Conhece o novo vilão global? Zuckerberg, Mark Zuckerbergpremium

Em poucos anos, Zuckerberg passou da imagem de bom rapaz que todas as mães gostariam de ter como genro e aspirante à Casa Branca ao papel de novo supervilão global. É o Novo Normal desta semana.

Em abril passado, o podcast Pivot, da Intelligencer, ligada à New York Magazine, explicava “por que é que o Facebook é o mais vulnerável dos gigantes tecnológicos”. Tinha acabado de ser revelada (mais uma) enorme falha de segurança, com a revelação dos dados de 500 milhões de utilizadores da rede social. Apesar disso, as ações da companhia continuaram a crescer e a bater recordes. “Não sei… Será que ainda alguém quer saber?...”, questionava-se Scott Galloway, um dos autores do podcast, constatando que milhares de milhões de pessoas por todo o mundo continuam a dar os seus dados ao FB, apesar de já ser evidente que a companhia “não é de confiança”.

“A conclusão é esta: o melhor modelo de negócios do mundo é ser um monopólio não regulado. Eles são essencialmente dois terços de todos os media sociais numa única plataforma. Eles abusaram massivamente do seu poder de monopólio. Quem quer que seja uma ameaça, eles afastam do negócio. Como é um negócio complicado, conseguem aparecer e confundir os legisladores. Nesta altura, gastam mais em lobby do que as grandes tecnológicas gastaram em qualquer setor da história. E agora põem um batom fantástico”, para disfarçar os muitos problemas que a empresa enfrenta, resumia Scott Galloway, professor da Universidade de Nova Iorque e autor de bestsellers como “The Four: The Hidden DNA of Amazon, Apple, Facebook, and Google” (em Portugal, acabou de sair o seu último livro, Pós Corona).

Apesar das vantagens de ser -- ainda... e por enquanto -- um monopólio não regulado, Galloway apontava um “ponto fraco” à empresa de Zuckerberg: “O ponto fraco deles -- e as pessoas ainda não percebem isso, mas está mesmo a acontecer com a Apple -- é que o Facebook reconhece que não é um sistema operativo, como gostaria de pensar que é; é uma app. E enquanto essa aplicação tiver de andar nos carris de outros, seja Android ou iOS, eles estarão vulneráveis.” Por essa razão têm dez mil pessoas a desenvolver hardware, mas “no final do dia, se há alguém que está à tua frente que é o guardião, ou o porteiro, ou o distribuidor, estás vulnerável”.

#Apagão

Raramente pensamos em vulnerabilidades quando pensamos numa empresa que este verão chegou ao valor de 1 bilião de dólares (ou aquilo a que os americanos se referem como trillion - são doze zeros depois da unidade). Foi esse o valor estimado em junho quando a companhia se livrou de dois enormes processos por abuso de concorrência, interpostos pela Federal Trade Commission dos EUA e por diversos procuradores estaduais (mas essa história não acabou).

O facto é que esta semana deixou à mostra como nunca o imenso poder do Facebook, mas também as suas vulnerabilidades. No domingo passado, o Diogo Queiroz de Andrade escrevia aqui no ECO sobre “o ano horrível do Facebook”. A longa lista de problemas que o gigante tecnológico tem enfrentado nos últimos meses é, em simultâneo, a prova das suas enormes debilidades, da sua notável capacidade de resistência e da dependência que o mundo tem em relação aos seus produtos, pois nada parece afastar os milhões de utilizadores do FB, do Instagram e do Whatsapp. Até agora, também nada desmotivou os investidores (nem sequer o boicote de alguns grandes anunciantes, no ano passado).

Basta um número para se perceber a dimensão planetária de que estamos a falar: um terço de toda a população mundial usa o FB pelo menos uma vez por mês. Mais os que usam o Instagram, e o Messenger, e o Whatsapp, e os que acumulam… Antes do descalabro das últimas semanas, os dados sobre utilizadores de cada rede social eram estes (repare que nos cinco primeiros, quatro são do universo Facebook):

O texto sobre o ano negro do FB foi publicado um dia antes do grande apagão, que acrescentou gasolina à fogueira em que a companhia já estava a arder. Seis horas em que o mundo ficou sem FB, sem Instagram, sem Messenger e sem Whatsapp - sem fotos de gatinhos, sem videochamadas para a avó, sem o mundo maravilhoso dos influencers, mas também sem ferramentas que para milhões de pessoas e empresas por todo o mundo se tornaram imprescindíveis para poderem desenvolver o seu trabalho.

