“O turismo terá muito futuro no espaço”premium

O voo de Richard Branson no domingo marca o acelerar da corrida dos investidores privados ao espaço. O potencial para o turismo é enorme, diz Mário Ferreira, o 'astronauta" português.

A contagem decrescente para o voo de Richard Branson, rumo ao espaço, será acompanhada atentamente no domingo por todos os que sonham com a última fronteira. Dias depois, a 20 de julho, será a vez de Jeff Bezos, o bilionário dono da Amazon, voar para fora do planeta e a SpaceX de Elon Musk tem um voo agendado para setembro. Será o arranque de uma corrida dos privados ao espaço e as bases para o início de um novo negócio: o turismo espacial. As expectativas são altas. Até 2030 estima-se que possa vir a valer 3 mil milhões de dólares. A Morgan Stanley prevê que o setor espacial, como um todo, represente um negócio até 1 bilião de dólares em 2040.

O voo do dono da Virgin Galactic será seguido atentamente por Mário Ferreira. Há anos que o empresário português tem em mãos um bilhete para voar na companhia de Branson, mas ainda sem data para vestir o fato de astronauta. “Fui convidado para estar lá no domingo, dia 11, para ver em direto o voo, só que a Covid… Não fosse isso estaria lá - fui um dos poucos convidados para assistir in loco no spaceport (no Novo México)”, conta. Assim, irá acompanhar o voo via streaming. “Há um link especial para os fundadores, para verem em direto e um link para a festa que vai haver a seguir”.

Tem sido uma longa espera. Há 17 anos que aguarda luz verde para ser o primeiro turista espacial português. “Inscrevi-me em 2004. No final desse ano, a Virgin ganhou um prémio de um concurso lançado, Ansari X Prize, que dava 10 milhões de dólares a quem conseguisse levar um veículo à linha de espaço perto dos 100 quilómetros e voltar, com um veículo reutilizável”, recorda. Estava nos Estados Unidos quando isso aconteceu e entusiasmou-o a ideia de ir ao espaço. “Ouvi que Branson ia lançar uma empresa de turismo espacial, no dia seguinte fui procurar a Virgin Galactic (na Internet). Não tinha rigorosamente nada, a não ser uma página a pedir para deixarmos contato. Deixei o meu email e inscrevi-me, com uma frase muito simples: ‘Quero ser o primeiro português turista no espaço’”, lembra. Durante meses nada aconteceu. Apenas silêncio do outro lado. “Depois de seis meses nada, em 2005 começamos as negociações e, em 2006, comprei o primeiro bilhete”, diz.

Pagou cerca de 250 mil dólares, fazendo parte do clube dos 100 fundadores. Mas voar é que ainda nada. “Já fiz todos os testes e estive totalmente certificado para ir, entretanto, houve este atraso, parei de treinar, apareceram-me duas hérnias, e engordei 15 kg. Agora tenho de emagrecer e começar a treinar para o teste”, comenta Mário Ferreira. O voo chegou a ter data para 2008, mas a explosão de um dos veículos, num dos inúmeros testes, ditou o atraso da corrida espacial. E houve quem desistisse. “Os fundadores já não são 100, são cerca de 80”, adianta.

O voo no domingo surge pouco tempo depois de Richard Branson ter obtido autorização da Administração Federal de Aviação (FAA), o regulador de segurança aérea dos EUA, para transportar pessoas ao espaço. “Vamos ver como tudo corre”, diz Mário Ferreira. “Na verdade o Branson vai fazer um teste, que será igual aos voos, mas que ainda não é um voo turístico. Vai fazer parte de uma tripulação, num conjunto de testes, com várias pessoas, o que era necessário, já que o conjunto de testes feitos até à data, só levava uma pessoa e o resto dos lugares sacos de areia para fazer peso”, conta. “Agora vão ser dois pilotos e quatro passageiros, que são tripulantes. Só depois é que se começará a falar outra vez como se irá fazer”, comenta o empresário.

Se o tempo o permitir e não haver problemas técnicos, o Richard Branson irá juntar-se à tripulação - que inclui a instrutora principal da Galactic, Beth Moses, o engenheiro de operações principal, Colin Bennett, o vice-presidente de assuntos governamentais, Sirisha Bandla, e os dois pilotos Dave Mackay e Michael Masucci - e embarcar, no domingo, na Virgin Galactic Unit, para um voo a 90 quilómetros da terra, lançado a partir de um avião. O primeiro voo teste da Galactic com seis pessoas a bordo.

Branson até pode ter batido Jeff Bezos na corrida ao espaço, mas será o recém-retirado CEO da Amazon a voar mais longe. Lançado a partir do solo, no Texas, o foguetão da sua Blue Origin levará a cápsula dos passageiros até aos 106 quilómetros de altitude. Com Bezos seguem mais passageiros: o seu irmão Mark, o vencedor de um leilão - um anónimo que pagou 28 milhões de dólares pela viagem - e Wally ‘Mercury 13’ Funk, uma das mulheres piloto treinadas pela NASA nos anos 60, mas que acabaram por nunca voar numa missão espacial. A oportunidade chega agora aos 82 anos, tornando-a a pessoa mais velha a ir ao espaço. O voo será a 20 de julho e não foi por acaso: assinala-se nesse dia o 52.º aniversário da chegada de Neil Armstrong e Buzz Aldrin à Lua.

Mas na distância percorrida em voos privados, os dois empresários não batem os voos da SpaceX de Elon Musk: os foguetões do fundador da Tesla já levaram astronautas até à Estação Espacial Internacional, estando previsto para setembro o primeiro voo privado.

Corrida ao espaço

Branson, Musk e Bezos são as caras mais conhecidas numa corrida de investidores privados ao espaço, onde o potencial de receita é enorme. “Acredito verdadeiramente que o espaço pertence a todos nós. Após 17 anos de investigação, engenharia e inovação, a nova indústria espacial comercial está prestes a abrir o Universo à humanidade e a mudar o mundo de vez. Uma coisa é ter um sonho de tornar o espaço mais acessível a todos, outra é uma equipa incrível a transformar coletivamente esse sonho em realidade”, afirma Richard Branson, citado pela BBC.

As estimativas do USB são de 2019 - ainda nem se sonhava com uma pandemia - mas dão conta da expectativa criada em torno da aposta dos privados liderados pela Virgin Galactic, SpaceX e a Blue Origin. Até 2030, o banco de investimento estima que o turismo espacial possa valer cerca de 3 mil milhões de dólares. “Embora o turismo espacial esteja numa fase inicial, à medida que a tecnologia comece a dar provas, e os custos desçam com a tecnologia e concorrência, o turismo espacial deverá tornar-se mais comercial”, apontavam os analistas Jarrod Castle e Myles Walton, citados pela CNBC. “O turismo espacial poderá ser o primeiro passo para o desenvolvimento de viagens aéreas de longo curso através do espaço”, argumentam. E um impulso para a própria indústria espacial que, estimava o USB, poderia valer 805 mil milhões de dólares até 2030.

O certo é que o entusiasmo em torno do espaço não para de crescer. Mesmo em Portugal. Treze anos depois do último processo de recrutamento de astronautas, a Agência Espacial Europeia (ESA) recebeu 321 candidaturas portuguesas para astronautas, incluindo quatro candidatos a parastronauta. Quem será escolhido só se saberá no final de 2022. Mas o interesse é inequívoco. “Quando comparados com os valores de 2008 vemos que Portugal teve um acréscimo de mais de 50% no número de candidatos, o que é significativo, mas talvez o mais importante a reter seja o facto do número de mulheres portuguesas que querem ser astronautas ter duplicado, o que nos deixa muito satisfeitos”, destacou Hugo Costa, diretor da Agência Espacial Portuguesa – Portugal Space, citado em comunicado.

