A última semana

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 5 Maio 2017

Macron reforçou o conteúdo da sua mensagem e assumiu de forma vincada um discurso a favor da União Europeia, o que, nos dias que correm, é demonstrativo de coragem.

A última semana da campanha eleitoral correu bem a Emmanuel Macron. Confirmada a traição republicana de Jean-Luc Mélenchon e da sua militância, o centrista parece ter aguentado o choque com a realidade representado pela ausência de um cordão sanitário em torno da extrema-direita. Os quinze anos passados sobre o embate entre Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen parecem ter alterado profundamente o panorama político francês e sido determinantes para uma certa normalização da Frente Nacional (FN) e do apelido Le Pen.

Durante esta semana, e sobretudo no debate, Macron reforçou o conteúdo da sua mensagem e assumiu de forma vincada um discurso a favor da União Europeia, o que, nos dias que correm, é demonstrativo de coragem. O confronto directo entre os dois candidatos pôs em evidência posturas diametralmente opostas: Macron revelou pose de Estado, fundamental para alguém com 39 anos, em contraponto com uma Le Pen fanfarrona e displicente. Em tempos distantes, a má imagem passada num debate poderia ser sinónimo de derrota eleitoral, como o demonstra o famoso suor de Richard Nixon, no frente-a-frente com John F. Kennedy, em 1960. Os tempos agora são outros e uma Le Pen mais vulgar poderá até servir para mobilizar e fixar o próprio eleitorado.

Porém, Macron terá cometido um erro ao contribuir para a banalização da extrema-direita. Um pouco à semelhança de Hillary Clinton na recente campanha presidencial norte-americana, as duas últimas semanas tornaram evidente uma contenção verbal que não vimos na campanha de há quinze anos. A FN lavou a cara, travestindo o seu discurso racista, xenófobo e abertamente fascista numa espécie de nacionalismo de rosto humano, e Macron afinou por este diapasão.

Na campanha que agora termina, ficou patente a ausência de palavras duras e de verdades frontalmente ditas à herdeira da França de Vichy e do colaboracionismo com os nazis. Assumir um debate de igual para igual, sem previamente enquadrar o que Le Pen e a FN representam, legitima-as politicamente. Chirac, noutra posição, com outro estatuto e com um claro sentido da História, em 2002, recusou debater com Le Pen (pai): o então presidente considerava que não havia uma base mínima de entendimento sobre a essência do regime democrático.

Hoje, a dois dias da idas às urnas, a única certeza que podemos ter é que, mesmo perdendo, Le Pen já ganhou. O resultado será claramente melhor do que o obtido pelo seu pai (17,8%) contra Chirac. Em França, na Quinta República, François Mitterrand e o próprio Chirac foram derrotados duas vezes antes de chegar à Presidência. Caso seja eleito, a responsabilidade que impende sobre Emmanuel Macron é enorme. Uma boa parte dos franceses já não vê a FN como uma ameaça à democracia ou se vê não valoriza essa mesma democracia. Um fracasso político de uma eventual presidência do antigo ministro de François Hollande poderá abrir definitivamente as portas do Eliseu a Le Pen em 2022.

Por decisão pessoal, o autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Presidente da Câmara de Comércio Portugal – Atlântico Sul e professor universitário

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