Eleições e o ciclo económico: É o desemprego, estúpido!

Depois da vitória do PS nas eleições europeias, estará também já definido o vencedor das eleições legislativas deste ano? É o desemprego, estúpido!, escreve o economista Ricardo Santos.

Existe de algum modo a ideia feita de que nas eleições portuguesas o partido no poder tem sempre vantagem, e de que, na verdade, as eleições não se ganham, mas antes se perdem. Outro lugar comum passa por dizer que os eleitores votam mais com a carteira do que com a cabeça – ou como disse James Carville a Bill Clinton em 1992 – It’s the economy, stupid.

Quando se analisam os resultados das 17 eleições nacionais que ocorreram desde 1983, vemos que uma destas ideias está errada, outra nem tanto – mas qual delas é que se aplica? Depois da vitória do PS nas eleições europeias, estará também já definido o vencedor das eleições legislativas deste ano?

A primeira tese é facilmente posta de parte. Das 17 eleições nacionais que se realizaram nos últimos 36 anos (11 legislativas e 6 europeias), os partidos no Governo venceram oito vezes, ao passo que os partidos na oposição nove vezes. Ou seja, é praticamente um empate, ainda que com uma ligeira vantagem para quem está na oposição há propriamente um benefício de estar no poder ou na oposição. Há um empate entre oposição e governo no que diz respeito a eleições europeias. Já a “vantagem” da oposição deriva das legislativas.

Já a segunda tese é mais difícil de testar, mas ainda assim é possível chegar a uma conclusão: de facto os eleitores votam com a carteira.

Conforme se vê pelo gráfico 1, parece haver alguma relação entre os resultados eleitorais e o crescimento económico (e rendimento disponível). Na maioria dos anos com eleições, o partido no Governo (períodos a verde) tende a ganhar quando há crescimento económico, e a perder para a oposição (a vermelho) em alturas de recessão.

Ainda assim, há algumas exceções, principalmente no período entre 2001 e 2005, quando apesar do crescimento económico (mais ténue do que nas décadas anteriores) a oposição saiu tendencialmente vitoriosa. Já a relação entre o nível de desemprego e resultados eleitorais parece praticamente inexistente. Os partidos no Governo tanto venceram eleições com o desemprego perto de 5% (1999) como de 10% (2009).

No entanto, se substituirmos o nível de desemprego pela variação anual da taxa de desemprego, como está no gráfico 2, vemos que afinal há uma relação bastante evidente e é possível “prever” as vitórias dos partidos no governo ou da oposição.

Quando a linha a preto está negativa, ou seja quando o desemprego diminui, as eleições são sempre ganhas pelos partidos no governo. Isso é particularmente visível no período dos governos do PSD na segunda metade dos anos 80 e inicio dos anos 90 e em menor escala nos governos do PS entre 1995 e 2001. E o oposto também se verifica. Quando desemprego aumenta, a oposição tende a ganhar eleições – e fica assim explicado o motivo que levou à alternância entre PS e PSD entre 2001 e 2005. A única exceção deu-se em 2009, quando o PS ganhou eleições legislativas, depois de perder as eleições europeias e com o desemprego a aumentar – provavelmente explicada pelo algum otimismo ainda reinante e à melhoria do rendimento disponível devido aos aumentos salariais da função publica aprovados pelo PS…

Desde 2014, e com o início da recuperação económica, Portugal voltou a entrar num período de crescimento e mais rendimento com redução do desemprego. Assim, e mesmo tendo em conta o legado do pesado programa de ajustamento, foi possível uma vitória do Governo PSD/CDS em 2014 (ainda que sem maioria absoluta e com o resultado que sabemos…).

E daqui para a frente? Uma vitória fácil do PS?

Tendo em conta o histórico desde 1983, será muito difícil para oposição (PSD+CDS) ganhar eleições nacionais no curto prazo. As eleições europeias foram já o primeiro sinal e dificilmente o cenário ficará mais “simpático” para a oposição nos próximos tempos. Mesmo com todos os avisos e riscos no horizonte, dificilmente a atividade económica deixará de se expandir, apenas será de esperar alguma desaceleração, e, principalmente, o desemprego irá continuar a baixar. Ainda assim, este cenário idílico não vai durar para sempre. A taxa de desemprego já estará abaixo do seu nível “natural”, pelo que já a partir do próximo ano, ou até já na segunda metade deste, não será de estranhar ver até a algum aumento da taxa de desemprego, mesmo com crescimento económico (como aconteceu a partir de 2000/01).

Não são de facto os partidos que ganham as eleições, mas sim a carteira dos eleitores. O mais importante é mesmo desemprego, por isso, os conselheiros de António Costa e de Rui Rio devem (ou deveriam) já estar a preparar os seus post-its para a próxima campanha: É o desemprego, estúpido!

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