Não foi a primeira vez que o Facebook “caiu” durante horas - já tinha acontecido em 2019, quando a aplicação esteve out ao longo de 14 horas; e em 2008 o FB apagou-se durante um dia inteiro. Mas, desta vez, o apagão atingiu todos os porta-aviões do conglomerado - FB, Instagram, Whatsapp e Messenger - num momento em que têm mais utilizadores do que nunca. Os problemas também atingiram os sistemas internos do FB, impedindo os funcionários da companhia de aceder a emails e aos sistemas de comunicação interna. Consta que nem as portas abriam nem os torniquetes rodavam nos edifícios da empresa, pois os cartões de identificação deixaram de ser reconhecidos.

A companhia explicou o apagão com uma “alteração de configuração defeituosa” de responsabilidade própria. A explicação oficial diz que durante um trabalho de manutenção de rotina, os engenheiros inseriram um comando que inadvertidamente desligou todas as ligações na rede do FB, “efetivamente desligando os centros de dados do Facebook em todo o mundo”. “Essa interrupção do tráfego de rede teve um efeito cascata na maneira como os nossos data centers comunicam uns com os outros, interrompendo os nossos serviços ", explicou Santosh Janardhan, vice-presidente do Facebook responsável pela infraestrutura. A agravar a situação, a ferramenta de controlo que poderia ter impedido esse comando apresentava um bug, e permitiu que tudo acontecesse.

Se quer mais pormenores sobre o que aconteceu, pode lê-los aqui. Os maus da fita chamam-se BGP e DNS. São as iniciais de Border Gateway Protocol e de Domain Name System. O El Mundo explica bem explicadinho. Mas se quiser uma explicação mais simples, e menos técnica, aqui vai: “Alguém no Facebook, supostamente de forma acidental, enviou um sinal para um sistema de roteamento nas profundezas da Internet que tornou impossível encontrar os servidores da empresa. Normalmente, essa situação é mais incómoda do que um imbróglio, pois dá para enviar um novo sinal para corrigir o registro. Porém, o Facebook, quase cómico na sua previsibilidade, executa todo o seu trabalho de reparação através do Facebook - portanto, absolutamente todos os aspetos da infraestrutura remota necessária para reiniciar a plataforma já estavam inacessíveis”, explica este texto do Washington Post.

“Apropriadamente, o dia em que o Facebook não estava em lado nenhum parece ter resultado de uma tentativa do Facebook de estar em todo o lado”... Seria divertido, se não fosse problemático.

Ao assumir que se tratou de um erro próprio, o FB excluiu a hipótese de o apagão ter resultado de um ataque externo - seria o tipo de vulnerabilidade capaz de afundar ainda mais a sua reputação e imagem de vulnerabilidade neste momento.

Ainda assim, o incidente fez com que as ações do gigante tecnológico caíssem na segunda-feira 4,9%, somando-se a uma queda de cerca de 15% registada desde meados de setembro. Em resultado disso, Mark Zuckerberg perdeu seis mil milhões de dólares na fortuna pessoal, caindo um lugar no índice Bloomberg Billionaires dos mais ricos do mundo (está na sexta posição, com uma fortuna avaliada em 121,6 mil milhões de dólares, tendo sido ultrapassado por Bill Gates).

#PODERGLOBAL

Zuckerberg não foi o único prejudicado pelo apagão. Se há conclusões a retirar deste caso, são sobre a omnipresença do Facebook e das suas outras apps, e sobre a enorme dependência de milhões, em todo o mundo, relativamente a um único fornecedor destes serviços. Não tínhamos já aprendido, com a pandemia, qualquer coisa sobre os riscos de o mundo ficar dependente de um único grande fornecedor global? Pois… tivemos mais um lembrete.

