A cibersegurança na mão dos especuladorespremium

O ataque à SolarWinds é uma história assustadora que conjuga incompetências múltiplas com um modelo de lucros predatórios que ataca as sociedades que devia servir.

Parece uma narrativa demasiado ridícula para ser verdadeira. A Solarwinds é uma empresa que fornece software para gestão segura de redes que é usado pela grande maioria das entidades de segurança militar americana. Durante algum tempo, a password de acesso a um servidor importante na rede da SolarWinds era “SolarWinds123”, o que facilitou o acesso de hackers russos à sua rede de clientes – que inclui empresas como a Microsoft e os departamentos governamentais do Tesouro, do comércio e da Energia. A investigação já revelou que a situação durou quase um ano e que provavelmente nunca se conhecerá a sua verdadeira extensão – as motivações dos hackers russos podem ter sido “apenas” as de fazer espionagem de documentos públicos e privados, mas provavelmente terá incluído a criação de múltiplas portas de acesso a sistemas que agora ficam vulneráveis.

Só nos Estados Unidos, 425 das empresas referidas no ranking Fortune 500 usam produtos SolarWinds. Estes riscos atingem também a Europa, embora seja mais difícil determinar até onde foi a intrusão nos diversos países. Sabe-se, pelo menos desde 2014, que os serviços secretos russos têm infiltrado diversas empresas de cibersegurança em países europeus, para além de se irem conhecendo várias tentativas de ataque a entidades da UE.

Claro que este escândalo revela o pior lado da incompetência na gestão de sistemas e falhas gravíssimas nos padrões de cibersegurança públicos. Mas, acidentalmente, esta é também uma história que põe a nu a face mais agressiva de um capitalismo extremista que está a ameaçar o modelo liberal em que as sociedades ocidentais se fundam.

O excesso de dinheiro disponível no mercado bolsista norte-americano privilegia os lucros de muito curto prazo, aplaudindo os riscos e celebrando como heróis os empreendedores que desprezam leis, princípios e ética em favor do lucro acionista rápido. Ora, a maneira mais fácil de fazer isto é cortar no essencial – sabendo que quem pagará a fatura desses lucros será a sociedade. É a razão pela qual algumas empresas poluem o meio ambiente sem qualquer pudor, porque outras permitem a utilização das suas plataformas para espalhar ódio e demagogia, ou porque outras ainda vendem produtos cancerígenos que serão tratados pelo serviço público de saúde.

Ao agir tendo como única motivação o lucro imediato, estas empresas cortam no essencial e basicamente operam uma transferência do risco para os seus clientes, os seus funcionários e a sociedade em geral. Quando as coisas correm mal, e isso acontece inevitavelmente, quem paga a fatura não são os investidores de risco, porque esses já há muito que capitalizaram os seus investimentos; quem paga a fatura são os que antes beneficiaram dos serviços que adquiriram. Numa empresa como esta, isto implica toda a sociedade.

No caso da SolarWinds, ocorreu a tempestade perfeita. Um grupo de private equity comprou a empresa em 2015 e carregou-a imediatamente com uma dívida equivalente ao valor da compra; depois passou cinco anos a aumentar o preço do software que vendia e a adquirir empresas concorrentes e complementares, em aquisições sempre sancionadas pelas autoridades americanas e europeias. Ao mesmo tempo cortou todos os custos que pode, subcontratando programadores na Bielorússia e poupando em áreas estratégicas essenciais como a cibersegurança – aparentemente a password SolarWinds123 tinha sido criada por um estagiário que a dada altura teve o privilégio de configurar a rede da empresa... Tudo isto para levar a empresa à praça pública e multiplicar os lucros, naturalmente.

Este está longe de ser caso único. São estas empresas que constituem a base das indústrias digitais americanas, da inteligência artificial à cibersegurança, passando pela banca e outros serviços. E é com estas empresas que os estados são forçados a negociar, em nome da constante inovação que retirou capacidades ao aparelho central e as distribuiu por estas empresas que só cresceram à conta de contratos atribuídos... pelo estado. Ou seja, estas empresas beneficiam de dinheiros públicos para deliberadamente prejudicar o bem público. E os seus gestores ainda são celebrados por isso.

É importante referir que o problema é bem mais grave nos Estados Unidos, até porque este tipo de capitalismo não é bem visto na Europa. Mas estas empresas digitais fazem negócios no mundo todo e é com eles que os estados europeus - e a própria Comissão Europeia – são forçados a negociar.

Ler mais: quem se interessar pelo tema do poder desmesurado do mercado financeiro sobre os negócios públicos e privados fará bem em ler o Private Equity at Work, uma obra que é apresentada como o primeiro estudo abrangente das causas e consequências deste fenómeno.

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