A pior ideia do mundo

Não sei quem pode presumir que uma rede social para crianças seja uma boa ideia, muito menos que Mark Zuckerberg seja a pessoa certa para a gerir.

Cada vez que achamos que já se passou um limite óbvio no abuso das redes sociais, descobre-se que há sempre quem queira ir mais longe. Agora foi confirmado que o Facebook pretende criar um Instagram para crianças e pré-adolescentes. Como um dos responsáveis admitiu ao Buzzfeed, esta é a solução encontrada pela empresa para resolver o problema de ter menores de 13 a entrar no Instagram. Uma questão que se resolveria com melhores mecanismos de controlo passa a ser uma desculpa para criar um problema bem maior: uma rede social para menores sujeita a todo o tipo de abusos de privacidade e gerida por uma empresa que já nos habituou a um tipo particular de comportamento predatório face aos seus utilizadores.

Para mais, há vários especialistas a alertar para os riscos da dependência destas tecnologias obsessivas com a imagem, especialmente depois de um relatório da Royal Society for Public Health ter classificado o Instagram como a rede mais perigosa para os adolescentes. E é esse o aspeto principal da carta publicada esta semana por 99 grupos de proteção de menores, que suplicam ao Facebook para não avançar com a ideia: “Um corpo crescente de investigação demonstra que o uso excessivo de dispositivos digitais e meios de comunicação social é prejudicial para os adolescentes. O Instagram, em particular, explora o medo dos jovens de ficar de fora e a necessidade de aprovação pelos pares para encorajar as crianças e os adolescentes a verificarem constantemente os seus dispositivos e a partilharem fotografias com os seus seguidores. O foco incessante da plataforma na aparência, auto-apresentação e marca pessoal apresenta desafios à privacidade e bem-estar dos adolescentes.”

Claro que a empresa deixa escapar estas ideias para testar a opinião pública e ver se a coisa é viável. Pois bem, não é. E já chega de dar tanta margem de atuação a uma empresa com uma atuação tão criminosa.

Agora, é óbvio que estes planos nascem de duas características muito próprias de quem está há demasiado tempo a olhar para o gráfico da crescente capitalização em bolsa. Em primeiro lugar, esta ideia peregrina deve-se à total sensação de impunidade que sente um dos homens mais poderosos do mundo, que julga tudo poder. Mas o projeto deve-se também à voragem que este tipo de capitalismo de vigilância implica: num momento em que o número de utilizadores do Facebook está a estagnar nos países industrializados, o nicho que falta apanhar é o dos menores de idade; isso permitirá oferecer a anunciantes um mapeamento cada vez mais completo dos utilizadores, incluindo o passado presente e futuro dos alvos.

É uma ideia demasiado distópica para ser real, mas nada disso incomoda os criativos da era digital, que continuam a sugar todos os dados a que podem aceder. E convém notar que, como de costume, esta será uma ferramenta barrada aos filhos dos empreendedores de Silicon Valley, visto que esses conhecem muito bem os riscos da tecnologia e por isso a afastam dos filhos tanto quanto podem.

Ler mais: Este é o relatório da Royal Society for Public Health sobre o Instagram, publicado em 2017. Convém ler para perceber o problema da atual rede social e quantas vezes estas questões seriam exacerbadas por um produto igual para mentes menores.

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