O Wall Street Journal fez aqui uma espécie de volta ao mundo do apagão, com histórias de gente, negócios e eventos afetados pelo incidente - desde a Índia, o maior país em termos de utilizadores do FB (mais de 300 milhões) e do Whatsapp (acima de 400 milhões), mas onde era noite quando o incidente aconteceu, ao Reino Unido, que foi atingido durante a tarde, para desespero dos participantes no congresso do Partido Conservador, que de repente se viram sem as suas redes sociais favoritas para comentar o que se passava no evento.

O impacto do FB e redes conexas não é igual no mundo todo (como não foi igual o impacto do seu desaparecimento temporário). Há zonas do globo que dependem fortemente do FB para a conexão à internet e onde, devido a uma pior cobertura infraestrutural, o WhatsApp é a melhor ferramenta de comunicação, pois funciona razoavelmente mesmo com pouca rede.

É o que nos mostra esta reportagem sobre a omnipresença planetária do FB. No Brasil o WhatsApp é a app mais popular do país, e estará instalada em cerca de 99% dos smartphones. É essencial para comunicar com a família e amigos, mas também para uma variedade de serviços, desde encomendar comida até ao funcionamento de escritórios e empresas. Houve até tribunais que não conseguiram fazer marcações de diligências por causa do apagão - e quem optou por telefonar, descobriu uma rede congestionada.

No Haiti, o WhatsApp é essencial para as pessoas serem informadas sobre violência de gangues nalguns bairros, mas também para os emigrantes enviarem dinheiro à família; nas províncias da Síria controladas pelos rebeldes, onde não há infraestruturas de comunicação, esta faz-se via WhatsApp, Messenger e FB; nalgumas regiões da Turquia, os serviços de saúde dependem destas ferramentas, nomeadamente no combate à covid - e houve pânico quando alguns hospitais perceberam que não estavam a conseguir contactar com os fornecedores de oxigénio (mudaram para o Skype, mas o WhatsApp responde melhor quando o serviço de internet não é grande coisa); em boa parte de África o WhatsApp é o serviço mais importante para o contacto interpessoal, quer dentro dos países quer para chegar aos familiares no estrangeiro...

A tabela dos países com maior número de utilizadores de FB (retirada daqui, onde pode encontrar um conjunto de estatísticas sobre essa rede social) é esclarecedora sobre a sua relevância nos territórios em desenvolvimento. Com exceção dos EUA, que ocupam o segundo lugar, todos os restantes países nos primeiros dez lugares do ranking são economias emergentes: Índia, Indonésia, Brasil, México, Filipinas, Vietname, Tailândia, Egito, Bangladesh.

“A tensão é maior nos países onde os cidadãos realmente dependem quase exclusivamente do Facebook, WhatsApp e Instagram para comunicação e comércio. O Facebook desapareceu e a sua vida piorou. Mas a vida só piorou porque um Facebook, ávido por conquistar mais mercado, tornou-se indispensável, absorvendo o WhatsApp e o Instagram na década de 2010. Mas o WhatsApp e o Instagram talvez nunca se tivessem tornado tão úteis se o Facebook não lhes tivesse emprestando os seus recursos e a sua marca”, como se vê aqui, numa história sobre pescadinha de rabo na boca.

Um círculo infinito do qual parece difícil libertarmo-nos, e que se torna útil para a narrativa do próprio Facebook, tornando-nos prisioneiros de um serviço que se apresenta como uma inevitabilidade. Mas, conforme notou Molly Roberts, que escreve sobre tecnologia e sociedade no Washington Post, o apagão desta semana também demonstrou que em países como os EUA (ou Portugal, ou toda a UE), “o Facebook não é a internet”, por isso não há qualquer razão para nos mantermos aprisionados.

É uma questão de perspetiva. “O Facebook é muito poderoso, porque quando desapareceu o Instagram e o WhatsApp também desapareceram; o Facebook é bom para a sociedade, porque sem ele, ficamos privados do Instagram e do WhatsApp; [mas] o Facebook afinal não é poderoso, porque quando entrou em colapso a sociedade não colapsou. Sendo assim, por que estamos tão preocupados com seu controle monopolístico da atenção humana?”

Para além do reconhecimento do seu peso, da sua utilidade e importância, este incidente trouxe a evidência de que esta companhia e os seus serviços não são indispensáveis, pelo menos no chamado “primeiro mundo”.

E outra lição: a dimensão e penetração alcançadas pelo FB levou a que muita gente defenda que o seu serviço deve ser regulado pelos Estados como um bem comum (utility, na expressão inglesa), tal como a água, a eletricidade ou as ruas das nossas cidades. A verdade é que foi muito mais fácil passar a tarde e início de noite da passada segunda-feira sem o WhatsApp e o Insta do que seria ficar todas essas horas sem água ou sem eletricidade. Ou seja, não estamos mesmo a falar da mesma coisa.

O que não significa que não devamos preocupar-nos com o poder do FB e com a nossa dependência em relação aos seus serviços. Voltando a citar o texto da Molly Roberts, “a confiança desajustada do Facebook em si próprio é um espelho da nossa própria confiança no Facebook”. É importante repensá-la, até porque os problemas do FB não começam nem acabam num apagão de segunda-feira à tarde.

#DENUNCIANTE

Por um daqueles acasos do destino - tão certeiro que parece saído de um enredo de filme - o Facebook desapareceu no preciso momento em que passava por um dos episódios mais negros da sua história. O momento em que, graças às denúncias de uma antiga funcionária, “o Facebook finalmente deixou de parecer invencível”, como se lê neste texto.

Frances Haugen tornou-se o maior pesadelo do Facebook. Engenheira de sistemas, de 37 anos, formada em Engenharia Elétrica e de Computação e com um MBA em Harvard, é especialista em gestão algorítmica de produtos, tendo trabalhado em algoritmos de classificação no Google, Pinterest, Yelp e Facebook.

A sua colaboração com o FB começou em 2019, como gestora de produto líder da equipa Civic Misinformation, que lidava com questões relacionadas com democracia, desinformação e integridade cívica. Foi no âmbito desse trabalho que Haugen se apercebeu da dimensão do monstro e das más práticas da empresa. Entretanto, o FB decidiu desfazer essa equipa - uma decisão tomada após as eleições presidenciais do ano passado e que pode ter facilitado a utilização da rede social pelos promotores do assalto ao Capitólio a 6 de janeiro, altura em que essa unidade do Facebook já não estava ativa (já falaremos da ligação do FB aos acontecimentos desse dia).

Haugen apresentou a demissão em abril e deixou o FB em maio. Mas levou consigo cópias de milhares de documentos que provam não apenas um enorme conjunto de más práticas do FB, mas também que o FB sabe bem o que está a fazer, o que se passa na empresa e o dano que pode causar - a pessoas, a famílias, a países e a democracias.

Esses documentos são a base das queixas que apresentou contra a companhia, e do conjunto de notícias publicadas em setembro pelo Wall Street Journal, que divulgou em primeira mão as bombásticas revelações de Frances Haugen. O WSJ também escreveu um excelente retrato daquela que se tornou na denunciante mais famosa do mundo, louvada pelos congressistas americanos como “uma heroína do século XXI”.

Os seus testemunhos, no domingo passado, no célebre programa “60 Minutes”, e na terça-feira, no Senado dos Estados Unidos, tiveram um impacto tal que dificilmente tudo continuará na mesma. Este texto da CNN explica porquê:

  • Uma atitude serena, mas decidida, com acusações bem sustentadas e exemplos concretos fáceis de entender;
  • Um discurso bem articulado e com frases diretas ao assunto: os produtos do FB “fazem mal às crianças, instigam as divisões e enfraquecem a nossa democracia”; o FB “coloca o lucro à frente da responsabilidade moral”;
  • Milhares de documentos internos do FB, cuja autenticidade a companhia não pode (nem tentou) contestar - os mais importantes são estudos e auditorias internas da própria companhia sobre o impacto maligno do seu trabalho para mais, esses documentos não eram secretos, mas de fácil acesso para muitos funcionários da empresa - segundo o advogado de Haugen, pelos menos 50 mil pessoas podiam aceder livremente a esses relatórios, mesmo aos mais danosos ao contrário de outros atuais e antigos funcionários do FB que compareceram perante o Congresso, Haugen não deu sinais de estar a esconder informação ou de alguma forma a manipular o jogo - não se escudou, nem enveredou por jogos de palavras
    ao contrário de outros denunciantes, como Christopher Wylie, que revelou ao mundo o escândalo dos dados vendidos pelo FB à Cambridge Analytica, Haugen tem a autoridade de ter trabalhado no FB durante dois anos - sabe o que se passava lá dentro o testemunho de Frances Haugen tinha outra vantagem sobre o de Christopher Wylie: enquanto este fez as suas descobertas trabalhando no lado negro da história (estava na Cambridge Analytica a fazer uma utilização abusiva dos dados vendidos pelo FB), Haugen era membro da equipa de integridade cívica do FB, que visava identificar e combater problemas relacionados com desinformação e outros impactos negativos da atividade da empresa;
  • Haugen mostrou sempre uma atitude proativa no sentido de melhorar os procedimentos da companhia, e não uma predisposição destrutiva para a desmantelar ou deitar abaixo. “Estes problemas são resolúveis. É possível termos redes sociais mais seguras, que respeitem a liberdade de expressão e onde seja mais agradável estar. (...) O Facebook pode mudar, mas claramente não o vai fazer sozinho… o Congresso pode mudar as regras pelas quais o Facebook atua, e travar os muitos males que está a causar”.

Haugen fez muitas denúncias concretas e bem fundadas sobre problemas já conhecidos, suspeitas antigas, e algumas revelações surpreendentes. Talvez o facto mais impactante seja a revelação de que ninguém melhor do que o FB conhece os problemas causados pelo FB. Tanto quanto se percebe, o grupo Facebook é muito competente a investigar os seus problemas. Só que é ainda melhor a escondê-los. As equipas de avaliação interna são muitas, e boas a detetar sarilhos, mas depois há um problema: não só a empresa não os reconhece publicamente como há um longo historial de comunicados públicos e declarações de altos responsáveis a dizer o contrário da verdade que a empresa conhece. Onde o FB deixa mais a desejar é na transparência sobre as descobertas que faz sobre si próprio.

E que descobertas foram essas? Está tudo neste vasto conjunto de reportagens publicadas em primeira mão pelo WSJ no mês passado, com o título “The Facebook Files”. Vamos a um resumo do mais importante:

