• Especial por:
  • Filipe Santos Costa

O que precisa de saber para a noite em que tudo pode acontecer

O jornalista Filipe Santos Costa assina a newsletter "Novo normal" e esta semana faz um guia para ter à mão quando estiver a acompanhar a noite eleitoral nos EUA.

Faltam dois dias para as eleições americanas. Para início de conversa, há três coisas a ter em conta sobre a próxima terça-feira:

  • É provável que não haja um vencedor nesse dia. A “noite eleitoral” pode demorar dias… ou semanas.
  • Se estiver à frente durante a noite eleitoral, Trump terá a tentação de mandar travar a contagem dos votos por correspondência, que demoram mais a contabilizar e deverão beneficiar Biden.
  • Se a disputa acabar no Supremo Tribunal, aproveitando várias suspeitas lançadas pelo próprio Trump, e as diferentes regras de cada Estado, o presidente tem boas hipóteses de levar a sua avante, tal a vantagem de juízes conservadores (graças aos três que forem nomeados neste mandato – um deles, a ultra-conservadora Amy Coney Barret, na segunda-feira passada).

Tudo indica que será uma noite eleitoral como nunca aconteceu. Já deram entrada quase 88 milhões de votos (pode acompanhar aqui), com vantagem para Joe Biden: quase metade dos votos já depositados são de eleitores registados como apoiantes do Partido Democrata, e 30% são de republicanos; os restantes são de eleitores que estão inscritos como independentes, e todos os estudos de opinião indicam que este ano a maioria dos independentes irá virar as costas a Trump.

Ou seja, já votaram quase dois terços dos eleitores que exerceram esse direito em 2016. Destes votos antecipados, a grande maioria (57 milhões) são por correio; 30 milhões são votos presenciais antecipados.

Um dos maiores problemas da noite eleitoral serão precisamente estes votos por correspondência, que Trump anda há meses a demonizar. O presidente dos EUA sabe que a grande maioria desses votos lhe será desfavorável, pois os democratas votam mais por correio (embora esta semana tenha encolhido essa vantagem), e a maioria dos eleitores de Trump prefere votar no dia das eleições. Ora, em muitos Estados decisivos, os votos por correio, por serem muitos e mais complexos de tratar, vão demorar mais tempo a contar do que os votos presenciais do dia 3.

Problema: Trump tornou explícito esta semana aquilo que há muito estava implícito: “Temos de ter um resultado final a 3 de novembro”, escreveu no Twitter, alegando a existência de “grandes problemas e discrepâncias com os votos por correspondência em todo o país”.

Pode parecer só mais um tweet maluco do tweeter in chief, mas é um plano de ação: a exigência de que a contagem seja encerrada na noite das eleições, com a alegação – desmentida por toda a informação disponível – de que há fraude nos votos por correio que não sejam contados no dia da eleição.

O problema é que não foi só Trump a alimentar essa teoria – no mesmo dia, a mesma ideia foi escrita, preto no branco, por Brett Kavanaugh, o ultrapolémico juiz do Supremo Tribunal que o presidente nomeou em 2018 (lembra-se? Aquele que era acusado de ter violado uma mulher quando estava na faculdade).

Apoiando uma decisão em que a maioria conservadora do Supremo impediu que o Estado de Wisconsin conte votos por correspondência que cheguem depois do dia das eleições (ainda que tenham sido enviados antes), Kavanaugh escreveu uma declaração de voto em que defende o deadline de dia 3, para “evitar o caos e as suspeitas de comportamento impróprio que podem surgir se milhares de votos por correspondência chegarem depois do dia das eleições e virarem o resultado da eleição”. Mais: “Se na manhã seguinte às eleições o aparente vencedor perder, por causa de votos que chegam tarde, podem explodir as acusações de que a eleição foi manipulada.”

