Eduardo Catroga: “Mesmo sem o Lehman Brothers, Portugal ia bater na parede”

Eduardo Catroga, ex-ministro das Finanças e um dos homens que negociou com a troika o resgate, diz que a falência do Lehman Brothers era o detonador de uma crise anunciada.

Onde estava quando o Lehman Brothers faliu? Eduardo Catroga, ex-ministro das Finanças no governo de Cavaco Silva, não se lembra bem onde estava no 15 de setembro de 2008. “Em Lisboa seguramente estava, numa das minhas atividades profissionais da altura. Como economista exercia funções em várias empresas e podia estar na Sovena, no banco Finantia, ou até na EDP, onde já estava também. O sítio exato não me recordo“, diz Catroga, em declarações ao ECO.

Catroga, que é atualmente membro do Conselho Geral de Supervisão (CGS) da EDP, em representação da China Three Gorges (CTG), diz, no entanto, que percebeu de imediato o que aí vinha, com o desaparecimento de um banco “too big to fail“. “Tive a sensação que a falência do Lehman Brothers era o detonador de uma crise anunciada”, refere.

O quarto maior banco de investimento americano sucumbiu à crise do crédito de alto risco, denominada subprime, tendo ajudado a criar o maior processo de falência da história dos mercados financeiros. A exposição do Lehman Brothers a esta dívida superava os 613 mil milhões de dólares.

"Em Portugal todos dizem que a crise nacional foi provocada pela crise internacional, mas mesmo que o Lehman Brothers não tivesse caído, a economia portuguesa iria bater na parede na mesma.”

Eduardo Catroga

Membro do Conselho Geral de Supervisão da EDP

Catroga, que anos mais tarde, em 2011, depois de Sócrates ter anunciado o pedido de ajuda externa à Europa, viria a liderar a delegação técnica do PSD nas negociações com a troika (Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu), lembra que “já era percetível na altura que alguma coisa iria acontecer e que iria espoletar o eclodir de uma crise, aliás eu e outros já o anunciávamos em função dos desequilíbrios económico-financeiros que se registavam no mundo, incluindo Portugal”.

Aliás, Catroga recorda que Olivier Blanchard, um reputado economista mundial, professor do MIT e economista-chefe do FMI, esteve em Portugal, em 2007, e dizia sobre a economia portuguesa que esta evidenciava desequilíbrios que iriam provocar uma séria crise. A crise viria mesmo a acontecer e Catroga não tem dúvidas: “Em Portugal todos dizem que a crise nacional foi provocada pela crise internacional, mas mesmo que o Lehman Brothers não tivesse caído, a economia portuguesa iria bater na parede na mesma”.

A sustentar estas afirmações está, segundo Catroga, “o desequilíbrio económico-financeiro com défice externo crescentemente negativo desde o fim da década de 90”. Isso, acrescenta, “iria mais cedo ou mais tarde desencadear ondas de choque. A falência do Lehman Brothers espoletou a crise e veio anunciar o ajustamento macroeconómico”, refere o ex-ministro das Finanças.

“Não tirámos todas as ilações da crise”

Mas terá Portugal aprendido algo com a crise? Neste ponto, Eduardo Catroga é bastante cético. “Em 40 anos de democracia já vivemos três situações em que caminhávamos para a pré-bancarrota e penso que ainda não aprendemos com a história económica“.

Mas Catroga vai mais longe: “penso que estão a ser criadas condições para uma nova crise”. Uma realidade que, diz Catroga, “não é só em Portugal, mas também noutros países”. Ainda a corroborar a tese de que aprendemos pouco com a chamada crise do subprime, que viria a desembocar na crise das dívidas soberanas, o ex-chairman da EDP diz que “demorámos dez anos para recuperar os níveis de riqueza, mas não tirámos todas as ilações”.

No caso português, reforça Catroga, “ainda não retirámos todos os ensinamentos. Em Portugal insiste-se na teoria de que a crise foi provocada pela crise internacional e esquecemo-nos que as crises se geram no tempo das vacas gordas“.

A 9 de setembro de 2008 (6 dias antes da queda do Lehman Brothers) o Público dava conta de que as nacionalizações nos Estados Unidos deixavam as bolsas otimistas. A nível nacional, o governo liderado por José Sócrates, hoje a braços com a Justiça por causa da Operação Marquês, acusava o PSD de ser medíocre e maledicente. Também havia notícias a dar conta que em Portugal existiam mais 207 reformas milionárias.

Isto tudo na mesma altura em que os camionistas ameaçavam voltar a paralisar o país, cerca de três meses depois de terem desencadeado um bloqueio que durou vários dias contra o aumento do preço dos combustíveis. A nível empresarial, Galp Energia e EDP estavam debaixo da mira do regulador espanhol. Em causa estavam práticas anticoncorrenciais no setor energético espanhol.

Na base da crise financeira estiveram milhares de milhões de dólares concedidos em avultados créditos à habitação, maioritariamente a famílias que não tinham rendimentos suficientes para os pagar, ou que já tinham um mau historial. Quando as taxas de juro subiram, os créditos foram sucessivamente entrando em incumprimento, ao ponto de, no final da Grande Recessão, se estimar que cerca de 1,2 milhões de norte-americanos tenham perdido a casa devido a incumprimentos que resultaram em penhoras. O número faz parte de um estudo da Mortgage Bankers Association, citado pela NBC News, que indica ainda que a crise terá resultado na destruição de cerca de 8,4 milhões de postos de trabalho nos Estados Unidos.

Foi há 10 anos que o Lehman Brothers colapsou. O dia 15 de setembro marca simbolicamente o início da maior crise financeira dos últimos 80 anos. ‘Onde estava quando o Lehman faliu?’ é uma rubrica diária, de 1 a 15 de setembro, onde empresários, banqueiros, políticos, economistas e advogados dizem ao ECO como viveram a queda do banco e o que aprendemos com a crise.

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