A banalidade do mal virtual

O discurso público degradado é uma consequência direta do comportamento digital e tem riscos enormes para uma democracia.

Na semana passada um académico foi a um programa de televisão defender um ponto de vista devidamente apoiado em dados científicos. Alguns dos participantes concordaram com ele, outros discordaram. Tudo normal. Daí o debate migrou para as redes sociais, onde se transformou rapidamente num chorrilho de insultos e ameaças. Alguns “jornais” fizeram o favor de regar o fogo com gasolina, tentando traçar o perfil do académico e reportar algo que pudesse continuar a alimentar a polémica – que se continuou a alimentar a si mesma sem nada de novo, apenas opiniões e insultos cada vez mais extremados. A coisa durou mais uns dias, até ser substituído por outro tão inconsequente quanto este. É um fenómeno cíclico, que já conhecemos e que se voltará inevitavelmente a repetir. É, como se diz agora, “o novo normal”. Mas é triste porque revela o pior de nós enquanto grupo.

O mesmo académico que foi alvo da campanha de difamação nas redes sociais fez questão de recordar a ideia de banalidade do mal expressa por Hannah Arendt quando esta analisou a forma entusiástica como os alemães acolheram as ideias extremistas de Hitler e do seu Reich. O exemplo é interessante e poderá ser rigoroso em alguns casos (como a deriva populista na Hungria), mas não creio que estejamos aí. O que se passa é mais simples de explicar: somos todos parte de uma máquina de entretenimento que vive de extrapolar emoções, promovendo opiniões extremadas e escondendo a moderação.

O Facebook, gigante monopolista do discurso público, tornou-se o que é graças à repetição deste formato. Lá dentro o medo, o ódio, a raiva e o insulto vendem muito mais do que a ponderação, o racionalismo e a inteligência. O apelo comercial está no clique e esse é ganho graças ao agitar das emoções básicas. As redes sociais querem tráfego e engajamento para vender mais publicidade. Não querem a qualidade do discurso público nem têm interesse numa discussão elevada. Querem o sucesso (leia-se tráfego) que lhes é dado por personagens como Donald Trump, Bruno de Carvalho, Jair Bolsonaro, Quintino Aires e André Ventura, não o que é oferecido por cientistas e académicos que efetivamente percebem do que se está a discutir. É muito mais simples tomar posição sobre o Brexit se o discurso for reduzido ao seu mínimo denominador comum alimentado por mentiras – mas também é muito mais simples que em democracia se tome a opção errada.

A economia digital é quase toda ela maravilhosa, como se atesta diariamente aqui no ECO, mas este efeito pernicioso do clique tem contaminado o debate público de forma continuada. Todos os que participam nestas discussões querem ser escutados, tendo um incentivo forte para degradar a qualidade da sua mensagem de forma a que ela chegue a mais pessoas – daí o achincalhamento básico do outro que depois é replicado noutras discussões públicas. Pelo meio, alguns “jornais” acham que o que é viral nas redes sociais passa como notícia, entrando na discussão e ganhando mais uns tostões digitais que vão adiando a própria irrelevância.

A consequência disto é a desvalorização do especialista, trocado pelo agitador – que até pode ser ignorante na matéria em causa mas é mais popular e por isso mais rentável. Que isto tenha começado pelo futebol não quer dizer que não passe daí e não chegue à política. Nalguns países já chegou, com consequências dramáticas para o nosso futuro comum. Nesta fase, quanto menos se confiar nas redes sociais para gerir o discurso público, melhor. E como no próximo ano há duas eleições, vale a pena seguir uma regra básica e não levar a sério quem tem muito sucesso no Facebook. O algoritmo não favorece os competentes, apenas promove quem está mais disposto a chocar. Não é disso de que precisamos.

Ler mais: Tom Nichols escreveu no ano passado um livro excelente sobre estas questões, chamado The Death of Expertise. Nichols é um académico americano conservador que é reconhecido como a mais sólida voz anti-Trump do Partido Republicano, do qual aliás anunciou a sua saída em outubro. É também cinco vezes vencedor do Jeopardy, o mais popular concurso de cultura geral da televisão norte-americana. O livro está publicado em português, pela Quetzal, com o título ‘A Morte da Competência’. É de leitura essencial para perceber o estado do debate público.

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António Costa

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