Diogo Queiroz de Andrade

  • Jornalista
Diogo Queiroz de Andrade
Diogo Queiroz de Andrade
ECO - Economia online

Em Está na altura de destruir a blockchain

Diogo Queiroz de Andrade

Esta semana ficamos a saber que um serviço público português, o Instituto Nacional de Estatística, criou condições para colocar generosamente à disposição do governo americano o pacote de dados completo de quem respondia ao Censos. O comportamento do INE foi posto em causa pela Comissão Nacional de Proteção de Dados, que não poupou palavras ao exigir a suspensão do fluxo de dados dos Censos. Como de costume na administração pública, não é fácil perceber o que aconteceu, pelo menos para já. Mas, quando se exige a colaboração dos cidadãos, a transparência é essencial.

Há sempre formas de tentar desvalorizar o perigo do que aconteceu, como afirmar que todo o tráfego digital é por natureza perigoso. Mas há uma diferença entre correr o risco de ter a casa assaltada e juntar todos os meus valores e oferecê-los numa caixa ao ladrão que está à espera na esquina. Claro que isto não quer dizer que a Cloudflare seja uma empresa que vive do roubo, mas o enquadramento jurídico a que está obrigada implica necessariamente esse risco – os profissionais da empresa podem até ser contra as decisões políticas americanas que obrigam à partilha dos dados que passam por essas empresas, mas a verdade é que a única maneira de as evitar é deixar de estar sedeado nos Estados Unidos. Portanto, aqui, o problema está longe de residir na empresa.

O problema está num serviço público nacional que, por ignorância ou desprezo, decide correr riscos com os dados dos portugueses. É isso que está primeiramente em causa. O INE tem uma década para preparar cada Censo. É certo que os últimos dez anos trouxeram muitas mudanças tecnológicas, que os meios no setor público não abundam e que o Covid acrescentou uma camada de incerteza, mas o mínimo que se exige é estar a par das decisões judiciais a nível europeu que nos condicionam a todos. As decisões Schrems são bastante claras e deviam ter impedido a escolha de uma empresa americana para interferir no processo.

Não chega dizer que está tudo bem e que nenhuns dados chegaram aos EUA – até porque não há qualquer forma de garantir isso. Se Washington ordenou que estes dados fossem recolhidos e arquivados, isso aconteceu mesmo e ninguém em Portugal terá sequer forma de saber disso. E, ao contrário do que se deu a entender, não era sequer necessário que algum servidor estivesse fisicamente nos Estados Unidos: basta que os dados tenham estado acessíveis a uma empresa sedeada nos EUA. Por isso, e pela relevância sensível dos dados em causa, exige-se transparência: é preciso explicar porque foi feito este contrato, publicá-lo, explicar o que o substituiu quando foi suspenso. A recomendação da CNPD tem linguagem dura e para a contrariar não basta dar algumas respostas seletivas, é preciso mesmo ser transparente. É certo que em Portugal não estamos habituados a isso, mas às vezes os bons exemplos podem vir de cima. E depois é preparar os censos de 2031 sem cometer erros destes.

Esta questão fez ressurgir outro problema conhecido. Há várias alternativas à Cloudflare, mas a maioria das que apresentam sólidas soluções de mercado são americanas. Na União Europeia há uma carência de soluções digitais de larga escala, tendo o Brexit aumentado este problema de forma relevante. Se a União Europeia tem mecanismos regulatórios que exigem – e bem – uma série de proteções para os cidadãos, tem também de facilitar o aparecimento de soluções empresariais privadas capazes de cumprir essas mesmas regras. Isso passa por criar condições para o nascimento e também para a sustentação de empresas líderes na área tecnológica. E, antes que qualquer ultra-liberal se assuste, é preciso referir que é precisamente isto que fazem os americanos com os seus campeões tecnológicos, que praticamente não pagam impostos apesar dos lucros que apresentam. Aliás, nenhum gigante tecnológico americano existiria não fosse o enorme apoio dado pelo governo americano: da Tesla à Google, passando pela Apple e pelo Facebook, o suporte financeiro dado pelas entidades públicas americanas não tem paralelo com nenhum caso europeu (nem sequer na Airbus, que será provavelmente o exemplo mais óbvio). Está portanto na altura de reforçar a resiliência a nível da infraestrutura tecnológica, promovendo alternativas de mercado sólidas à gestão, fluxo e armazenamento de dados no espaço da União Europeia.

