A caixa de ferramentas do 5G

A União Europeia emitiu finalmente as recomendações para o 5G, com alertas contra a Huawei mas sem propor que a empresa seja banida dos concursos.

Nas recomendações aos estados-membros, a Comissão Europeia deixou bem claro que os reguladores nacionais devem exercer restrições de forma a proteger os setores mais sujeitos a ataques. Mas não chegou a sugerir (nem, na verdade a desaconselhar) que algumas empresas específicas sejam impedidas de concorrer. Ainda falta saber o que fará a poderosa Alemanha, onde Merkel tem dito querer manter o campo aberto para os vários concorrentes. E esta foi a segunda vitória da Huawei na semana, que também conseguiu que o governo britânico incluísse a empresa em parte do desenvolvimento do 5G.

A decisão britânica pode até parecer sensata, porque implica uma medida de exclusão para a Huawei. Mas baseia-se num pensamento que reveja desconhecimento profundo sobre a forma como as coisas se passam com tecnologias de comunicações. A Huawei foi banida de apresentar tecnologia para as áreas centrais da infraestrutura, mas autorizada a fornecer 35% das estações locais – o que só faria sentido se as comunicações fossem encriptadas em todos os momentos. Mas com o 5G as coisas são muito mais complexas.

Esta é a tecnologia que vai permitir coisas tão futuristas como a generalização dos carros autónomos ou aplicações de realidade aumentada ou transações ainda mais rápidas de dados encriptados. Em princípio, as estações locais de retransmissão não terão acesso a dados encriptados, mas muitas destas tecnologias implicarão que isso venha a acontecer – logo, as implicações para a privacidade e segurança são enormes. Colocar isso na mão de um poder estrangeiro que é um concorrente económico e geoestratégico é um risco enorme.

Na verdade, a vitória da China não é de agora. Quando, na primeira década do século, os bancos centrais chineses enfiaram dezenas de bilhões de yuans na Huawei, foi em busca de uma participação relevante na tecnologia 4G, aquela que foi inaugurada em 2010. Ao conseguir isso, os chineses garantiram a presença nas gerações seguintes de comunicações – porque definir todas as infraestruturas a partir do zero seria demasiado caro e demorado para as exigências do “mercado”. Esta é uma decisão tomada por meras razões financeiras que se poderá revelar desastrosa a médio prazo em termos de soberania e independência.

Ler mais: o pacote completo de recomendações de segurança apresentado pela Comissão Europeia para o 5G está aqui.

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