Cartazes, bonés e jantares. Onde os partidos gastam o dinheiro das campanhas?

Há quem invista mais a decorar salas e quem aposte nas agências de comunicação, quem prefira bonés aos cachecóis, ou helicópteros a barcos. O ECO foi ver como os partidos gastam para ganhar votos.

Um helicóptero, um barco, muitos bonés e cachecóis, e até sementes biológicas. Na caça ao voto, cada partido tem a sua estratégia e as suas prioridades, considerando o eleitorado que querem convencer. Mas como gastam os partidos o dinheiro que o Estado lhes entrega numa campanha eleitoral para a Assembleia da República? O ECO foi ver ao detalhe as contas dos partidos, na última campanha às legislativas, para perceber no que os partidos, com assento parlamentar, gastaram os quase dez milhões de euros investidos na luta pelos 230 lugares disponíveis no Parlamento.

Uma campanha para as eleições legislativas é exigente mas, oficialmente, dura apenas duas semanas. No entanto, as máquinas partidárias começam a aquecer muito antes. Os candidatos a deputados passam as últimas semanas nos seus círculos eleitorais a lembrar o eleitorado e a tentar convencer os indecisos, numa luta sempre renhida. Da rota da carne assada, às festas locais, por todo o país há jantares, comícios, arruadas, churrascos e até sardinhadas.

Mas cada partido tem a sua própria estratégia. Para perceber as apostas de cada um, o ECO analisou as despesas reportadas pelos partidos na lista de ações e meios por candidatura nas eleições legislativas de 2015, as últimas de que há dados fechados, e perceber as diferenças entre cada um e as suas principais apostas.

PS gastou mais a decorar salas

A forma como os dois maiores partidos fazerem campanha, globalmente, não difere muito. Os jantares e os grandes comícios, as arruadas, mais as caravanas que juntam um grande número de candidatos aos maiores círculos eleitorais do país. Mas, no detalhe, há algumas diferenças importantes.

Em 2015, já com António Costa na liderança, o PS foi o partido — que não em coligação — que mais gastou na corrida (cerca de 3,2 milhões de euros no total). Mais 637 mil euros face ao orçamento apresentado ao Tribunal Constitucional. O maior gasto reportado, que foi possível apurar na sua lista de ações e meios, foi em decoração de salas.

De acordo com as faturas apresentadas pelo PS, perto de 690 mil euros (cerca de 21% do seu orçamento) foram gastos na decoração das salas usadas nas suas ações de campanha, como jantares e comícios realizados pelo país, e as celebrações da noite eleitoral. No entanto, o uso dessas salas e espaços custou apenas 48 mil euros, cerca de 7% do valor que gastou na decoração. O PS gastou ainda mais de 150 mil euros com agências de comunicação e marketing, e também sondagens.

Para a campanha na rua, o PS também usou uma parte significativa do seu orçamento. Só em outdoors, bandeiras e pendões espalhados pelo país, os socialistas gastaram quase 600 mil euros, a maior parte em outdoors.

E como em nenhuma campanha podem faltar os tradicionais brindes, há de um tudo pouco. Enquanto distribuía folhetos e flyers (129 mil euros), o PS apostava nos bonés (85 mil euros), nas t-shirts (47 mil euros), nas canetas e lápis (31 mil euros), nos autocolantes (3,3 mil euros) e ainda encomendou alguns porta-chaves (141 euros).

PSD e CDS apostaram nas agências de comunicação

Em 2015, ainda com Pedro Passos Coelho e Paulo Portas na liderança do PSD e CDS-PP, os dois partidos governavam em coligação e escolheram enfrentar as eleições assim mesmo, em conjunto. A coligação Portugal à Frente (PàF) foi para a rua juntos, e por isso as suas contas também foram apresentadas em conjunto. O grande destaque são mesmo as contas finais, já que a PàF, de um orçamento de 2,8 milhões de euros, acabou por gastar 4,3 milhões euros, quase o dobro do previsto.

Mas onde foram gastos estes mais de quatro milhões de euros? Do que é possível apurar nas contas desta coligação, o maior gasto foi com agências de comunicação e marketing, onde estão incluídos os custos de várias sondagens encomendadas à Pitagórica. No total, entre o Marketing, o apoio à comunicação do partido e as sondagens encomendadas, PSD e CDS-PP gastaram mais de 930 mil euros (mais que o Bloco de Esquerda em toda a sua campanha), ou 21% de todos os gastos realizados com a campanha.

Para compensar, os gastos dos dois partidos com cartazes e outdoors (e outros itens semelhantes) foi de 244 mil euros, um valor elevado, mas menos de metade do gasto pelo PS no mesmo género de itens.

No que aos brindes diz respeito, e outro material distribuído aos eleitores para incentivar o voto, o tipo de gastos não são muito diferentes dos realizados pelo PS, mas notam-se preferências diferentes. Por exemplo, a PàF gastou 207 mil euros em folhetos e flyers que distribuíram no apelo ao voto nos dois partidos (quase 5% dos gastos totais), um valor substancialmente mais elevado que o gasto pelo PS.