Ler mais: A recomendação da CNPD é bastante clara e abre caminhos às questões que ainda precisam de ser respondidas. A leitura é fortemente recomendada, antes ou depois de enviar os dados do Censos2021.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos
Diogo Queiroz de Andrade
Diogo Queiroz de Andrade
ECO - Economia online

Em Está na altura de destruir a blockchain

Diogo Queiroz de Andrade

Esta semana ficamos a saber que um serviço público português, o Instituto Nacional de Estatística, criou condições para colocar generosamente à disposição do governo americano o pacote de dados completo de quem respondia ao Censos. O comportamento do INE foi posto em causa pela Comissão Nacional de Proteção de Dados, que não poupou palavras ao exigir a suspensão do fluxo de dados dos Censos. Como de costume na administração pública, não é fácil perceber o que aconteceu, pelo menos para já. Mas, quando se exige a colaboração dos cidadãos, a transparência é essencial.

Há sempre formas de tentar desvalorizar o perigo do que aconteceu, como afirmar que todo o tráfego digital é por natureza perigoso. Mas há uma diferença entre correr o risco de ter a casa assaltada e juntar todos os meus valores e oferecê-los numa caixa ao ladrão que está à espera na esquina. Claro que isto não quer dizer que a Cloudflare seja uma empresa que vive do roubo, mas o enquadramento jurídico a que está obrigada implica necessariamente esse risco – os profissionais da empresa podem até ser contra as decisões políticas americanas que obrigam à partilha dos dados que passam por essas empresas, mas a verdade é que a única maneira de as evitar é deixar de estar sedeado nos Estados Unidos. Portanto, aqui, o problema está longe de residir na empresa.

O problema está num serviço público nacional que, por ignorância ou desprezo, decide correr riscos com os dados dos portugueses. É isso que está primeiramente em causa. O INE tem uma década para preparar cada Censo. É certo que os últimos dez anos trouxeram muitas mudanças tecnológicas, que os meios no setor público não abundam e que o Covid acrescentou uma camada de incerteza, mas o mínimo que se exige é estar a par das decisões judiciais a nível europeu que nos condicionam a todos. As decisões Schrems são bastante claras e deviam ter impedido a escolha de uma empresa americana para interferir no processo.

Não chega dizer que está tudo bem e que nenhuns dados chegaram aos EUA – até porque não há qualquer forma de garantir isso. Se Washington ordenou que estes dados fossem recolhidos e arquivados, isso aconteceu mesmo e ninguém em Portugal terá sequer forma de saber disso. E, ao contrário do que se deu a entender, não era sequer necessário que algum servidor estivesse fisicamente nos Estados Unidos: basta que os dados tenham estado acessíveis a uma empresa sedeada nos EUA. Por isso, e pela relevância sensível dos dados em causa, exige-se transparência: é preciso explicar porque foi feito este contrato, publicá-lo, explicar o que o substituiu quando foi suspenso. A recomendação da CNPD tem linguagem dura e para a contrariar não basta dar algumas respostas seletivas, é preciso mesmo ser transparente. É certo que em Portugal não estamos habituados a isso, mas às vezes os bons exemplos podem vir de cima. E depois é preparar os censos de 2031 sem cometer erros destes.

Esta questão fez ressurgir outro problema conhecido. Há várias alternativas à Cloudflare, mas a maioria das que apresentam sólidas soluções de mercado são americanas. Na União Europeia há uma carência de soluções digitais de larga escala, tendo o Brexit aumentado este problema de forma relevante. Se a União Europeia tem mecanismos regulatórios que exigem – e bem – uma série de proteções para os cidadãos, tem também de facilitar o aparecimento de soluções empresariais privadas capazes de cumprir essas mesmas regras. Isso passa por criar condições para o nascimento e também para a sustentação de empresas líderes na área tecnológica. E, antes que qualquer ultra-liberal se assuste, é preciso referir que é precisamente isto que fazem os americanos com os seus campeões tecnológicos, que praticamente não pagam impostos apesar dos lucros que apresentam. Aliás, nenhum gigante tecnológico americano existiria não fosse o enorme apoio dado pelo governo americano: da Tesla à Google, passando pela Apple e pelo Facebook, o suporte financeiro dado pelas entidades públicas americanas não tem paralelo com nenhum caso europeu (nem sequer na Airbus, que será provavelmente o exemplo mais óbvio). Está portanto na altura de reforçar a resiliência a nível da infraestrutura tecnológica, promovendo alternativas de mercado sólidas à gestão, fluxo e armazenamento de dados no espaço da União Europeia.

Ler mais: A recomendação da CNPD é bastante clara e abre caminhos às questões que ainda precisam de ser respondidas. A leitura é fortemente recomendada, antes ou depois de enviar os dados do Censos2021.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos
Diogo Queiroz de Andrade
Diogo Queiroz de Andrade
ECO - Economia online

Em Está na altura de destruir a blockchain

Diogo Queiroz de Andrade

Esta semana ficamos a saber que um serviço público português, o Instituto Nacional de Estatística, criou condições para colocar generosamente à disposição do governo americano o pacote de dados completo de quem respondia ao Censos. O comportamento do INE foi posto em causa pela Comissão Nacional de Proteção de Dados, que não poupou palavras ao exigir a suspensão do fluxo de dados dos Censos. Como de costume na administração pública, não é fácil perceber o que aconteceu, pelo menos para já. Mas, quando se exige a colaboração dos cidadãos, a transparência é essencial.

Há sempre formas de tentar desvalorizar o perigo do que aconteceu, como afirmar que todo o tráfego digital é por natureza perigoso. Mas há uma diferença entre correr o risco de ter a casa assaltada e juntar todos os meus valores e oferecê-los numa caixa ao ladrão que está à espera na esquina. Claro que isto não quer dizer que a Cloudflare seja uma empresa que vive do roubo, mas o enquadramento jurídico a que está obrigada implica necessariamente esse risco – os profissionais da empresa podem até ser contra as decisões políticas americanas que obrigam à partilha dos dados que passam por essas empresas, mas a verdade é que a única maneira de as evitar é deixar de estar sedeado nos Estados Unidos. Portanto, aqui, o problema está longe de residir na empresa.

O problema está num serviço público nacional que, por ignorância ou desprezo, decide correr riscos com os dados dos portugueses. É isso que está primeiramente em causa. O INE tem uma década para preparar cada Censo. É certo que os últimos dez anos trouxeram muitas mudanças tecnológicas, que os meios no setor público não abundam e que o Covid acrescentou uma camada de incerteza, mas o mínimo que se exige é estar a par das decisões judiciais a nível europeu que nos condicionam a todos. As decisões Schrems são bastante claras e deviam ter impedido a escolha de uma empresa americana para interferir no processo.

Não chega dizer que está tudo bem e que nenhuns dados chegaram aos EUA – até porque não há qualquer forma de garantir isso. Se Washington ordenou que estes dados fossem recolhidos e arquivados, isso aconteceu mesmo e ninguém em Portugal terá sequer forma de saber disso. E, ao contrário do que se deu a entender, não era sequer necessário que algum servidor estivesse fisicamente nos Estados Unidos: basta que os dados tenham estado acessíveis a uma empresa sedeada nos EUA. Por isso, e pela relevância sensível dos dados em causa, exige-se transparência: é preciso explicar porque foi feito este contrato, publicá-lo, explicar o que o substituiu quando foi suspenso. A recomendação da CNPD tem linguagem dura e para a contrariar não basta dar algumas respostas seletivas, é preciso mesmo ser transparente. É certo que em Portugal não estamos habituados a isso, mas às vezes os bons exemplos podem vir de cima. E depois é preparar os censos de 2031 sem cometer erros destes.

Esta questão fez ressurgir outro problema conhecido. Há várias alternativas à Cloudflare, mas a maioria das que apresentam sólidas soluções de mercado são americanas. Na União Europeia há uma carência de soluções digitais de larga escala, tendo o Brexit aumentado este problema de forma relevante. Se a União Europeia tem mecanismos regulatórios que exigem – e bem – uma série de proteções para os cidadãos, tem também de facilitar o aparecimento de soluções empresariais privadas capazes de cumprir essas mesmas regras. Isso passa por criar condições para o nascimento e também para a sustentação de empresas líderes na área tecnológica. E, antes que qualquer ultra-liberal se assuste, é preciso referir que é precisamente isto que fazem os americanos com os seus campeões tecnológicos, que praticamente não pagam impostos apesar dos lucros que apresentam. Aliás, nenhum gigante tecnológico americano existiria não fosse o enorme apoio dado pelo governo americano: da Tesla à Google, passando pela Apple e pelo Facebook, o suporte financeiro dado pelas entidades públicas americanas não tem paralelo com nenhum caso europeu (nem sequer na Airbus, que será provavelmente o exemplo mais óbvio). Está portanto na altura de reforçar a resiliência a nível da infraestrutura tecnológica, promovendo alternativas de mercado sólidas à gestão, fluxo e armazenamento de dados no espaço da União Europeia.

Ler mais: A recomendação da CNPD é bastante clara e abre caminhos às questões que ainda precisam de ser respondidas. A leitura é fortemente recomendada, antes ou depois de enviar os dados do Censos2021.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos
Diogo Queiroz de Andrade
Diogo Queiroz de Andrade
ECO - Economia online

Em Está na altura de destruir a blockchain

Diogo Queiroz de Andrade

Esta semana ficamos a saber que um serviço público português, o Instituto Nacional de Estatística, criou condições para colocar generosamente à disposição do governo americano o pacote de dados completo de quem respondia ao Censos. O comportamento do INE foi posto em causa pela Comissão Nacional de Proteção de Dados, que não poupou palavras ao exigir a suspensão do fluxo de dados dos Censos. Como de costume na administração pública, não é fácil perceber o que aconteceu, pelo menos para já. Mas, quando se exige a colaboração dos cidadãos, a transparência é essencial.

Há sempre formas de tentar desvalorizar o perigo do que aconteceu, como afirmar que todo o tráfego digital é por natureza perigoso. Mas há uma diferença entre correr o risco de ter a casa assaltada e juntar todos os meus valores e oferecê-los numa caixa ao ladrão que está à espera na esquina. Claro que isto não quer dizer que a Cloudflare seja uma empresa que vive do roubo, mas o enquadramento jurídico a que está obrigada implica necessariamente esse risco – os profissionais da empresa podem até ser contra as decisões políticas americanas que obrigam à partilha dos dados que passam por essas empresas, mas a verdade é que a única maneira de as evitar é deixar de estar sedeado nos Estados Unidos. Portanto, aqui, o problema está longe de residir na empresa.

O problema está num serviço público nacional que, por ignorância ou desprezo, decide correr riscos com os dados dos portugueses. É isso que está primeiramente em causa. O INE tem uma década para preparar cada Censo. É certo que os últimos dez anos trouxeram muitas mudanças tecnológicas, que os meios no setor público não abundam e que o Covid acrescentou uma camada de incerteza, mas o mínimo que se exige é estar a par das decisões judiciais a nível europeu que nos condicionam a todos. As decisões Schrems são bastante claras e deviam ter impedido a escolha de uma empresa americana para interferir no processo.

Não chega dizer que está tudo bem e que nenhuns dados chegaram aos EUA – até porque não há qualquer forma de garantir isso. Se Washington ordenou que estes dados fossem recolhidos e arquivados, isso aconteceu mesmo e ninguém em Portugal terá sequer forma de saber disso. E, ao contrário do que se deu a entender, não era sequer necessário que algum servidor estivesse fisicamente nos Estados Unidos: basta que os dados tenham estado acessíveis a uma empresa sedeada nos EUA. Por isso, e pela relevância sensível dos dados em causa, exige-se transparência: é preciso explicar porque foi feito este contrato, publicá-lo, explicar o que o substituiu quando foi suspenso. A recomendação da CNPD tem linguagem dura e para a contrariar não basta dar algumas respostas seletivas, é preciso mesmo ser transparente. É certo que em Portugal não estamos habituados a isso, mas às vezes os bons exemplos podem vir de cima. E depois é preparar os censos de 2031 sem cometer erros destes.

Esta questão fez ressurgir outro problema conhecido. Há várias alternativas à Cloudflare, mas a maioria das que apresentam sólidas soluções de mercado são americanas. Na União Europeia há uma carência de soluções digitais de larga escala, tendo o Brexit aumentado este problema de forma relevante. Se a União Europeia tem mecanismos regulatórios que exigem – e bem – uma série de proteções para os cidadãos, tem também de facilitar o aparecimento de soluções empresariais privadas capazes de cumprir essas mesmas regras. Isso passa por criar condições para o nascimento e também para a sustentação de empresas líderes na área tecnológica. E, antes que qualquer ultra-liberal se assuste, é preciso referir que é precisamente isto que fazem os americanos com os seus campeões tecnológicos, que praticamente não pagam impostos apesar dos lucros que apresentam. Aliás, nenhum gigante tecnológico americano existiria não fosse o enorme apoio dado pelo governo americano: da Tesla à Google, passando pela Apple e pelo Facebook, o suporte financeiro dado pelas entidades públicas americanas não tem paralelo com nenhum caso europeu (nem sequer na Airbus, que será provavelmente o exemplo mais óbvio). Está portanto na altura de reforçar a resiliência a nível da infraestrutura tecnológica, promovendo alternativas de mercado sólidas à gestão, fluxo e armazenamento de dados no espaço da União Europeia.

Ler mais: A recomendação da CNPD é bastante clara e abre caminhos às questões que ainda precisam de ser respondidas. A leitura é fortemente recomendada, antes ou depois de enviar os dados do Censos2021.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos
Diogo Queiroz de Andrade
Diogo Queiroz de Andrade
ECO - Economia online

Em Está na altura de destruir a blockchain

Diogo Queiroz de Andrade

Esta semana ficamos a saber que um serviço público português, o Instituto Nacional de Estatística, criou condições para colocar generosamente à disposição do governo americano o pacote de dados completo de quem respondia ao Censos. O comportamento do INE foi posto em causa pela Comissão Nacional de Proteção de Dados, que não poupou palavras ao exigir a suspensão do fluxo de dados dos Censos. Como de costume na administração pública, não é fácil perceber o que aconteceu, pelo menos para já. Mas, quando se exige a colaboração dos cidadãos, a transparência é essencial.

Há sempre formas de tentar desvalorizar o perigo do que aconteceu, como afirmar que todo o tráfego digital é por natureza perigoso. Mas há uma diferença entre correr o risco de ter a casa assaltada e juntar todos os meus valores e oferecê-los numa caixa ao ladrão que está à espera na esquina. Claro que isto não quer dizer que a Cloudflare seja uma empresa que vive do roubo, mas o enquadramento jurídico a que está obrigada implica necessariamente esse risco – os profissionais da empresa podem até ser contra as decisões políticas americanas que obrigam à partilha dos dados que passam por essas empresas, mas a verdade é que a única maneira de as evitar é deixar de estar sedeado nos Estados Unidos. Portanto, aqui, o problema está longe de residir na empresa.

O problema está num serviço público nacional que, por ignorância ou desprezo, decide correr riscos com os dados dos portugueses. É isso que está primeiramente em causa. O INE tem uma década para preparar cada Censo. É certo que os últimos dez anos trouxeram muitas mudanças tecnológicas, que os meios no setor público não abundam e que o Covid acrescentou uma camada de incerteza, mas o mínimo que se exige é estar a par das decisões judiciais a nível europeu que nos condicionam a todos. As decisões Schrems são bastante claras e deviam ter impedido a escolha de uma empresa americana para interferir no processo.

Não chega dizer que está tudo bem e que nenhuns dados chegaram aos EUA – até porque não há qualquer forma de garantir isso. Se Washington ordenou que estes dados fossem recolhidos e arquivados, isso aconteceu mesmo e ninguém em Portugal terá sequer forma de saber disso. E, ao contrário do que se deu a entender, não era sequer necessário que algum servidor estivesse fisicamente nos Estados Unidos: basta que os dados tenham estado acessíveis a uma empresa sedeada nos EUA. Por isso, e pela relevância sensível dos dados em causa, exige-se transparência: é preciso explicar porque foi feito este contrato, publicá-lo, explicar o que o substituiu quando foi suspenso. A recomendação da CNPD tem linguagem dura e para a contrariar não basta dar algumas respostas seletivas, é preciso mesmo ser transparente. É certo que em Portugal não estamos habituados a isso, mas às vezes os bons exemplos podem vir de cima. E depois é preparar os censos de 2031 sem cometer erros destes.

Esta questão fez ressurgir outro problema conhecido. Há várias alternativas à Cloudflare, mas a maioria das que apresentam sólidas soluções de mercado são americanas. Na União Europeia há uma carência de soluções digitais de larga escala, tendo o Brexit aumentado este problema de forma relevante. Se a União Europeia tem mecanismos regulatórios que exigem – e bem – uma série de proteções para os cidadãos, tem também de facilitar o aparecimento de soluções empresariais privadas capazes de cumprir essas mesmas regras. Isso passa por criar condições para o nascimento e também para a sustentação de empresas líderes na área tecnológica. E, antes que qualquer ultra-liberal se assuste, é preciso referir que é precisamente isto que fazem os americanos com os seus campeões tecnológicos, que praticamente não pagam impostos apesar dos lucros que apresentam. Aliás, nenhum gigante tecnológico americano existiria não fosse o enorme apoio dado pelo governo americano: da Tesla à Google, passando pela Apple e pelo Facebook, o suporte financeiro dado pelas entidades públicas americanas não tem paralelo com nenhum caso europeu (nem sequer na Airbus, que será provavelmente o exemplo mais óbvio). Está portanto na altura de reforçar a resiliência a nível da infraestrutura tecnológica, promovendo alternativas de mercado sólidas à gestão, fluxo e armazenamento de dados no espaço da União Europeia.

