A economia dá cabo dos bancos

A prazo, qualquer sistema financeiro só pode ser tão sólido quanto a economia real que financia. E a economia portuguesa, como se sabe, esteve e está longe de ser sólida.

De todas as vezes que rebenta mais um caso na banca portuguesa, e isso tem acontecido com uma regularidade assustadora, ouve-se e lê-se muita gente a zurzir no sistema financeiro como um todo. Ou no capitalismo que ele sustenta. Compreende-se: nem os banqueiros, nem os capitalistas têm feito nas últimas décadas outra coisa que não seja justificar a péssima imagem pública de que desfrutam, se é que o verbo é aqui bem aplicado.

Na meia dúzia de ‘casos de bancos’ que vieram a público nos últimos anos há um pouco de tudo. Crime, fraude, negligência criminosa, incompetência, azar, nepotismo, geopolítica, egos em conflito e deus sabe mais o quê. Obviamente, que há diferenças a registar e distinções a fazer entre cada situação. Mas há algo que todos estes ‘casos’ tiveram em comum: mais tarde ou mais cedo, alguém registou enormes prejuízos.

Os balanços dos bancos registaram imparidades, os acionistas fizeram o write-off das participações, os clientes e credores idem, idem, aspas, aspas, os avalistas (tantas vezes o Estado, mais conhecido por “nós, os contribuintes”) foram chamados a assumir responsabilidades. Este banho de sangue de perdas e desvalorizações constitui a maior destruição de valor económico a que Portugal jamais assistiu em tempo de paz.

Atentem, por favor, nestes números. Nos 10 anos que decorrem entre 2008, ano do colapso do Lehman Brothers e geralmente considerado o ano de início da crise financeira, e o final do corrente ano de 2017 terão sido reconhecidas nos balanços de bancos a operar em Portugal imparidades um valor próximo de 60 mil milhões de euros (mais de um terço do PIB, em termos reais).

No mesmo período de dez anos, terão sido efetuados aumentos de capital nos bancos do sistema de cerca de 18 mil milhões de euros (aproximadamente 10% do PIB). E terão sido assumidos prejuízos e menos-valias pelos credores, clientes, acionistas e avalistas que, pelas minhas contas excedem os 22,5 mil milhões de euros (cerca de 12,5% do PIB).

É evidente que estes valores não se podem simplesmente adicionar, já que há alguns efeitos cruzados, como por exemplo, aumentos de capital que resultaram da necessidade de repor capitais próprios depauperados pelo impacto das imparidades (ou pelo reforço das exigências nos rácios). Mas se alguém se der ao trabalho de fazer essa ‘consolidação’ estou convicto que o somatório não se afastará muito de um valor equivalente a 50% do PIB, em termos reais.

Não sei se a enormidade deste número necessita de ser sublinhada. Na última década, a banca portuguesa registou uma destruição de valor equivalente a cerca de metade (!) do PIB anual do País. Só que, dizer isto não significa que foi a banca que destruiu esse valor, mas antes que foi no balanço dos bancos e no dos seus stakeholders que a destruição de valor acabou por ficar registada e assumir toda a sua dramática extensão.

Na realidade, pode-se dizer acerca desta destruição de valor três coisas interessantes.

  • Primeiro, a esmagadora fatia (mais de três quartos, certamente) veio da economia real, sob a forma de projetos que correram mal e se provaram incapazes de sustentar o serviço da dívida incorrida para os financiar conduzindo, inevitavelmente, às imparidades. Nalguns casos, terá havido fraude, como no caso do BPN.
    Noutros terá havido promiscuidade de interesses e nepotismo, como no caso do BES. Noutros ainda terá havido incompetência na análise dos riscos de crédito. Mas, em muitos, muitos casos, não houve fraude, nem incompetência, nem amiguismo, nem corrupção; houve apenas o efeito brutal da profunda crise que afeta Portugal há anos a fio e que culminou no brutal aperto de cinto do início desta década.
  • Segundo, em rigor tem de ser reconhecido que uma destruição de valor a esta escala provavelmente significa que o valor ora ‘destruído’ nunca terá verdadeiramente sido criado. Existiram os investimentos, existiram os créditos e existiu o endividamento externo que constituía o grosso do funding dos bancos financiadores. Esta última parcela é a única que permanece.
  • Terceiro, a taxa de crédito malparado do sistema em Portugal está em quase 9%, ou seja, 1 em cada 11 euros de crédito no balanço dos bancos não será pago! Esta média está muito afetada pelos 14,5% do BES/NB, mas mesmo a taxa de non-performing exposure (NPE) dos melhores (cerca de 3,5% no BPI e Santander) não é muito melhor do que média mundial publicada pelo FMI.

Resumindo: A prazo, qualquer sistema financeiro só pode ser tão sólido quanto a economia real que financia. E a economia portuguesa tem um enorme défice de crescimento, o que a torna tudo menos atrativa para os bancos. Por isso chegamos a um paradoxo terrível: os bancos são essenciais ao financiamento de uma economia que os pode destruir.

Ainda vai havendo acionistas dispostos a subscrever aumentos de capital em bancos portugueses, seja o Estado na Caixa ou os chineses no BCP. Mas que ninguém se iluda. Se a economia portuguesa não voltar a crescer com significado e a partir de atividades de bens transacionáveis de margem suficiente que permitam o adequado serviço da dívida (sinónimo de incorporação de conhecimento e inovação) esses acionistas não voltarão a cair noutra.

E a economia voltará a dar cabo dos bancos.

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