E como se recordará, nunca fugi a essa questão, porque seria uma hipocrisia política absoluta, eu próprio tive dúvidas, que manifestei fortemente, que fosse possível aplicar aquele programa e cumprir as regras do euro.

Nesta fase há uma segunda dimensão. PSD e CDS, de alguma forma, percebem que o programa foi possível cumprindo as regras do euro. Mas Bloco de Esquerda e PCP, legitimamente — a questão não se põe assim, não há uma legitimidade democrática, ou falta dela neste caso — olham para este programa e consideram: “sim foi possível, mas consideramos que queremos ir muito mais além”. Ora, o Partido Socialista aquilo que diz é que é possível fazer uma política diferente. Não precisamos de replicar aquilo que foi feito nos anos da troika. Mas consideramos que é preciso ir mais à frente, sem nunca descurar e sem nunca colocar em causa a participação de Portugal no projeto do euro e de forma mais lata no projeto da União Europeia. É evidente que o PCP e o Bloco de Esquerda nunca foram partidos europeístas e não o são agora. São partidos que sempre apresentaram uma forte dose euroceticismo e, portanto, não se sentem vinculados politicamente ao euro ou até à União Europeia. O PS não. O PS é um partido da Europa.

Mas o problema não tem sido da Europa. Na campanha para as Europeias, PCP e Bloco tiveram um discurso muito menos anti-euro que seria de esperar.

A questão que está na base, a questão subliminar, é a presença no euro. Para mim é evidente.

Isso não é fugir à questão? O que divide, neste momento, PCP e Bloco do PS não será o desejo da esquerda de maior devolução de rendimentos, um programa muito mais à esquerda? Já o PS parece apostado em colocar-se ao centro, tornando possíveis acordos com o PSD ao nível do Código de Trabalho ou da Lei de Bases da Saúde.

Não me parece. A questão central é o euro e continua a ser o euro e a participação na União Europeia. E aí discordo até de alguns camaradas meus. Não é por acaso que alguns, até dos meus camaradas, gostam menos de discutir a Europa e discutir medidas em concreto. Ora a questão posta por António Costa, até se quisermos recuar às primárias do Partido Socialista, com António José Seguro, sempre foi — para além nesse momento uma questão de personalidades evidente, e de lideranças e de estilos de liderança que esteve em causa — dizer que somos capazes de fazer uma política diferente permanecendo no euro. A questão de ir mais além, de aumentar a despesa pública, em particular, está sempre primeiro, na medida em que consideramos que isso é incompatível com uma sustentabilidade das contas públicas, que nos permita continuar a salvaguardar os portugueses de momentos muito traumáticos que não queremos voltar a repetir. E, segundo, porque consideramos que há um conjunto de obrigações no quadro da União Europeia e do euro que devem ser respeitadas. E, portanto, esse elementos está lá sempre. Ninguém duvida que o Partido Socialista gostaria de corresponder ao pedido dos professores de contar os nove anos, quatro meses e dois dias. Ninguém duvida que em muitas áreas de governação gostaríamos, desde já, de poder fazer um aumento mais substancial da despesa. Agora, isso poderia ser fortemente arriscado, temerário e muito desequilibrado do ponto de vista daquilo que é a proteção do equilíbrio das contas públicas. Ao mesmo tempo que colocaria Portugal sob um escrutínio que não queremos ter.

Eurico Brilhante Dias, Secretário de Estado da Internacionalização, em entrevista ao ECO - 24JUN19
“Já passei pela difícil circunstância de ser membro de uma direção que, em determinados momentos, considerou que era mais importante servir o país do que ter um pequeno fugacho de circunstância na oposição”, lembra Eurico Brilhante Dias, num paralelismo entre Rui Rio e António José Seguro.Hugo Amaral/ECO

O bom resultado que o Partido Socialista conseguiu em termos de contas públicas garante a Mário Centeno uma legítima aspiração europeia?

Ele é presidente do Eurogrupo.

Mas quer ser mais do que isso? Libertar-se das amarras do Governo português e ter uma carreira europeia?

Acho que ele não se sente amarrado. É uma honra para qualquer português servir o seu país no Governo. Não vejo as coisas assim. O Governo português libertou-se ele próprio de uma certa desconfiança inicial, mesmo nas instituições europeias para ser hoje um protagonista europeu.

Vê algum tipo de analogia entre António José Seguro e Rui Rio?

Vejo. Essa é a forma mais simpática de pôr a questão. Vejo. São contextos muito diferentes. António José Seguro foi o líder do Partido Socialista na oposição, depois de Portugal pedir um resgate. Resgate pedido na altura pelo seu próprio partido e numa circunstância em que os portugueses estiveram mais preparados do que nunca para sofrer austeridade. Depois viu-se mais à frente que não estavam tão preparados assim. Mas do ponto de vista psicológico nunca o país esteve tão preparado para sofrer austeridade como em 2011. Mesmo no tempo em que muitos dos banqueiros desta praça diziam que o problema eram as contas públicas, que a banca estava em ótimas condições e não precisava de ajuda. Portanto, António José Seguro enfrentou uma situação muito difícil. Também, não vale a pena escondê-lo, com um grupo parlamentar adverso. Rui Rio é líder do PSD, não quero entrar em discussões do PSD, mas também num contexto onde nem sempre tem tido o apoio do seu grupo parlamentar, pelo menos de forma explícita e numa situação em que, é evidente, não vale a pena escondê-lo, os bons resultados da economia são bons para o Governo e para o país, mas dificultam a vida de qualquer líder da oposição.

