A educação financeira faz a diferença?

  • Maria Amélia Cupertino de Miranda
  • 29 Outubro 2020

A presidente da Fundação Dr. António Cupertino de Miranda partilha a experiência e a prática da instituição no combate à iliteracia financeira. Jovens e mais velhos são os grupos onde é urgente agir.

Se dúvidas existissem, quanto à necessidade de educar financeiramente as pessoas, a COVID-19 veio revelar um facto perturbador: a pouca resiliência financeira que existe a nível mundial quer de empresas, quer das pessoas – jovens ou mais velhos.

A atual situação provocada pela COVID-19 não é apenas uma questão de saúde pública. A pandemia e as respostas necessárias para contê-la têm impacto na vida social, económica e política do país. Este impacto será necessariamente mais duro nas populações mais vulneráveis: crianças e jovens, desempregados e seniores.

O World Economic Forum, em 2016, considerou a educação financeira como uma das cinco principais competências do aluno do século XXI. A Fundação Dr. António Cupertino de Miranda acredita na importância, agora ainda maior, de fazer chegar a educação financeira ao maior número possível de famílias para as ajudar a sair desta crise. E a melhor forma de a levar, pela experiência obtida ao longo dos últimos 11 anos, é através dos mais novos.

“No Poupar Está o Ganho” (NPEG), é um projeto que se dirige a alunos de todos os ciclos do Ensino Básico e Secundário, com o objetivo de transferir conhecimento financeiro, para mudar atitudes e comportamentos. Vai de encontro a todos os temas que constam do Referencial de Educação Financeira, para o qual a Fundação muito se orgulha de ter contribuído.

Não acredito que um aluno que aprenda a planear, a estabelecer objetivos, a registar receitas e despesas, a gerir o seu orçamento se torne num adulto que não poupa e não investe o seu dinheiro, para assegurar uma reforma tranquila

O projeto já abrangeu 30.000 alunos, 1.466 professores e 39 municípios. Prevê a realização de formação aos professores e disponibilização de inúmeros recursos pedagógicos que permitem a alunos e professores aquisição de conhecimentos financeiros. A Faculdade de Economia da Universidade do Porto é responsável pela revisão científica dos conteúdos.

Face às circunstâncias atuais provocadas pela pandemia, a Fundação adaptou o programa passando a poder ser implementado presencialmente na sala de aula ou à distância, através da modalidade 100% digital.

A Fundação investe muito tempo e dinheiro na educação financeira. Por isso, importa perceber: que impacto social tem este programa? O que traz em termos de inovação social?

Um estudo de Medição do Impacto Social realizado pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto evidenciou que o programa “tem impacto social positivo tanto no que concerne a competências próprias da literacia financeira, como também em atitudes, expectativas, emoções e promoção de “relações familiares empáticas” relacionadas com a gestão quotidiana do dinheiro”.

Fica assim demonstrada a eficácia do projeto: contribui para fortalecer a resiliência financeira dos jovens e ensina-os a lidar com crises, como a que vivemos.

É claro que a educação financeira afeta o comportamento e tem efeitos persistentes no tempo.

Não acredito que um aluno que aprenda a planear, a estabelecer objetivos, a registar receitas e despesas, a gerir o seu orçamento se torne num adulto que não poupa e não investe o seu dinheiro, para assegurar uma reforma tranquila.

E o que se passa com os mais velhos? O cenário não é animador: o que é evidente é que a maioria não foi preparada para lidar com o dinheiro.

Portugal é o terceiro país da UE em rácio de idosos para jovens: 153 idosos para cada 100 jovens. Destes, somente uma pequena percentagem é independente financeiramente. O risco de pobreza da população portuguesa era, em 2019, de 18,3%.

Cerca de 21,3% da população portuguesa tem mais de 65 anos, prevendo-se que, em 2030 os idosos representem 26% da população. Estamos a falar de quase um terço da população. É muito. E ainda por cima, o 2º Inquérito à Literacia Financeira dos Portugueses revela que têm um grave défice de literacia financeira.

A falta de literacia financeira é reconhecidamente um problema social que inibe significativamente a qualidade de vida e o bem-estar de segmentos numerosos da população, como é o caso da população sénior, conduzindo-os a processos de empobrecimento e exclusão sociais. Combater o problema social do défice da literacia financeira entre a população sénior é uma prioridade premente, geradora de valor e impacto social positivo.

E merece uma reflexão nacional. É urgente. São necessárias políticas públicas e programas transformadores. Partindo deste enquadramento conceptual, a Fundação Dr. António Cupertino de Miranda concebeu o projeto “Eu e a Minha Reforma”, o qual é inovador na medida que cruza dois eixos principais: a formação financeira e capacitação digital dos seniores. Dirige-se a pessoas com mais de 55 anos e está a ser implementado nos municípios do Porto, Maia, Matosinhos, Valongo, Santo Tirso e Gaia. Através de Laboratórios de Literacia Financeira, que ocorrem de forma presencial e on line, os participantes irão aprender a conhecer novos produtos financeiros digitais, a planear e gerir um orçamento, a resolver questões financeiras do dia a dia, a reconhecer a mais-valia dos seguros e também a evitar cair em fraudes (digitais e outras).

Os resultados que se pretendem alcançar trazem implícita a redefinição do envelhecimento. Implicam conjugar longevidade com capacitação e felicidade. Os seniores de hoje e do futuro têm de ser financeiramente mais informados e tecnologicamente mais competentes, para serem mais donos de si próprios.

Programas com esta dimensão e complexidade não se desenvolvem sem fortes parcerias. A Fundação tem vindo a desenvolver estes projetos com vários parceiros e neles destacam-se a Associação Portuguesa de Seguradores, o Banco de Portugal e a Faculdade de Economia da Universidade do Porto.

O projeto “Eu e a Minha Reforma” é apoiado pela Portugal Inovação Social, através do Fundo Social Europeu.

  • Maria Amélia Cupertino de Miranda
  • Presidente do Conselho de Administração da Fundação Dr. António Cupertino de Miranda

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