A tirania da Google e da Applepremium

Não há valores humanistas que resistam ao rolo compressor de Silicon Valley, mesmo que o que esteja em causa seja obedecer a ditadores.

A Apple e a Google decidiram mais uma vez obedecer a um líder autoritário e atacar a democracia. Desta vez foi na Rússia, onde uma aplicação que apresentava os nomes dos candidatos da oposição foi brutalmente removida das lojas da Apple e da Google a mando de Vladimir Putin. Estas empresas estão sempre a repetir que não querem ser os decisores do que é liberdade de expressão. É uma mentira que, apesar de tantas vezes repetida, nunca se irá tornar verdade.

A Google e a Apple dizem sempre que acreditam na liberdade de expressão e na necessidade de dar espaço a ideias não consensuais. Pelo menos é esse o argumento que usam para promover vozes que negam o holocausto, que afirmam que as vacinas têm adn alienígena e que Trump ganhou as eleições. Mas quando alguém decide fornecer informação direta sobre os candidatos que vão a votos numa eleição supostamente democrática, isso já não entra no domínio do aceitável. Aliás, um dos últimos posts no blog oficial da Google reclama uma nova abordagem sobre o combate à desinformação: “não é o que nós tiramos mas o que deixamos”. Só que não: é mesmo sobre o que tiram e porque tiram o que tiram. A única razão pela qual esta app foi retirada das lojas é a necessidade de agradar a Putin e manter o acesso aos 150 milhões de consumidores russos.
Note-se que estamos a falar da mesma empresa - a Google - que há nove meses ameaçou publicamente que se retirava da Austrália se fosse forçada a pagar pelas notícias que usa nos seus algoritmos de pesquisa. Aí, numa questão financeira que lhe era prejudicial, falou grosso contra uma democracia para atingir os seus fins; agora, para manter um modelo financeiro favorável, decidiu rebaixar-se a um líder autoritário e prejudicar objetivamente o processo democrático.

A Apple não é menos hipócrita. Apesar de anunciar que tem um ecossistema privado e e que defende a qualidade das suas lojas de aplicações acima de tudo, está repetidamente a condicionar o acesso livre a um mercado privilegiado e também a reduzir a liberdade de expressão. Ao mesmo tempo, usa informação privilegiada para criar os seus próprios serviços e promovê-los de forma a esmagar a concorrência.
Ambas obedecem e promovem ditadores contra os cidadãos, contribuindo para os seus crimes. Ambas prejudicam a liberdade de expressão e criação com os seus sistemas de acesso condicionado. E ambas têm um padrão de fuga aos impostos que é muito pouco liberal. Estas empresas não querem nem saber das liberdades individuais. Google e Apple tinham já ajoelhado perante o Kremlin quando foi exigido que a Crimeia passasse a aparecer como província russa nos seus mapas, e agora fizeram o mesmo para continuar a agradar aos impulsos ditatoriais de Putin.

Não é só uma questão de bom senso, nem de democracia. É uma questão de higiene. O duopólio da Google e da Apple nos smartphones tem de ser quebrado, preferencialmente com uma opção mais sustentável e de código aberto. Até pela lógica de mercado, um cenário dominado pelos dois players consiste num modelo de liberdade condicionada. Um espaço de inovação não subsiste com tão grandes taxas nem com um sistema onde só os grandes se fazem ouvir. Sofrem com isto os utilizadores de todo o mundo - embora agora os russos sofram bastante mais que os outros.

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