Aprendemos com o Lehman? “Só vamos saber na próxima crise”, diz Paulo Rodrigues da Silva

Para o presidente da Euronext Lisbon, talvez não tenhamos aprendido as lições com a queda do Lehman Brothers. "Provavelmente, só o vamos saber na próxima crise", diz Paulo Rodrigues da Silva.

Onde estava quando o Lehman Brothers faliu? Em Istambul. Paulo Rodrigues da Silva, atual presidente da Euronext Lisbon, era Chief Commercial Officer da Vodafone Turquia no dia 15 de setembro de 2008, quando o mundo viveu um dia histórico. Dez anos depois, aprendemos alguma lição com a falência do Lehman Brothers? “Provavelmente só o vamos saber na próxima crise”, diz o presidente da gestora da bolsa de Lisboa ao ECO.

Paulo Rodrigues da Silva tinha chegado à Turquia no ano anterior para ser o responsável pela estratégia comercial da operadora de telecomunicações britânica Vodafone naquele mercado. Do colapso do banco americano “too big to fail” lembra-se sobretudo como esse acontecimento veio a ter impacto em todo o mundo. “Seguiu-se uma queda das bolsas de mais de 50%, problemas estruturais similares nos sistemas financeiros de vários países, falências de bancos, vários produtos financeiros incumpriram e iniciou-se uma recessão económica mundial”, conta.

Desde então, diz que houve progressos na frente regulatória e “a situação atual parece mais estável”. “Vários temas foram considerados lições da crise: reduzir a alavancagem dos bancos, aumentar o rigor nos procedimentos de crédito, expandir os mecanismos de controlo de risco e supervisão”, elenca. “O que não mudou foi a existência de entidades financeiras de enorme dimensão (‘too big to fail’). As maiores entidades mundiais cresceram, a sua quota de mercado também e a concentração aumentou”, assinala Paulo Rodrigues da Silva.

O presidente da gestora da bolsa de Lisboa lamenta também os “resultados distintos” da atuação legal e criminal sobre os intervenientes com responsabilidades diretas cá e lá. Se “a eficácia foi muito substancial nos EUA”, ela foi “muito limitada noutros países, nomeadamente Portugal”, considera Paulo Rodrigues da Silva. E conclui: “Nesta matéria, parecemos não ter aprendido muito”.

"Outra questão com resultados distintos, diz respeito à atuação legal ou criminal sobre intervenientes com responsabilidades diretas, cuja eficácia foi substancial nos EUA e muito limitada noutros países, nomeadamente em Portugal. Nesta matéria, tanto pela importância duma justiça efetiva mas também como elemento de dissuasão futura, parecemos não ter aprendido muito.”

Paulo Rodrigues da Silva

Presidente da Euronext Lisbon

Paulo Rodrigues da Silva duvida ainda que a falência do Lehman Brothers tenha servido de aprendizagem no que toca ao comportamento individual dos investidores.

“Por exemplo, lições como ‘Se não entendes o produto que te estão a vender, não invistas’, ‘Diversifica os teus investimentos, lembra-te que tudo tem algum risco’ ou ‘Não te endivides só porque o podes fazer’… não tenho bem a certeza que, como investidores e participantes no mercado, tenhamos aprendido estas lições ou que não as vamos esquecer rapidamente”, diz o gestor da bolsa de Lisboa.

A a 5 de setembro de 2008 (dez dias antes da queda do Lehman Brothers), a iminência de colapso do sistema financeiro norte-americano continuava a parecer uma realidade distante para Portugal. Nas primeiras páginas dos jornais portugueses, a única referência aos Estados Unidos continuava a ser relativa à convenção do Partido Republicano, que, em vésperas de ano de eleições, apresentava John McCain (falecido este ano) como candidato à presidência, cargo que veio a perder para Barack Obama.

O pouco destaque que se dava à evolução da economia norte-americana não vinha apenas da imprensa. Por esta altura, a taxa de desemprego nos Estados Unidos atingia os níveis mais elevados em cinco anos e um em cada dez devedores estavam com prestações do crédito à habitação em atraso, mas o Governo, então liderado por George W. Bush, recusava implementar quaisquer medidas adicionais de estímulo à economia.

Se os alarmes ainda não soavam pela situação nos Estados Unidos, o nível de alerta era maior no que tocava ao contexto europeu. Jean-Claude Trichet, então presidente do Banco Central Europeu (BCE), fazia um apelo “muito, muito forte” para que a subida de salários nos países da Zona Euro fosse abaixo da inflação que então se registava. Por essa altura, o BCE mantinha os juros em 4% — muito acima dos valores próximos de 0% que ainda hoje se verifica, como resquício da política monetária implementada pelo sucessor de Trichet, Mario Draghi, para fazer face à crise financeira que assolou a Europa.

Por cá, era a reentré política que começava a dominar o espaço mediático. O Jornal de Negócios sublinhava: “Não é apenas mais uma reentré política. É o arranque de 15 meses com quatro eleições. A economia estará no centro do debate”. O Diário de Notícias e o Correio da Manhã davam espaço à Festa do Avante!, do PCP, que começava nesse mesmo dia no Seixal. Na inauguração da maior festa partidária nacional, os comunistas preparavam-se para lançar uma campanha contra o Código do Trabalho.

Muito longe do momento que agora vive estava o setor do turismo. Há dez anos, Portugal vivia, como se lia na manchete do Diário de Notícias, o “pior mês de agosto de sempre para o turismo“, com a taxa de ocupação hoteleira a cair, à semelhança dos preços praticados pelos operadores do setor. Já a razão poderia ter sido apresentada hoje: a desvalorização da libra levou a que muitos turistas ingleses, o maior mercado emissor do turismo português, trocassem o Algarve pelo Norte de África. Portugal está agora longe deste cenário: há vários anos que o turismo bate recordes consecutivos em todos os indicadores e, em algumas zonas, fala-se até em excesso de turistas. Mas, nos últimos meses, já houve sinais de desaceleração, quase pela mesma razão de há uma década: o Brexit tem levado à desvalorização da libra, que, por sua vez, desvia turistas britânicos para destinos mais baratos do que o Algarve.

Apesar do colapso, o Lehman Brothers ainda existe. Aliás, no início de 2017, o JPMorgan Chase aceitou pagar 797,5 milhões de dólares ao banco falido para pôr fim à litigância que existia entre as duas empresas, que remetia ao início da crise financeira em 2008, de acordo com o jornal The Street. Segundo a revista Fortune, o Lehman Brothers mantém escritórios em Nova Iorque e ainda tinha cerca de duas centenas de funcionários em 2015, com a missão de liquidar o extenso e complexo portefólio de ativos que ainda estão em nome da empresa — na esmagadora maioria, ações. Documentos datados de 30 de junho de 2015 revelavam um portefólio de 1,2 mil milhões de dólares sob gestão do já falido Lehman Brothers. A 1 de setembro de 2017, a Business Insider ainda noticiava os pedidos de falência de mais duas subsidiárias do Lehman Brothers.

Foi há 10 anos que o Lehman Brothers colapsou. O dia 15 de setembro marca simbolicamente o início da maior crise financeira dos últimos 80 anos. ‘Onde estava quando o Lehman faliu?’ é uma rubrica diária, de 1 a 15 de setembro, onde empresários, banqueiros, políticos, economistas e advogados dizem ao ECO como viveram a queda do banco e o que aprendemos com a crise.

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