Nos próprios brindes, as escolhas são diferentes. Se o PS gastou quase 85 mil euros em bonés, a PáF apenas gastou 1,7 mil euros mas, por outro lado, apostou em cachecóis (um gasto que o PS não apresenta), que custaram 96 mil euros para produzir estes cachecóis, e ainda 42 mil euros em canetas e lápis, mais 11 mil euros que o PS.

Uma nota final para as contas da coligação que juntou o PSD e o CDS-PP: a maior despesa verificada, de acordo com as contas do ECO, surge na rubrica ‘outros’ — quase 1,4 milhões de euros, ou seja, perto de um terço da despesa total. Em alguns casos, é nesta categoria que estão inseridos os almoços e jantares, mas não é possível perceber que gastos são estes. Os partidos entregaram todas as faturas respetivas aos gastos para análise da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos, mas a PàF não apresenta, ao contrário dos outros partidos, despesas imputadas a refeições nesta lista de ações e meios.

CDU e Bloco de Esquerda pouco dados a brindes

A disputa sempre muito acesa entre o PCP e o Bloco de Esquerda faz com que os partidos não sejam à primeira vista muito diferentes na forma de fazer campanha, e isso reflete-se nos seus gastos. Ambos preferem realizar eventos para contactar com o eleitorado, sejam jantares, comícios e visitas, ou, no caso do Bloco de Esquerda, manifestações de apoio a causas (como na altura o apoio à Grécia) ou sardinhadas.

Ambos os partidos têm o seu maior gasto em cartazes, outdoors e bandeiras para fazer sobressair a marca do partido e marcar posição. A CDU, com um orçamento maior que o do Bloco de Esquerda, gastou pelo menos 183 mil euros com este tipo de propaganda (quase 13% de todo o seu orçamento). Já o Bloco de Esquerda gastou cerca de 144 mil euros (mais de 17% do seu orçamento).

As semelhanças entre os dois acabam aqui. O segundo maior gasto da CDU é com transporte para as várias zonas do país, seja dos seus candidatos ou dos seus militantes, no qual gastaram 130 mil euros, quase um décimo do seu orçamento total.

Já o Bloco de Esquerda tem como segundo maior gasto as remunerações do pessoal envolvido na campanha, um tipo de despesa que nenhum dos outros partidos tem discriminado, se fez esse gasto. Só na remuneração do pessoal, o Bloco de Esquerda gastou 88 mil euros, também cerca de um décimo do seu orçamento.

Na campanha de rua, o Bloco de Esquerda gasta mais e em mais coisas. Só em jornais de campanha, o partido de Catarina Martins gastou quase 56 mil euros e em folhetos e flyers outros 15,5 mil euros. Já a coligação liderada por Jerónimo de Sousa, gastou quase 19 mil euros em jornais, e apostou em autocolantes (4,3 mil euros).

A campanha low-cost do PAN

Na campanha que lhe viria a dar a estreia no Parlamento, o partido de André Silva gastou 32 mil euros, apenas mais 2.000 euros do que pensava gastar inicialmente.

Quase 40% do orçamento do PAN foi gasto em outdoors e bandeiras, para promover o partido menos conhecido dos portugueses na altura. Para o contacto com o eleitorado sobrou menos dinheiro, mas ainda houve uma aposta significativa nos folhetos a promover o partido, nos quais o PAN gastou mais 4,1 mil euros e ainda deu para comprar alguns crachás para distribuir (575 euros).

PS gasta mais na campanha digital que todos os outros partidos juntos

Vídeos, filmes, mailings e infomails, entre muitos outros, entre tudo o que engloba os gastos da campanha neste capítulo mais digital, o Partido Socialista é de longe o que mais investe neste domínio. No total, os socialistas gastaram quase 440 mil euros na sua campanha digital, mais de o dobro dos 202 mil euros gastos pela PàF, e mais até se juntarmos todos os partidos com assento parlamentar.

Os socialistas gastaram 103 mil euros com vídeos e filmes, 102 mil euros com infomails e 33 mil euros em fotografia. A PàF até gastou mais em infomails — 124 mil euros –, mas em tudo o resto ficou muito aquém no investimento dos socialistas.

O Bloco de Esquerda ainda tentou acompanhar a estratégia dos maiores partidos também apostando em infomails, vídeos e fotos, mas o investimento total foi ligeiramente inferior a 13,5 mil euros.

Já a CDU, ficou praticamente de fora. Na parte digital da campanha, os únicos gastos com a CDU regista é com o tempo de antena e os custos associados, incluindo a produção e até a maquilhagem, mas não foram além dos 8,6 mil euros, e 135 euros com anúncios na Internet.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

Cartazes, bonés e jantares. Onde os partidos gastam o dinheiro das campanhas?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião