A renovação do olhar europeu para a ciência

Nova comissão, nova comissária para a Ciência. A substituta de Carlos Moedas não vai ter vida fácil.

As designações das pastas da Comissão Europeia já fizeram correr muita tinta, incluindo no que toca à ausência da palavra ciência. A substituta de Carlos Moedas, a búlgara Mariya Gabriel, ficou com o pelouro da Inovação e Juventude, embora vá gerir um imenso orçamento que quer reforçar as capacidades científicas da União Europeia. A alteração do nome não será determinante, mas haverá alguma confusão resultante da distribuição de pastas.

Na carta de intenções que a nova presidente da Comissão enviou à comissária, foi-lhe pediu-lhe que utilizasse o gigantesco orçamento para financiar investigação disruptiva e tecnologia de ponta, especialmente através do European Innovation Council, a instituição criada por Moedas para dar um empurrão à inovação europeia. Mas há muita ciência espalhada pelas várias pastas da nova comissão. O Joint Research Centre, que é um serviço essencial de conhecimento científico e que serve para aconselhar a definição de políticas nos estados-membros, continua a ter existência autónoma, ficando sob a responsabilidade do vice-presidente Sefcovic, que dará mais peso à construção de políticas comuns mas aumenta a entropia – até porque a pasta da comissária búlgara será supervisionada pela vice-presidente executiva Margrethe Vestager. E na verdade, o maior desafio científico da Comissão Europeia está na mão do número dois da Comissão, Franz Timmermans, que ficou responsável pelo combate direto ao aquecimento global.

Voltando a Mariya Gabriel: os seus desafios são muitos, tendo em conta que tem um enorme orçamento para gerir a partir de 2021 e as dificuldades do costume na afirmação da dimensão inovadora europeia. As assimetrias em termos de investimento científico dentro da própria União Europeia demonstram quão difícil é promover mudanças a nível continental.

Também terá de corrigir alguns erros de gestão em projetos europeus antigos, como é o caso do Galileu. A mistura da Educação (e da Juventude) com a Inovação pode até ser uma oportunidade única para refazer o cenário do ensino universitário europeu, especialmente tendo em conta a obrigação de prioritizar a mobilidade dos investigadores e a relação entre o ensino e as necessidades da indústria.

Prova das carências que o continente tem nesta área é que ainda é preciso destacar como prioridade a educação digital, como fez a presidente Leyden na carta que enviou a Gabriel. Prestes a despedir-se da pasta, o ainda comissário português abordou diretamente um dos desafios por concretizar e deixou um pedido para a nova comissão: que a sua sucessora tenha poder suficiente para enfrentar a indústria das publicações científicas, que continua a esconder parte do que publica e a limitar a partilha de conhecimento. A medida faz parte do Plano S que o próprio lançou e é fundamental para a evolução de um espaço comum de investigação a nível continental – algo que terá mesmo de ser conseguido para se confirmar o mirífico objetivo de 3% do PIB investido por cada país em Investigação e Desenvolvimento.

Mas o maior desafio de Mariya Gabriel – e da ciência europeia – está para lá do alcance da pasta. A credibilidade da ciência é um problema transversal às sociedades europeias e que depende da defesa do método científico e das suas conclusões para que possamos todos continuar a acreditar num caminho comum. O crescimento de forças políticas que promovem aberrações científicas, como é o caso do PAN e da defesa da homeopatia, não auguram nada de bom para as nossas democracias.

Ler mais: A carta de intenções enviada pela presidente da Comissão à responsável pela Inovação e Juventude é uma leitura interessante, a que valerá a pena regressar no final do mandato. Pelo meio valerá a pena estar atento à audição no Parlamento Europeu da nova comissária e às suas pouco frequentes aparições mediáticas.

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