A cultura do empreendedorismo e o sonho americano

O modelo empreendedor de Silicon Valley está corrompido e deve ser imediatamente abandonado, até porque a Europa não precisa dele para promover uma economia mais dinâmica.

Os debates económicos continuam a ser dominados pela irritante moda que glorifica o empreendedor solitário e promove o risco contra a sustentabilidade, promovendo um ideal dos filmes e romances americanos que está morto no século XXI.

Antes de mais, importa perceber que esse mito não tem correspondência na realidade. O sonho americano pressupunha uma mobilidade social que existe cada vez menos e a sua versão empreendedora é limitada por uma falsa meritocracia que se fecha a jovens brancos de classe média alta que entraram para universidades acima da média graças ao dinheiro e influência da família.

O dinheiro dos fundos de investimento vai quase todo para este modelo e menos de dez por cento das empresas financiadas é liderada por mulheres, por exemplo. E mesmo esse modelo está em perda: a geração americana que está agora a sair da universidade é a menos empreendedora dos últimos cinquenta anos e a situação é de tal forma grave que os dados oficiais do governo americano já incluem pequenos negócios como cafés de bairro nas estatísticas de startups. Um modelo económico que privilegia os monopólios e que tem um crescimento robusto no mercado de trabalho também ajuda a reduzir o apetite pelo risco e pela inovação, matando o mito.

Na Europa, muitas vezes deixamos que o debate sobre o empreendedorismo seja invadido pelo ideal de Silicon Valley. Graças às diferenças entre o modelo americano e o resto do mundo, essa conversa sempre fez pouco sentido, mas agora faz ainda menos. Basta recuar dez anos para ver a ironia.

A década começou com o jovem Zuckerberg elevado a homem do ano na capa da Time – e bastaram oito anos para a sua antítese se manifestar numa famosa capa da Wired, onde o mesmo Zuckerberg aparece espancado. Ainda em menos tempo, o Índice de Inovação atribuído pela Bloomberg destruiu o mito: os EUA estavam em primeiro lugar em 2013 e em nono em 2020, deixando agora seis nações europeias nos dez primeiros lugares num ranking que é pela primeira vez liderado pela Alemanha.

Na verdade, é importante perguntar por que raio é que qualquer pessoa de bom senso há-de aspirar a ser um ignorante que constrói falsas expectativas sobre um produto bem sucedido e presume que isso lhe dá o direito de dar bitaites sobre a forma como o mundo se deve transformar.

A cultura de Silicon Valley é tóxica e produziu tantos criminosos quanto heróis, para além de ser um berço de desigualdades que se reproduzem nos produtos e conceitos que lá nasceram. Sem dúvida que as inovações tecnológicas deste século fizeram maravilhas pela humanidade. Mas também deram origem a crimes contra essa mesma humanidade, subverteram as instituições do sistema democrático e facilitaram uma onda populista sem fim à vista. O dinheiro que fazem não chega para os tornar assim tão sedutores, e ainda bem. Há outras formas de ficar multimilionário sem que isso obrigue a páginas negras nas entradas da enciclopédia sobre estes anos.

Ainda bem que a Europa não tem muita gente assim. Já chega termos tido alguns dos piores déspotas do século XX, não precisamos de ser o berço de uma mão-cheia de iluminados que acham que devem mudar o mundo a partir dos seus preconceitos limitados por uma mundividência cujo horizonte termina na ponte Golden Gate.

Com todos os imensos defeitos que tem, o modelo europeu é muito mais igualitário e diverso – e isso tem efeitos a longo prazo que são eminentemente positivos. Aliás, o sistema americano tem demonstrado as suas limitações precisamente porque acaba por atacar o próprio modelo capitalista onde nasceu, favorecendo a criação de monopólios que matam qualquer ideia de inovação e fecham a mobilidade social.

Ao contrário, o modelo europeu mais social e inclusivo acaba por promover melhor a ideia liberal com menos especulação e mais inovação. Basta ter uma leitura mais ampla da realidade para perceber isso, como fez a própria revista Time com a figura do ano: em 2019 escolheu Greta Thunberg, uma jovem ativista sueca que representa a sua geração e que foi capaz de inovar na atividade política global.

Ler mais: Para fugir aos lugares comuns sobre o empreendedorismo, vale a pena ler este The Entrepeneurial Myth. Louise Nicholson, a autora, foi ela mesmo uma empreendedora, o que só valoriza esta uma defesa dos negócios a sério contra a cultura dominante que glorifica o inovador solitário.

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