A exportação do capitalismo anti-liberal

A China está a promover ativamente uma nova visão do mundo. Alguns líderes políticos, entre os quais portugueses, estão a participar alegremente nesta demonstração de força.

Está um terço do mundo na China a prestar respeito a Xi Jinping e à sua estratégia de influência geopolítica. Setenta países mandaram representantes, metade destes os responsáveis máximos da nação. Portugal não faltou à chamada e tem lá Marcelo Rebelo de Sousa e Augusto Santos Silva, mas a grande conquista da diplomacia chinesa é a presença de Giuseppe Conte, primeiro líder de uma economia do G7 a tornar-se parceiro de Pequim.

Em causa está a política Belt and Road, uma ação expansionista do governo chinês que quer virar os ventos da globalização a favor de Pequim. A estratégia é legítima e (mais ou menos) assumida pela liderança chinesa nos muitos documentos que tem produzido ao longo dos anos, razão pela qual merece ser discutida.

Em traços largos, a Belt and Road (por vezes traduzida para português por “Faixa e Rota”) é uma ação do governo chinês que tem três fases: a primeira empresta dinheiro a baixo custo para que os países recetores possam fazer enormes obras de infraestrutura, sempre contratadas a empresas chinesas; a segunda visa exportar um modelo de desenvolvimento que ignora a democracia e os direitos humanos; a terceira fase prevê a inversão da ordem mundial construída a partir das democracias liberais e a passagem do novo eixo central de poder para o oriente. Como tudo o que emana de Pequim, é uma estratégia bastante flexível e adaptável que tem em vista o muito longo prazo.

Esta é uma estratégia paralela e adversária à ideia promovida pelas democracias liberais, que surge na ressaca da crise económica e em pleno ressurgimento dos populismos que as ameaçam. E essa estratégia é igualmente ideológica: a ideia de desenvolvimento chinês não preza os direitos humanos, não respeita as liberdades individuais e não tem qualquer preocupação pelo meio ambiente. Aliás, o habitual pragmatismo chinês está bem expresso num documento oficial que discute o momento em que o aquecimento global chegue a tal ponto que permita finalmente abrir rotas comerciais para cargueiros cruzarem o Ártico.

O que se tem visto desde o início desta estratégia é o intensificar de sinais preocupantes: portos civis geridos por empresas estatais chinesas que acolhem bases da sua marinha, países que têm de recorrer a medidas extremas para evitar a falência de mega-projetos, apoios declarados a regimes ditatoriais com oferta de mecanismos para medidas repressivas e um enorme reforço do uso de combustíveis fósseis – com as consequências esperadas nas alterações climáticas.

Ao mesmo tempo, a China está a usar o braço tecnológico para exportar a sua modalidade de vigilância digital que visa simplesmente matar a democracia e a liberdade de expressão. E continua a usar o enorme poder que tem nas instituições internacionais para proteger déspotas e impedir a liberdade das minorias – nada que outros países democráticos, com os EUA à cabeça, não tenham feito também, mas com a essencial diferença de os seus líderes responderem às populações que os elegem.

A União Europeia percebeu finalmente a idiotice de ter um mercado aberto a países que não acreditam neles e está a começar a fechar o acesso chinês ao mercado comum. Já não é cedo, visto que a China tem um peso crescente em setores estratégicos europeus (como a energia) – e é por aqui que deve ser entendida a resistência de Bruxelas aos investimentos chineses no 5G. E é por isto que é tão importante manter uma voz única nas negociações europeias com a China, algo que a Hungria e a Itália já quebraram e que Portugal continua a ser tentado a fazer. Repita-se: é uma opção legítima, mas com consequências que não podem ser ignoradas.

Ler mais: Sobre este tema, é obrigatório ler o excelente livro de Bruno Maçães chamado Belt and Road – A Chinese World Order. Escrito a partir de Pequim, é um relato que mistura cultura histórica com análise geopolítica sólida e que explica o que está em causa neste projeto expansionista chinês, oferecendo ao mesmo tempo um olhar sobre o mundo que poderemos ter em meados do século.

Comentários ({{ total }})

A exportação do capitalismo anti-liberal

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião