Editorial

Agora já podemos olhar com atenção para a Catalunha?

A decisão do banco Sabadell e do CaixaBank de transferirem as suas sedes de Barcelona para outra região de Espanha é a prova - se necessária fosse - desta crise política na Catalunha.

A administração do Sabadell anunciou a mudança de sede do banco de Barcelona para Alicante, o CaixaBank – dono do BPI em Portugal – prepara-se para fazer o mesmo e deixar de ter a sua sede na capital da Catalunha. Se calhar, terá chegado o momento, em Portugal, de levarmos mesmo a sério o que se está a passar em Espanha, uma crise de proporções históricas, a anunciada independência unilateral decretada por um governo sem qualquer legitimidade para o fazer, desde logo pela própria Constituição espanhola. E o que isso representa para Portugal, do ponto de vista político e económico.

Se se confirmar uma declaração unilateral de independência, como está prometida por parte do parlamento catalão, o governo espanhol só tem, agora, uma solução, não é a melhor, é mesmo a única. Será invocada a lei para destituir o governo autonómico. Podemos discutir o que não foi feito nos últimos anos do ponto de vista político a partir de Madrid, a incapacidade política para perceber o que estava em curso. Mas este não é o tempo dessa história, é de outra, do presente, e da absoluta urgência em manter a unidade de Espanha.

No momento em que estamos, já não é possível excluir qualquer cenário, nem sequer o de conflito armado nas ruas, por mais chocante que isto possa parecer. Depois do referendo do dia 1 de outubro, que também partiu a própria sociedade catalã, e da ação policial musculada e até violenta da polícia, quem pode garantir o que vai suceder? Aliás, de referendo, esta votação só tem mesmo o nome, tal é volume de ilegalidades e com resultados sem qualquer tipo de validação.

Uma desintegração desordenada em Espanha é o maior risco que Portugal enfrenta neste momento. Não é a crise no PSD, nem uma geringonça coxa, é mesmo o que se passa no nosso principal parceiro, económico e político. A crise catalã é política, mas também já é económica, como se percebe pelas decisões dos dois bancos. No caso do sistema financeiro catalão, há um ‘pormaior’, é a proteção do BCE, sem a qual não haveria capital que chegasse para manter a solvabilidade dos dois bancos. E outras empresas se seguirão.

Portugal não ficaria, não ficará, imune a uma crise económica em Espanha. Porque é o nosso principal mercado de exportação, mas também porque, do ponto de vista internacional, gostemos ou não, somos analisados à luz do contexto ibérico, no melhor e no pior. Poderá haver quem olhe para esta crise espanhola como uma oportunidade. É uma vista curta, e sobretudo arriscada e até irresponsável.

A discussão soberanista versus a constitucionalista vai continuar e, mais tarde ou mais cedo, terá de haver uma negociação politica que permita o referendo, dentro da lei fundamental do país, quiçá um desenvolvimento federal do país. A negociação política é inevitável, mas provavelmente já não será com estes protagonistas, nem os que estão na Moncloa, em Madrid, nem com os que lideram a Generalitat, vai demorar tempo. E ainda bem, porque já não há condições para os catalães votarem uma decisão tão fraturante sem estarem dominados pela emoção.

Agora, o governo português não pode deixar de apoiar Mariano Rajoy e o governo espanhol. E ficar sentado à espera do melhor, mas preparando-se para o pior.
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