Ler mais: A recomendação da CNPD é bastante clara e abre caminhos às questões que ainda precisam de ser respondidas. A leitura é fortemente recomendada, antes ou depois de enviar os dados do Censos2021.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos
Diogo Queiroz de Andrade
Diogo Queiroz de Andrade
ECO - Economia online

Em Está na altura de destruir a blockchain

Diogo Queiroz de Andrade

Esta semana ficamos a saber que um serviço público português, o Instituto Nacional de Estatística, criou condições para colocar generosamente à disposição do governo americano o pacote de dados completo de quem respondia ao Censos. O comportamento do INE foi posto em causa pela Comissão Nacional de Proteção de Dados, que não poupou palavras ao exigir a suspensão do fluxo de dados dos Censos. Como de costume na administração pública, não é fácil perceber o que aconteceu, pelo menos para já. Mas, quando se exige a colaboração dos cidadãos, a transparência é essencial.

Há sempre formas de tentar desvalorizar o perigo do que aconteceu, como afirmar que todo o tráfego digital é por natureza perigoso. Mas há uma diferença entre correr o risco de ter a casa assaltada e juntar todos os meus valores e oferecê-los numa caixa ao ladrão que está à espera na esquina. Claro que isto não quer dizer que a Cloudflare seja uma empresa que vive do roubo, mas o enquadramento jurídico a que está obrigada implica necessariamente esse risco – os profissionais da empresa podem até ser contra as decisões políticas americanas que obrigam à partilha dos dados que passam por essas empresas, mas a verdade é que a única maneira de as evitar é deixar de estar sedeado nos Estados Unidos. Portanto, aqui, o problema está longe de residir na empresa.

O problema está num serviço público nacional que, por ignorância ou desprezo, decide correr riscos com os dados dos portugueses. É isso que está primeiramente em causa. O INE tem uma década para preparar cada Censo. É certo que os últimos dez anos trouxeram muitas mudanças tecnológicas, que os meios no setor público não abundam e que o Covid acrescentou uma camada de incerteza, mas o mínimo que se exige é estar a par das decisões judiciais a nível europeu que nos condicionam a todos. As decisões Schrems são bastante claras e deviam ter impedido a escolha de uma empresa americana para interferir no processo.

Não chega dizer que está tudo bem e que nenhuns dados chegaram aos EUA – até porque não há qualquer forma de garantir isso. Se Washington ordenou que estes dados fossem recolhidos e arquivados, isso aconteceu mesmo e ninguém em Portugal terá sequer forma de saber disso. E, ao contrário do que se deu a entender, não era sequer necessário que algum servidor estivesse fisicamente nos Estados Unidos: basta que os dados tenham estado acessíveis a uma empresa sedeada nos EUA. Por isso, e pela relevância sensível dos dados em causa, exige-se transparência: é preciso explicar porque foi feito este contrato, publicá-lo, explicar o que o substituiu quando foi suspenso. A recomendação da CNPD tem linguagem dura e para a contrariar não basta dar algumas respostas seletivas, é preciso mesmo ser transparente. É certo que em Portugal não estamos habituados a isso, mas às vezes os bons exemplos podem vir de cima. E depois é preparar os censos de 2031 sem cometer erros destes.

Esta questão fez ressurgir outro problema conhecido. Há várias alternativas à Cloudflare, mas a maioria das que apresentam sólidas soluções de mercado são americanas. Na União Europeia há uma carência de soluções digitais de larga escala, tendo o Brexit aumentado este problema de forma relevante. Se a União Europeia tem mecanismos regulatórios que exigem – e bem – uma série de proteções para os cidadãos, tem também de facilitar o aparecimento de soluções empresariais privadas capazes de cumprir essas mesmas regras. Isso passa por criar condições para o nascimento e também para a sustentação de empresas líderes na área tecnológica. E, antes que qualquer ultra-liberal se assuste, é preciso referir que é precisamente isto que fazem os americanos com os seus campeões tecnológicos, que praticamente não pagam impostos apesar dos lucros que apresentam. Aliás, nenhum gigante tecnológico americano existiria não fosse o enorme apoio dado pelo governo americano: da Tesla à Google, passando pela Apple e pelo Facebook, o suporte financeiro dado pelas entidades públicas americanas não tem paralelo com nenhum caso europeu (nem sequer na Airbus, que será provavelmente o exemplo mais óbvio). Está portanto na altura de reforçar a resiliência a nível da infraestrutura tecnológica, promovendo alternativas de mercado sólidas à gestão, fluxo e armazenamento de dados no espaço da União Europeia.

Ler mais: A recomendação da CNPD é bastante clara e abre caminhos às questões que ainda precisam de ser respondidas. A leitura é fortemente recomendada, antes ou depois de enviar os dados do Censos2021.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos
Diogo Queiroz de Andrade
Diogo Queiroz de Andrade
ECO - Economia online

Em Está na altura de destruir a blockchain

Diogo Queiroz de Andrade

Esta semana ficamos a saber que um serviço público português, o Instituto Nacional de Estatística, criou condições para colocar generosamente à disposição do governo americano o pacote de dados completo de quem respondia ao Censos. O comportamento do INE foi posto em causa pela Comissão Nacional de Proteção de Dados, que não poupou palavras ao exigir a suspensão do fluxo de dados dos Censos. Como de costume na administração pública, não é fácil perceber o que aconteceu, pelo menos para já. Mas, quando se exige a colaboração dos cidadãos, a transparência é essencial.

Há sempre formas de tentar desvalorizar o perigo do que aconteceu, como afirmar que todo o tráfego digital é por natureza perigoso. Mas há uma diferença entre correr o risco de ter a casa assaltada e juntar todos os meus valores e oferecê-los numa caixa ao ladrão que está à espera na esquina. Claro que isto não quer dizer que a Cloudflare seja uma empresa que vive do roubo, mas o enquadramento jurídico a que está obrigada implica necessariamente esse risco – os profissionais da empresa podem até ser contra as decisões políticas americanas que obrigam à partilha dos dados que passam por essas empresas, mas a verdade é que a única maneira de as evitar é deixar de estar sedeado nos Estados Unidos. Portanto, aqui, o problema está longe de residir na empresa.

O problema está num serviço público nacional que, por ignorância ou desprezo, decide correr riscos com os dados dos portugueses. É isso que está primeiramente em causa. O INE tem uma década para preparar cada Censo. É certo que os últimos dez anos trouxeram muitas mudanças tecnológicas, que os meios no setor público não abundam e que o Covid acrescentou uma camada de incerteza, mas o mínimo que se exige é estar a par das decisões judiciais a nível europeu que nos condicionam a todos. As decisões Schrems são bastante claras e deviam ter impedido a escolha de uma empresa americana para interferir no processo.

Não chega dizer que está tudo bem e que nenhuns dados chegaram aos EUA – até porque não há qualquer forma de garantir isso. Se Washington ordenou que estes dados fossem recolhidos e arquivados, isso aconteceu mesmo e ninguém em Portugal terá sequer forma de saber disso. E, ao contrário do que se deu a entender, não era sequer necessário que algum servidor estivesse fisicamente nos Estados Unidos: basta que os dados tenham estado acessíveis a uma empresa sedeada nos EUA. Por isso, e pela relevância sensível dos dados em causa, exige-se transparência: é preciso explicar porque foi feito este contrato, publicá-lo, explicar o que o substituiu quando foi suspenso. A recomendação da CNPD tem linguagem dura e para a contrariar não basta dar algumas respostas seletivas, é preciso mesmo ser transparente. É certo que em Portugal não estamos habituados a isso, mas às vezes os bons exemplos podem vir de cima. E depois é preparar os censos de 2031 sem cometer erros destes.

Esta questão fez ressurgir outro problema conhecido. Há várias alternativas à Cloudflare, mas a maioria das que apresentam sólidas soluções de mercado são americanas. Na União Europeia há uma carência de soluções digitais de larga escala, tendo o Brexit aumentado este problema de forma relevante. Se a União Europeia tem mecanismos regulatórios que exigem – e bem – uma série de proteções para os cidadãos, tem também de facilitar o aparecimento de soluções empresariais privadas capazes de cumprir essas mesmas regras. Isso passa por criar condições para o nascimento e também para a sustentação de empresas líderes na área tecnológica. E, antes que qualquer ultra-liberal se assuste, é preciso referir que é precisamente isto que fazem os americanos com os seus campeões tecnológicos, que praticamente não pagam impostos apesar dos lucros que apresentam. Aliás, nenhum gigante tecnológico americano existiria não fosse o enorme apoio dado pelo governo americano: da Tesla à Google, passando pela Apple e pelo Facebook, o suporte financeiro dado pelas entidades públicas americanas não tem paralelo com nenhum caso europeu (nem sequer na Airbus, que será provavelmente o exemplo mais óbvio). Está portanto na altura de reforçar a resiliência a nível da infraestrutura tecnológica, promovendo alternativas de mercado sólidas à gestão, fluxo e armazenamento de dados no espaço da União Europeia.

Ler mais: A recomendação da CNPD é bastante clara e abre caminhos às questões que ainda precisam de ser respondidas. A leitura é fortemente recomendada, antes ou depois de enviar os dados do Censos2021.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos
Diogo Queiroz de Andrade
Diogo Queiroz de Andrade
ECO - Economia online

Em Está na altura de destruir a blockchain

Diogo Queiroz de Andrade

Esta semana ficamos a saber que um serviço público português, o Instituto Nacional de Estatística, criou condições para colocar generosamente à disposição do governo americano o pacote de dados completo de quem respondia ao Censos. O comportamento do INE foi posto em causa pela Comissão Nacional de Proteção de Dados, que não poupou palavras ao exigir a suspensão do fluxo de dados dos Censos. Como de costume na administração pública, não é fácil perceber o que aconteceu, pelo menos para já. Mas, quando se exige a colaboração dos cidadãos, a transparência é essencial.

Há sempre formas de tentar desvalorizar o perigo do que aconteceu, como afirmar que todo o tráfego digital é por natureza perigoso. Mas há uma diferença entre correr o risco de ter a casa assaltada e juntar todos os meus valores e oferecê-los numa caixa ao ladrão que está à espera na esquina. Claro que isto não quer dizer que a Cloudflare seja uma empresa que vive do roubo, mas o enquadramento jurídico a que está obrigada implica necessariamente esse risco – os profissionais da empresa podem até ser contra as decisões políticas americanas que obrigam à partilha dos dados que passam por essas empresas, mas a verdade é que a única maneira de as evitar é deixar de estar sedeado nos Estados Unidos. Portanto, aqui, o problema está longe de residir na empresa.

O problema está num serviço público nacional que, por ignorância ou desprezo, decide correr riscos com os dados dos portugueses. É isso que está primeiramente em causa. O INE tem uma década para preparar cada Censo. É certo que os últimos dez anos trouxeram muitas mudanças tecnológicas, que os meios no setor público não abundam e que o Covid acrescentou uma camada de incerteza, mas o mínimo que se exige é estar a par das decisões judiciais a nível europeu que nos condicionam a todos. As decisões Schrems são bastante claras e deviam ter impedido a escolha de uma empresa americana para interferir no processo.

Não chega dizer que está tudo bem e que nenhuns dados chegaram aos EUA – até porque não há qualquer forma de garantir isso. Se Washington ordenou que estes dados fossem recolhidos e arquivados, isso aconteceu mesmo e ninguém em Portugal terá sequer forma de saber disso. E, ao contrário do que se deu a entender, não era sequer necessário que algum servidor estivesse fisicamente nos Estados Unidos: basta que os dados tenham estado acessíveis a uma empresa sedeada nos EUA. Por isso, e pela relevância sensível dos dados em causa, exige-se transparência: é preciso explicar porque foi feito este contrato, publicá-lo, explicar o que o substituiu quando foi suspenso. A recomendação da CNPD tem linguagem dura e para a contrariar não basta dar algumas respostas seletivas, é preciso mesmo ser transparente. É certo que em Portugal não estamos habituados a isso, mas às vezes os bons exemplos podem vir de cima. E depois é preparar os censos de 2031 sem cometer erros destes.

Esta questão fez ressurgir outro problema conhecido. Há várias alternativas à Cloudflare, mas a maioria das que apresentam sólidas soluções de mercado são americanas. Na União Europeia há uma carência de soluções digitais de larga escala, tendo o Brexit aumentado este problema de forma relevante. Se a União Europeia tem mecanismos regulatórios que exigem – e bem – uma série de proteções para os cidadãos, tem também de facilitar o aparecimento de soluções empresariais privadas capazes de cumprir essas mesmas regras. Isso passa por criar condições para o nascimento e também para a sustentação de empresas líderes na área tecnológica. E, antes que qualquer ultra-liberal se assuste, é preciso referir que é precisamente isto que fazem os americanos com os seus campeões tecnológicos, que praticamente não pagam impostos apesar dos lucros que apresentam. Aliás, nenhum gigante tecnológico americano existiria não fosse o enorme apoio dado pelo governo americano: da Tesla à Google, passando pela Apple e pelo Facebook, o suporte financeiro dado pelas entidades públicas americanas não tem paralelo com nenhum caso europeu (nem sequer na Airbus, que será provavelmente o exemplo mais óbvio). Está portanto na altura de reforçar a resiliência a nível da infraestrutura tecnológica, promovendo alternativas de mercado sólidas à gestão, fluxo e armazenamento de dados no espaço da União Europeia.

Ler mais: A recomendação da CNPD é bastante clara e abre caminhos às questões que ainda precisam de ser respondidas. A leitura é fortemente recomendada, antes ou depois de enviar os dados do Censos2021.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos

Biografia

Jornalista que escreve sobre temas que estão na intersecção da política, da tecnologia e da cultura. Foi diretor-adjunto do Público e diretor criativo do Observador, realizou documentários para a RTP e colaborou com mais uma dúzia de títulos de imprensa. Divide o trabalho jornalístico com a investigação académica, apontando ao futuro digital dos média. Costuma andar pelo Twitter: @dqandrade.