Mais formação

E há universidades em Portugal a colocar na sua oferta formativa o tema espacial. Já a partir do próximo ano letivo a Universidade de Aveiro (UA) vai passar a contar com a licenciatura em engenharia aeroespacial e a Nova SBE, em parceria com a ESA, e as universidades St. Gallen (Suíça) e Rotterdam School of Management (Países Baixos) vão lançar a 22 de novembro (candidaturas até final de outubro) o primeiro programa na Europa focado na economia e gestão do setor espacial: Space for Business.

Com duração de seis meses, com várias estadias e aulas presenciais nas três escolas e nas infraestruturas da ESA, o Space for Business tem como objetivo “identificar oportunidades e desafios para o crescimento de empresas na área e construir uma rede de contactos de profissionais do setor”. Ou seja, “não foi apenas pensado para quem trabalha no setor do Espaço, mas também para todos os interessados no mercado espacial.” Mais, argumentam, a “formação vem também dar resposta às necessidades de muitos empresários e empreendedores, uma vez que o espaço se assume agora como uma nova fronteira económica, com vários modelos de negócio emergentes em torno de infraestruturas, produtos e serviços desenvolvidos para os mercados espaciais”.

“A educação é uma ferramenta fundamental para garantir que a Europa tenha os recursos humanos necessários para criar um crescimento sustentável e seguro do futuro do setor espacial. Iniciativas como o European Space Business Programme são fundamentais para que a academia, a indústria e o negócio falem a mesma língua e contribuam para o ecossistema de inovação, que proporcionará uma contribuição fundamental para a soberania europeia”, defende Ricardo Conde, presidente da agência nacional Portugal Space, citado em nota de imprensa.

Os números são expressivos: há um ano, a Morgan Stanley previa que o setor alcance um lucro de até 1 bilião de dólares em 2040.

Turismo de nicho

“O espaço será o futuro. Desde logo para mim. Há uma ligação muito interessante ao turismo e acredito que o turismo terá muito futuro no espaço”, diz Mário Ferreira, dono, entre outros ativos - é um dos acionistas da Swipe News, a editora do ECO - da empresa de cruzeiros Douro Azul e representante em Portugal da Virgin Galactic. Futuro "tanto agora com estes voos suborbitais, como também em projetos que estão a decorrer neste momento, como a possibilidade de fazer um cruzeiro orbital, em que dá a volta ao mundo 17 vezes num dia, dando a possibilidade de ver 17 pôr-do-sol e 17 nascer do dia”, refere. “Vai ter muita piada.”

Desde que se demonstre que os primeiros 100 ou 200 voos foram e regressarem sem quaisquer problemas, julgo que vai haver uma procura muito grande”, defende o empresário. E o elevado valor do bilhete não será obstáculo. “Espera-se que no futuro venha a ser mais barato. Neste momento, cada bilhete andará em torno dos 300 mil dólares. Mas existem clientes portugueses para isso”, garante. “Na altura quando abrimos as inscrições vendemos logo, muito rapidamente, quatro bilhetes. O que aconteceu é que os prazos foram dilatando e tudo parou”.

Este é um mercado nicho, não é um mercado de massas. Os mercados de nicho estão a crescer cada vez mais, estou convencido que o negócio do turismo espacial não vai sofrer nada de especial por causa desta pandemia, antes pelo contrário, poderá até ter mais procura por ser tanto de nicho, tão isolada, do que no mass market”, argumenta.

Já o turismo no planeta Terra não terá motivos para tanto otimismo, com a evolução da pandemia a não dar tréguas. “Este será um ano fraco para o turismo português, infelizmente, esta quarta vaga já entra na época turística e balnear portuguesa”, lamenta o empresário. “A economia está ligada à máquina e não poderá continuar assim durante muito mais tempo. Quando acordarmos desta pandemia, a economia estará em apuros”, diz.

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