É um tiro no pé Rui Rio dar a mão ao PS, mesmo que seja em matérias consideradas estruturais?

Não, acho que… Não quero comentar Rui Rio. Mas também já passei pela difícil circunstância de ser membro de uma direção que, em determinados momentos, considerou que era mais importante servir o país do que ter um pequeno fugacho de circunstância na oposição. Portanto, perceberei sempre qualquer líder partidário que num determinado momento perceba que é preciso dar o seu apoio a algo que pode não ser fantasticamente recebido pela sua base de apoio, ou não ser eleitoralmente muito interessante, mas que o país precisa. Deve assumir esse risco. Aliás, os grandes líderes veem-se em circunstâncias em que, muitas vezes, têm de confrontar o seu próprio eleitorado e a sua própria base de apoio como uma decisão difícil.

A generalidade dos cidadãos compreende o momento em que, de forma solitária e isolada, um líder político, ouvindo toda a gente, praticamente tem de tomar uma decisão que pode não ser popular.

Portugal não tem maturidade política para pactos de regime? Há matérias mais altas do que esses “fogachos” que apenas servem para retirar dividendos políticos?

Antes pelo contrário. Há sempre uma espécie de, mal comparando, apoiantes de ultras, quase como se fossem claques de futebol que não compreendem. Mas acho que a generalidade dos cidadãos compreende o momento em que, de forma solitária e isolada, um líder político, ouvindo toda a gente, praticamente tem de tomar uma decisão que pode não ser popular. António Costa percebeu-o muito bem quando assumiu a posição que assumiu na questão dos professores. Percebeu muito bem que aquela decisão era prejudicial ao país e colocaria Portugal numa situação precária.

Só os outros partidos é que não perceberam que os portugueses não estavam do lado dos professores.

Isto não é contra os professores.

Era uma luta contra uma classe que estava a pedir privilégio adicionais face à generalidade da Função Pública?

Sou filho de uma professora. Não é isso que está em causa. São um grupo eleitoral com muita expressão e que vota. Se calhar seria muito mais simpático, circunstancialmente, ter… Naquele momento era preciso dizer claramente que o país não podia aceitar ou suportaria aquela decisão.

Como comenta o episódio da ‘Operação Teia’ em que o facto da mulher do autarca de Santo Tirso ter dado o seu telemóvel ao autarca de Barcelos foi considerado um favor político? O seu telemóvel é um favor político?

Isso não é de certeza, até porque não há nenhum presidente de câmara que precise pedir o meu número de telefone a quem quer que seja. É um episódio. Passo a vida a falar com autarcas por razões de investimento, do Algarve ao Minho, incluindo Madeira e Açores. É muito comum falar com autarcas ou porque há um convite explícito para lá ir por causa de uma empresa ou, a maioria das vezes, por questões de localização de investimento. É o caso de Santo Tirso com quem falei várias vezes ultimamente, antes do pedido de demissão e do caso em concreto. Falei duas ou três vezes com o autarca de Santo Tirso, tal como a Aicep. Foi um caso que achei um bocadinho inaudito. Não é uma ação minha. O caso mais curioso foi um amigo meu militante do PS que disse que daquela história toda se tirava pelo menos uma conclusão.

Que era?

Que o Brilhante tinha um telemóvel muito valioso. Não pude deixar de rir porque acho que não tenho um telemóvel particularmente valioso. Mas sei uma coisa: o lugar que ocupo é de grande responsabilidade que me obriga a particulares exigências de ética. Falo todos os dias de muito dinheiro, de muitas empresas, de interesses privados, que defendemos aqui do ponto de vista público, porque quando defendemos mais exportações, mais investimento para Portugal, mais investimento português fora, evidentemente falo de muitos interesses privados também. Que canalizamos do ponto de vista do interesse público: que o país exporte mais, crie mais postos de trabalho, que tenha mais fluxos de capital de rendimento que venham de fora para dentro e que perseguimos objetivos da comunidade. Mas são objetivos da comunidade que tenho absoluta noção que muitas vezes também são interesses privados. E a gestão desse interesse público que é confluente com interesses privados é uma gestão que deve ser muito fina e que nos obriga a um escrutínio diário. É por isso que aqui temos um princípio: nunca ninguém resolve um assunto sozinho, ninguém. Não desconfiamos de ninguém, não é isso que está em causa. É uma questão de proteção das próprias pessoas e de blindar o sistema. E claro, como às vezes brinco aqui dentro, não esquecer que estamos a construir uma longa lista de incompatibilidades.

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