  • O FB tem critérios diferentes para utilizadores diferentes. A empresa sempre o negou, mas as normas internas ditavam a existência de utilizadores de primeira e utilizadores de segunda. A estes, aplicava-se a lei geral: o que não se podia dizer ou mostrar, e as consequências das violações, desde a supressão de posts, à suspensão temporária ou definitiva do utilizador. Mas para os utilizadores VIP - incluindo políticos de primeira linha, gente muito rica, muito famosa ou, por alguma outra razão, com muito poder - a regra era quase de bar aberto. Não se aplicavam os controlos automáticos sobre conteúdos, mas um procedimento de verificação posterior, com normas que se tornaram cada vez mais lassas. O resultado é uma lista com uma elite de milhões de pessoas que podia escrever quase tudo no FB, incluindo desinformação, calúnia e incitamento à violência. Trump foi durante muito tempo um dos beneficiados por esse duplo critério;
  • O FB sabia dos efeitos tóxicos do Instagram para os seus utilizadores mais jovens, nomeadamente raparigas adolescentes. Segundo os dados recolhidos pelas auditorias internas, uma em cada três adolescentes desenvolveram ou agravaram problemas relacionados com a sua imagem corporal por causa das imagens partilhadas pelo Instagram. “As adolescentes culpam o Instagram pelo aumento dos seus níveis de ansiedade e depressão. Essa reação foi espontânea e consistente em todos os grupos”, lê-se num dos documentos internos;
  • Uma alteração do algoritmo do FB introduzida em 2018, que supostamente tinha como objetivo tornar a rede mais saudável e menos tóxica, acabou por ter exatamente o efeito contrário: a rede ficou mais zangada e tóxica. Na verdade, a principal motivação dessa alteração era contrariar a tendência de declínio na utilização da rede - a resposta foi um algoritmo que aumentou o engajamento, puxando para o mural dos utilizadores os posts que iam de encontro ao seu próprio pensamento, criando bolhas de gente que partilhava crenças e visões do mundo. O objetivo declarado era tornar o ambiente menos conflitual, facilitando o contacto entre amigos, familiares e gente no mesmo comprimento de onda - também por isso, os posts com conteúdos originais ganharam prevalência sobre a partilha de notícias produzidas pelos meios de comunicação social tradicionais. Tal como muita gente dentro da empresa havia avisado, o efeito foi o contrário daquele que era apregoado: foi o início da grande guerra de trincheiras nas redes sociais, com crescente polarização e partilha desenfreada de desinformação, sem filtros nem controlo, e com o jornalismo profissional relegado para último plano. Os utilizadores passaram a apostar em partilha de conteúdos inflamados e sensacionalistas, capazes de gerar muitas partilhas e “likes”, o que beneficiou o negócio do Facebook. Mas o reverso desse sucesso esteve à vista desde o início, como provam os documentos internos: “A nossa abordagem tem efeitos secundários pouco saudáveis em partes consideráveis do conteúdo público, como os conteúdos políticos e noticiosos”, reconhece um relatório. “Este é um risco cada vez maior”, lê-se noutro memorando. “A desinformação, a toxicidade e o conteúdo violento são excessivamente prevalentes entre as novas partilhas”, observaram os investigadores nos memorandos internos;
  • Os mecanismos internos do FB assinalaram a utilização da rede para atividades criminosas, como tráfico de drogas e tráfico de seres humanos. Havia grupos armados na Etiópia a incitar à violência contra minorias étnicas, e redes a promover a venda de órgão humanos e a divulgar todo o tipo de pornografia ilegal. A resposta da companhia a esses avisos foi débil - na verdade, pouco mais do que nada. A frustração dos funcionários perante esta inação fica patente em centenas de emails também divulgados;
  • Foi igualmente assinalado que havia governos a utilizar o FB para promover violência, repressão e perseguição. Também neste caso os mecanismos de deteção do FB sinalizaram esses abusos - e também neste caso a empresa decidiu fechar os olhos. “Aterrador”, foi como Frances Haugen classificou os casos de violência e genocídio promovidos online da Etiópia a Myanmar, mas também as atividades de espionagem levadas a cabo pela China e pelo Irão, e facilitadas pelo FB;
  • Por fim… a pandemia. Mark Zuckerberg, já então envolto em suspeitas e acossado por escândalos - como o da Cambridge Analytica e o papel do FB nas vitórias de Trump e do Brexit, mas também no abismo social e político que cada vez mais partiu a América em dois - comprometeu-se a usar o FB como instrumento para combater a pandemia e a promover as vacinas. Essa seria a “principal prioridade da companhia”, de acordo com um memorando interno. O próprio Zuckerberg assumiu essa prioridade num post. A realidade foi bem diferente: FB, Instagram e WhatsApp foram ferramentas preciosas para difundir mentiras sobre a pandemia e as vacinas. Primeiro, foram as campanha organizadas disseminando dúvidas sobre a existência do vírus, depois sobre a sua perigosidade, depois sobre a gravidade da pandemia, a seguir sobre a fiabilidade dos números oficiais de infeções e mortes (umas vezes para mais, outras vezes para menos). Por fim, foi a barragem de informação falsa que constituiu uma eficaz “barreira à vacinação”. escreve o WSJ: “Os problemas com a covid-19 deixaram claro, de forma desconfortável, que mesmo quando ele definia um objetivo, [Zuckerberg] não conseguia manobrar a plataforma como queria.

No caso da pandemia, Joe Biden chegou a acusar a empresa de estar a “matar pessoas” com a desinformação sobre supostos perigos das vacinas. Biden depois recuou na acusação de assassínio em massa - mas, mesmo contrariado, o FB acabou por reconhecer o seu papel da propagação de desinformação sobre a covid: o seu post mais popular no primeiro trimestre de 2021, quando arrancou a vacinação, era um artigo sobre o risco de morte relacionado com a vacina contra o SARS-CoV2. Foi a primeira vez que a empresa reconheceu a centralidade da sua plataforma para a narrativa negacionista e anti-vaxxer.

O mais engraçado - e revelador sobre a falta de transparência da empresa e a sua tendência para moldar a realidade - é que esse reconhecimento do FB surgiu a 21 de agosto. Ora, três dias antes, o FB tinha divulgado outras estatísticas, que pintavam um cenário muito diferente. A 18 de agosto, a companhia anunciou que iria passar a divulgar os posts mais virais a cada trimestre. E começou com o segundo trimestre deste ano - nos mais vistos, não havia nem sombra de teorias conspirativas, negacionismo, anti-vaxxers, extrema-direita ou QAnon. O retrato cor de rosa - e muito diferente da realidade pintada por páginas independentes que monitorizam a atividade do FB, como esta conta no Twitter - fez o esforço cair no ridículo. "É como se a ExxonMobil divulgasse o seu próprio estudo sobre alterações climáticas", comentou um funcionário do FB citado aqui.

Pior: quando divulgou o estudo sobre o segundo trimestre de 2021, o FB já tinha recolhido e tratado os dados sobre o primeiro trimestre... mas escondeu-os. O tal em que um texto imputando mortes à vacina anti-covid era o mais popular. O New York Times descobriu e denunciou a marosca... e só depois a empresa admitiu que tinha ocultado essa informação.

Aliás, se há coisa que não falta são provas da centralidade do FB em tudo o que são grandes campanhas de desinformação a nível nacional ou internacional. Na muito problemática campanha presidencial dos EUA, em 2020, a desinformação difundida pelo Facebook teve seis vezes mais cliques do que as notícias sobre o mesmo assunto, concluiu um estudo independente conduzido por uma universidade americana e uma francesa. Já agora: segundo o mesmo estudo, as páginas de FB ligadas à extrema direita foram as que produziram mais conteúdos falsos ou enganosos.

A tentativa do FB de descredibilizar e apoucar o testemunho de Frances Haugen parece ter tido pouca tração. Zuckerberg fez um longo post em que a acusava de descontextualizar informação e de pintar uma imagem errónea da empresa, e jurou que nunca a sua empresa colocou os lucros à frente da responsabilidade social.

Entretanto, Frances Haugen ainda não contou tudo o que tinha a contar. Os congressistas querem ouvi-la outra vez, agora no contexto da investigação à invasão do Capitólio - Haugen deverá ser ouvida por essa comissão para a semana. E garante que tem revelações para fazer, nomeadamente sobre a ligação entre o 6 de janeiro e duas decisões do FB: desmantelar a unidade de integridade cívica e desativar as ferramentas de controlo de desinformação sobre as eleições. O seu advogado já deu um aperitivo do que aí vem: "Há muitas provas, algumas em tempo real no dia 6 de janeiro, que mostram que o FB sabia exatamente o que se estava a passar e não fez nada. E havia gente dentro da empresa a dizer'por que é que estamos a permitir que isto aconteça?'"

#FIXFACEBOOK

Como agir agora é a questão que está por responder - e a resposta compete ao poder político, aos tribunais, aos reguladores, mas também ao público.