Ora, isto é exatamente o que Trump anda a dizer, e é exatamente o que se supõe que possa acontecer, tendo em conta que:

  • Os correios dos EUA estão a demorar mais do que deviam na entrega dos votos (por serem muitos, mas também porque o responsável dos correios, um financiador de Trump, fez o que pôde para emperrar a máquina). Resultado: segundo a Associated Press, há grandes atrasos em alguns battleground states: Minnesota, Wisconsin, Michigan, Pensilvânia e Ohio. O prazo de entrega indicativo são cinco dias, mas em 30% dos casos não está a ser cumprido – e há dezenas de processos judiciais contra o US Postal Service. Nos Estados onde não são aceites votos que cheguem depois das eleições, isto significa milhares de votos deitados fora).
  • A maioria dos votos enviados por correio será contra Trump, podendo mesmo virar o resultado em Estados decisivos, onde o presidente pode ter a vantagem quando ainda só estão contados os votos do dia das eleições.

Como já escrevi noutras edições do Novo Normal, há dois fenómenos que podem marcar, respetivamente, a noite eleitoral e os dias seguintes:

  1. “Miragem vermelha” (vermelho é a cor do Partido Republicano): Trump terminar a noite em aparente vantagem, graças à contagem rápida dos votos presenciais (mais republicanos) e à lentidão no apuramento dos votos por correio (há Estados decisivos onde o apuramento dos votos por correspondência só começa no dia das eleições, e esses números entram mais tarde no sistema);
  2. “Viragem azul” (azul é a cor do Partido Democrata): no dia ou dias seguintes à eleição, conforme vão sendo contabilizados os votos por correspondência, Biden pode ultrapassar Trump em Estados fulcrais – o que parecia uma vitória na noite eleitoral, desaparece.
    Ambos os fenómenos estão documentados, e são comuns ao longo dos anos, sem nunca se ter demonstrado fraude. Mas este ano, em que mais de metade dos eleitores esperados já votaram antecipadamente – e sabendo-se que esses são sobretudo votos em Biden -, o seu impacto pode ser crítico.

Ou seja, aquilo que o juiz Kavanaugh diz que é preciso evitar é aquilo que ele, e Trump, sabem que deverá acontecer, e que pode dar a vitória a Biden.

Dir-se-á que foi “só” uma declaração de voto individual – mas sinaliza o quanto a narrativa de Trump está enraizada no setor mais conservador do Supremo Tribunal. A mera ideia de que seja possível “virar o resultado” de uma eleição cuja contagem de votos não acabou é um puro “trumpismo”.

O Supremo pode mesmo ser chamado a decidir as eleições? Sim – basta que sejam contestados votos em Estados onde o resultado seja muito próximo, e decisivo para apurar a maioria no Colégio Eleitoral (como na Flórida em 2000, no caso Bush vs Gore). Não é um acaso que Kavanaugh, pelo meio de inúmeros erros factuais e puras mentiras, tenha recuperado, logo agora, essa decisão de 2000.

Quer saber o quanto o Supremo pode ser decisivo, e quão louca se pode tornar esta eleição? Leia (ou releia) este texto, sobre os cenários extremos que podem acontecer a partir de terça-feira. Esta análise da Slate chega a uma conclusão pouco tranquilizadora: a maioria conservadora do Supremo quer determinar, não só quem pode votar, mas quem pode ganhar.

Sim, bem sei que a Slate está bastante à esquerda no panorama americano. Sendo assim, equilibro com este texto do Financial Times, que analisa o “risco não-trivial” de se repetir o caos de 2000, na Flórida ou noutros Estados, e resume a interferência que o Supremo já teve no atual processo eleitoral e ainda pode vir a ter. Lê-se e percebe-se que está ali a receita para cavar ainda mais a fratura da sociedade americana. Segundo o Politico, há 14 Estados onde pode haver contestação após as eleições.

Trump não escondeu a razão por que teve tanta pressa em nomear uma juíza sua partidária quando morreu Ruth Ginsburg: “Penso que isto vai acabar no Supremo Tribunal. E acho muito importante que tenhamos nove juízes. Ter uma situação de 4-4 não é bom”. Como o principal juiz do Supremo, John Roberts, apesar de ser da linha conservadora, por vezes alinha com os três juízes da ala progressista (só assim o resultado dá 4-4), Trump jogou pelo seguro.

Porque razão acha que “isto vai acabar no Supremo”? Porque é essa a estratégia do seu partido, que reservou milhões de dólares para litigância judicial nestas eleições. De um lado e do outro, todos os advogados com competência em matéria eleitoral, a nível local, estadual ou federal, estão apostos para entrar em cena. “Podemos dizer que toda a gente que percebe disso foi contratada”, reconhecia um democrata citado num artigo do FT sobre os batalhões de advogados dos dois partidos.

Quando Trump escreveu esta semana que está à frente de Biden em Estados onde a generalidade das sondagens o coloca atrás, ou empatado, é a preparação da narrativa da fraude: se não vencer é porque a eleição foi “roubada”.

Últimos argumentos: covid, economia e confrontos

A pandemia, os protestos de rua e a economia são os temas que mais interessam aos eleitores dos swing states, escrevia ontem o Wall Street Journal. Nisso, não serão muito diferentes dos outros eleitores todos. E não fogem aos temas que dominam o discurso dos dois candidatos.

Na reta final da campanha, Trump tem o impulso das boas notícias da economia: depois do trambolhão provocado pelo lockdown na primeira vaga da covid-19, o terceiro trimestre registou um crescimento recorde do PIB. Apesar da sua tradicional dificuldade em seguir um guião, Trump parece ter colocado a economia como um dos grandes temas dos últimos dias de campanha. O que lhe traz dois benefícios: permite focar a conversa na frente económica, que é aquela em que os eleitores lhe reconhecem o melhor desempenho ao longo do mandato, e dá algum conforto à tese de Trump sobre a importância de reabrir o país apesar do regresso de péssimos indicadores da pandemia.

Outro assunto da semana que pode favorecer a narrativa de Trump: o regresso de confrontos entre manifestantes e a polícia. Desta vez, com epicentro em Filadélfia (a maior cidade da Pensilvânia), depois de – mais uma vez – ter sido divulgado o vídeo de um cidadão negro a ser abatido a tiro pela polícia, num caso que – mais uma vez – tem todos os sinais de uso excessivo de força. Os protestos voltaram a ganhar contornos violentos, com pilhagens e confronto com as forças de segurança, com a Guarda Nacional a voltar a intervir. Mais uma oportunidade para Trump puxar o lustro ao discurso da lei e ordem.

Mas nem o boom da economia, nem os confrontos da rua tiram o coronavírus das manchetes e dos noticiários da televisão. “Covid, covid, covid”, queixa-se Trump. Pudera: tal como na Europa, este terceiro pico da pandemia está a fazer disparar os números de infetados e doentes hospitalizados nos EUA. Já foi ultrapassado um novo patamar: 9 milhões de casos nos EUA. Não foi o único recorde: houve 97 mil novos casos em 24 horas (novo máximo), e os mortos diários mantêm-se perto dos mil.

Fazendo jus ao nome de família, o filho mais velho do presidente achou que era um bom dia para dizer que as mortes por covid são “quase nada” nos EUA. Mil por dia. Hoje o total acumulado ultrapassará as 230 mil mortes.

O Midwest, epicentro eleitoral do país, é também o novo epicentro da covid-19, tanto em novos casos como em mortes e hospitalizações.

Como se tudo isto não fosse suficiente para abalar a confiança de muitos em relação a Trump, há um novo dado esta semana. O presidente, que já era criticado por andar numa correria de comícios juntando milhares de pessoas, sem distanciamento e, por regra, sem máscara, contrariando as autoridades de saúde, é agora acusado de ser, com essas ações de campanha, um fator de disseminação da doença. Uma investigação do USA Today deu conta disso mesmo: em vários locais onde Trump promoveu grandes comícios, o índice de infeções disparou nas duas semanas após o evento. Biden não deixou passar esse facto: “Ele anda a espalhar o vírus pelo país.”

Gráficos de evolução da covid-19 em quatro localidades onde Trump fez comícios em agosto e setembro, segundo dados do think tank CAP

O que dizem as sondagens

Mais ou menos o mesmo que dizem há muitos meses: a nível nacional, margem confortável de Biden. Quase oito pontos de vantagem no agregado de sondagens do Real Clear Politics, quase nove pontos no agregador de sondagens com ponderação feita pelo FiveThirtyEight.

Mesmo que tenhamos em conta a hipótese de haver o mesmo desacerto que aconteceu em 2016 entre as sondagens e os resultados, Biden ganha. O New York Times faz esse cálculo de desvio, e conclui que a vantagem de Biden até aumentou nas últimas três semanas.

Como escreveu a meio da semana Nate Silver, o guru da análise de sondagens, “há muitas sondagens novas, mas poucos sinais de que a corrida esteja mais disputada”. A vantagem de Biden nas sondagens nacionais teve uma erosão ligeira, mas continua na casa dos nove pontos (e é maior nas sondagens consideradas de mais qualidade, e menor nas sondagens com cotação mais baixa… mau sinal para Trump). Em compensação, a vantagem de Biden consolidou-se nas sondagens ao nível dos Estados, que assim ficaram mais alinhadas com a indicação que é dada pelos inquéritos nacionais.

Há quem acredite que tudo está mesmo encaminhado para Biden. Dave Wasserman, que há quatro anos avisou, contra a corrente, que Hillary estava a derrapar, diz agora que Biden é mesmo favorito e não vê boas notícias para Trump.

David Axelrod, uma das peças principais nas vitórias de Obama, teve esta semana um comentário bastante divertido na CNN: “Se eu cobrasse por terapia nas últimas semanas, teria feito uma fortuna só a acalmar as pessoas. Os democratas que eu conheço, e que olham para as sondagens e simplesmente não querem acreditar, por causa de 2016. Mas isto não é 2016. Temos um presidente entrincheirado, com uma taxa de aprovação de 42%, que nega uma pandemia que está a submergir o país, sobretudo naqueles Estados onde ele mais precisa de ganhar.”

São diferenças significativas em relação a 2016, mas há outras, e todas trabalham contra Trump:

  • Desta vez, Trump já não é uma novidade, o outsider desconhecido;
  • Biden é simpático à maioria do eleitorado, não tendo, nem de perto nem de longe, os índices de rejeição de Hillary Clinton;
  • Há muito menos indecisos do que em vésperas da eleição de 2016;
  • Biden tem uma vantagem muito maior do que Hillary tinha, tanto a nível nacional como em alguns swing states;
  • As empresas de sondagens corrigiram os erros que justificaram o falhanço nalguns Estados e segmentos de eleitorado (como o peso dos brancos sem estudos universitários);
  • As sondagens estão muito mais atentas ao que se passa nos Estados e, aí, ao nível dos condados;
  • O último debate não relançou Trump nem mexeu na tendência das sondagens;
  • A economia foi dizimada pela pandemia;
  • Já referi a pandemia?…

A verdade é que ainda tudo está em aberto – mesmo que os algoritmos da revista The Economist dêem a Trump só 3% de hipóteses de vitória!

A lição de 2016, e a lentidão de algumas contagens, justifica a dificuldade de declarar um vencedor na noite eleitoral. Pode acontecer, se vários fatores se conjugarem a favor de Biden: se vencer na Flórida, na Carolina do Norte e no Ohio, que podem ter resultados seguros com alguma rapidez, o democrata pode cantar vitória durante essa noite. Se a vantagem for para Trump, será quase impossível declará-lo vencedor antes de quinta ou sexta-feira.

O US Today fez esta espécie de guia sobre o momento em que cada candidato poderia cantar vitória. É uma boa leitura. O Washington Post traçou ontem três caminhos para uma vitória de Trump e três para uma vitória de Biden. O FiveThrityEight fez este levantamento, mesmo para political nerds, sobre em que momento cada Estado terá resultados sólidos. E este pequeno mapa de battleground states que foi publicado pelo NYT ajuda.

Voltamos a olhar para os principais terrenos de batalha, dez Estados onde Trump venceu em 2016 e agora podem virar ou estão em aberto. Comparo a situação de ontem com a de uma semana antes, de acordo com a média ponderada das respetivas sondagens estaduais pelo FiveThirtyEight:

  • Texas: vantagem Trump cresceu para +1,3 (36 votos no Colégio Eleitoral)
  • Flórida: vantagem Biden encolheu para +2,2 (29 votos)
  • Pensilvânia: vantagem Biden encolheu para +5,2 (20 votos)
  • Ohio: vantagem Trump +0,9 (18 votos)
  • Michigan: vantagem Biden cresceu para +8,8 (16 votos)
  • Geórgia: vantagem Biden cresceu para +1,7 (16 votos)
  • Carolina do Norte: vantagem Biden diminuiu para +2,5 (15 votos)
  • Arizona: vantagem Biden deslizou para +3,2 (11 votos)
  • Wisconsin: vantagem Biden subiu para +8,6 (10 votos)
  • Iowa: vantagem Biden encolheu para +0,2 (6 votos)
  • Resumindo: em terrenos onde era pouco provável que Biden conseguisse virar a história, Trump pode estar a recuperar fôlego – se assim for, não é desta que Estados como Texas, Geórgia, Carolina do Norte, Ohio, Iowa ou Arizona voltam a pintar-se de azul. Em dois destes Estados (Carolina do Norte e Iowa), os republicanos recuperaram o passo esta semana no voto por correspondência (tal como na Flórida).

Em todo o caso, continua a haver boas perspetivas para o democrata. Basta pensar que no Texas — um dos Estados cuja demografia mais mudou nos últimos anos, sobretudo graças ao crescimento dos latinos — já há, neste momento, mais de nove milhões de votos depositados, o que ultrapassa o total de votos de 2016. E neste caso não se coloca o problema dos votos por correio, pois oito desses nove milhões são votos presenciais antecipados.

Não se sabe a simpatia desses eleitores, mas sabe-se uma coisa preocupante para Trump: o grande motor desta corrida ao voto no Texas foi Harris County, que inclui Houston e os seus subúrbios – trata-se da terceira maior circunscrição eleitoral dos EUA, e uma das mais diversificadas do ponto de vista étnico. E, apesar do Texas ser tradicionalmente republicano, há quatro anos Hillary ganhou neste condado, cuja afluência às urnas bateu agora valores recorde… Por outro lado, também as zonas rurais e conservadoras do Estado bateram recordes… Vai ser de roer as unhas até ao fim.

Ah!, um pormenor: se, por acaso, Biden segurar todos os Estados onde Hillary ganhou em 2016 (é esse o pressuposto de todos os cenários), e conseguisse mesmo triunfar no Texas, seria suficiente para ser presidente.

Já os Estados do Midwest que há quatro anos caíram de forma surpreendente no regaço de Trump, parecem mesmo estar de volta para os democratas – tudo indica que Michigan e Wisconsin (mais o Minnesota, que não está nesta lista) vão mesmo voltar a formar a “muralha azul”.

Esta é uma espécie de “pior cenário base” para Biden, retirando-lhe os Estados onde, em média, a sua vantagem não ultrapassa os três pontos – Arizona, Carolina do Norte e Geórgia (aqui, o democrata até subiu ligeiramente). Pode ganhá-los todos, mas as sondagens não dão essa segurança. O mapa seria este, com dois Estados por atribuir, capazes de dar a vitória a qualquer dos candidatos:

Sim, falta falar da Flórida e da Pensilvânia. É onde tudo se poderá decidir.

Olhos postos na Pensilvânia (e na Flórida, como sempre)

Neste cenário, basta a Biden vencer num destes Estados e bloqueia a maioria dos votos no Colégio Eleitoral (279 se vencer só na Pensilvânia; 288 na improbabilidade de vencer só na Flórida). Trump teria de vencer em ambos, e aí contaria 279 votos.

Mas os candidatos não estão em pé de igualdade nos dois Estados que podem ser o tipping point desta eleição. Na Flórida as sondagens dizem que estão empatados, mas na Pensilvânia Biden tem uma vantagem de cinco pontos. Em setembro foi menor, no início de outubro foi maior, mas Biden tem liderado consistentemente na média das intenções de voto do seu Estado natal.

Os dois Estados têm recebido grande atenção de ambas as candidaturas nesta reta final. Biden foi à Flórida dizer: “Vocês têm a chave desta eleição”. Trump assegurou que “se ganharmos a Pensilvânia, ganhamos tudo”.

Ambos têm razão: é quase impossível que Biden vença na Flórida sem vencer na Pensilvânia; tem a ver com dinâmicas do eleitorado. Do mesmo modo, se Trump ganhar na Pensilvânia, venceu quase de certeza na Flórida, porque isso significará que no momento da verdade as coisas viraram a seu favor.

A Pensilvânia é todo um caso. Votou democrata desde os anos 90, mas nas eleições mais recentes só uma vez deu uma vitória folgada – em 2008, na primeira eleição de Obama. O excesso de confiança de Hillary Clinton há quatro anos foi a sua perdição neste Estado, que perdeu por 68 mil votos (em 6 milhões).

Até agora mais de dois milhões já votaram no Estado (um terço do total de 2016). Desses, quase um milhão e meio são democratas. Boas notícias para Biden? Sim e não.

A Pensilvânia será um dos Estados mais problemáticos na contagem de votos. As leis estaduais não permitem que os votos por correspondência sejam abertos antes do dia das eleições, e este não é um Estado com tradição a lidar com voto por correio. Mais: este é um dos Estados onde serão aceites votos por correio que cheguem até três dias após o dia da eleição (sendo que, por incrível que pareça, o Supremo avisou que se reserva o direito de reverter essa norma mesmo após as eleições…). Ou seja, de acordo com os responsáveis locais, a contagem pode prolongar-se até sexta-feira…

É talvez o Estado mais evidente onde poderá acontecer a tal “miragem vermelha” e, depois, a “viragem azul”. O FiveThirtyEight tem um excelente trabalho sobre o que pode acontecer: tendo em conta as discrepâncias entre o voto no dia e o voto antecipado, no fim da noite eleitoral Biden pode ter só metade dos seus votos contados na Pensilvânia, enquanto 70% dos votos de Trump podem já estar no sistema. “Podemos estar perante uma situação em que Trump tem uma vantagem de 16 pontos (58% – 42%) com base em cerca de 60% dos votos. Mas nos dias seguintes (…) Biden pode conquistar dois terços dos votos restantes, o que provocaria uma viragem de 21 pontos” em relação ao resultado da noite eleitoral… a favor de Biden. É isto que Trump quer impedir.

Agora, imagine que a declaração de vitória nacional depende desse resultado e o suspense da Pensilvânia se prolonga por vários dias, com Trump a exigir que pare a contagem e os tribunais atulhados de processos… Num país em ebulição, não é difícil adivinhar o clima de agitação e confronto nas ruas. À cautela, o gigante do retalho Wallmart anunciou que nos próximos tempos as suas lojas não vão vender armas nem munições, por causa da “agitação social”. Segundo o NYT, muitas lojas — de Nova Iorque a Beverly Hills — estão a preparar-se para um cenário de batalha campal a seguir às eleições, aumentando a segurança e protegendo as montras.

A Flórida é outra história. É um clássico swing state mas, ao contrário da Pensilvânia, deverá ter um apuramento de resultados muito célere — enquanto está a ler este texto, já milhões de votos foram contados, pois esse trabalho começa antecipadamente, conforme os votos vão chegando.

Já chegaram quase oito milhões: 40% de democratas, 38% de republicanos e 20% de independentes. Como esses votos já estão contados, são lançados no sistema logo no início do apuramento – neste caso, e ao contrário da regra, são os votos do dia que demoram mais a processar. Ou seja, na Flórida a miragem pode ser ao contrário…

Quem vencer na Flórida pode moldar a narrativa da noite eleitoral: se for Biden, fica tudo encaminhado para triunfar; se for Trump, dá força à ideia de que, tal como em 2016, é o vencedor improvável. E bem será necessária uma narrativa: como encher horas e horas de diretos televisivos e guerra em tempo real nas redes sociais sem saber quem está, de facto, a vencer?

Já agora: quer saber como é que as televisões norte-americanas fazem projeções de vencedores durante a noite eleitoral? Então vai gostar deste vídeo, com o responsável por essas decisões na ABC.

Os media em geral – e as tvs em particular – estão a preparar-se para umas eleições como nunca aconteceram: aquelas em que, depois da grande noite, não basta arrumar as coisas e ir dormir. Pela primeira vez, a notícia que interessa pode demorar dias ou semanas até ser conhecida. As redes sociais Twitter e Facebook já anunciaram medidas para impedir que essas plataformas sejam tomadas por fake news e intervenções inflamatórias que possam servir como rastilho.

As televisões estão em modo brace for impact e a Associated Press já tem planos de contingência para vários cenários, incluindo a hipótese de um dos candidatos (ou ambos) declarar vitória sem ter base para isso. Pela primeira vez nos 170 anos de história da agência de notícias, esta está pronta para desmentir um presidente, ou um aspirante a presidente, em plena noite eleitoral.

What a time to be alive.

  • Filipe Santos Costa
  • Jornalista

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