Com base no testemunho de Frances Haugen, o Post elencou quatro passos essenciais para mudar a situação e começar a resolver os problemas do Facebook:

  1. Ordenar ao Facebook que pare, ou reduza drasticamente, os algoritmos que ordenam os conteúdos de acordo com o engajamento do público: não podem ser os likes e as partilhas a definir o que é mais importante.
  2. Obrigar o FB a investir muito mais na moderação de conteúdos.
  3. Criar um organismo com capacidade para auditar os algoritmos e os recursos do FB.
  4. Criar um mecanismo obrigatório de revelação regular de dados relativos à plataforma, que possam ser investigados pelos académicos e investigadores

O New York Times fez um exercício parecido, também a partir do testemunho de Frances Haugen. Coincide com alguns dos pontos acima, mas também aponta outros:

  • Mudanças legislativas que permitam responsabilizar o FB por danos causados no mundo real a partir de posts divulgados na rede, como por exemplo ataques terroristas
  • Nomeação de auditores independentes colocados dentro do FB, como por vezes acontece no sistema bancário
  • Obrigar o FB a sair de territórios onde não tenha capacidade de assegurar o controlo dos conteúdos danosos, seja através de recursos técnicos e humanos, seja com competências culturais capazes de entender diferenças entre diversas sociedades
  • E há, claro, a velha ideia de desmantelar o Facebook, que nos últimos 20 anos se comportou de forma omnívora. É bem conhecida a prática que permitiu ao Facebook destacar-se de forma tão vincada de toda a competição: sempre que viu riscos sérios à sua posição de domínio nas redes sociais, comprou a concorrência ou passou a fazer o mesmo que a concorrência fazia, aproveitando a penetração global que a casa mãe tem.

O caso da compra do Instagram é particularmente instrutivo, e não apenas por ter sido a primeira grande aquisição que permitiu ao FB dar o salto que tornou a empresa o colosso global que é hoje. Foi um negócio surpreendente em 2012, quando a empresa de Zuckerberg pagou mil milhões de dólares por uma startup que tinha, então, 13 funcionários. A razão foi simples: havia ali uma ameaça, como ficou claro anos mais tarde, no âmbito dos muitos inquéritos que o Senado tem feito às big tech, quando foram divulgados documentos internos do FB sobre o negócio, incluindo emails alarmados do todo-poderoso Zuckerberg perante o risco de concorrência. "O Facebook admite que viu o Instagram como uma ameaça que poderia potencialmente ‘roubar-lhe’ negócio", disse Jerry Nadler, congressista do Partido Democrata. "Então, em vez de competir [com o Instagram], o Facebook comprou-o. Esse é exatamente o tipo de aquisição anticompetitiva que as leis antitrust visam prevenir", acrescentou Nadler, numa audição no verão de 2020.

Mas havia mais do que isso: não era apenas o IG que era uma ameaça - a ameaça maior era a possibilidade de o Twitter adquirir o Instagram e dar um salto que beliscasse a posição da empresa de Zuckerberg. A história foi bem contada neste trabalho de 2018.

Desmantelar o FB obriga a provar que é um monopólio e que abusa de posição dominante. Não são afirmações consensuais, como prova este testemunho. Nem são alegações fáceis de demonstrar, como se explica aqui. As autoridades não o conseguiram até agora.

E separar as várias partes do império de Zuckerberg será igualmente uma tarefa que pode ter tanto de labiríntico como de inútil. Há anos que toda a lógica da companhia é enredar o mais que pode as suas diversas componentes, quem sabe se para prevenir, precisamente, o risco de um dia as autoridades quererem partir o conglomerado aos bocados, conforme a hipótese lançada neste artigo.

O certo é que, em poucos anos, Mark Zuckerberg passou da imagem de bom rapaz que todas as mães gostariam de ter como genro e potencial aspirante à Casa Branca (sim, houve esse tempo) ao papel de novo supervilão global. Fui buscar essa imagem a este texto do El Mundo.

A propósito de supervilões e de Casa Branca… lembra-se de Donald Trump? Não desiste de ter a sua conta de Twitter de volta - mesmo que para isso tenha de recorrer aos tribunais, como fez esta semana. Porém, não tomou a mesma atitude (por enquanto) em relação ao Facebook, que também o baniu, “pelo menos” até janeiro de 2023 (ou seja, por dois anos). Trump lá sabe: sem as redes sociais provavelmente nunca teria chegado à Casa Branca. E, se tiver alguma esperança de lá voltar, vai precisar dos dados do Facebook e do palco do Twitter.

Os supervilões, já se sabe, de vez em quando trabalham em conjunto. Vemos nos filmes.

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