Alta pressão: Os sistemas de saúde e a gestão de risco

António Bico, CEO da Zurich Portugal, considera que, perante a sobrecarga e o risco associado ao coronavirus, é urgente refletir (mesmo!) e tomar medidas sobre o futuro da saúde.

Desde as últimas semanas que o mundo tem os olhos postos no recente surto do novo coronavírus – e a doença Covid-19 que dele deriva. Embora ainda seja difícil antever como se vai desenvolver a resposta no terreno, este é mais um desafio de peso que se impõe aos sistemas de saúde de todo o mundo, já de si vulneráveis.

Para além do impacto na saúde das pessoas e comunidades, os efeitos já se fazem sentir em muitos setores de atividade. A “corrida” à afinação dos planos de contingência é uma tarefa que ocupa muito do tempo dos gestores, que procuram medidas para eliminar ou mitigar os potenciais efeitos nos colaboradores, parceiros, clientes e no negócio.

O relatório “Riscos Globais dos Negócios 2020” do Fórum Económico Mundial, em parceria com a Zurich e a Marsh, põe este contexto em evidência. Uma das conclusões é, precisamente, a emergência de novas pressões nos sistemas de saúde, relacionadas com a transição estrutural a que assistimos em termos sociais, demográficos, ambientais, tecnológicos e, naturalmente, económicos.

A maior incidência de doenças crónicas, associadas ao envelhecimento nos países desenvolvidos e a estilos de vida pouco saudáveis, é disso exemplo. E a atenção mediática em torno do novo coronavírus – ou de outras doenças contagiosas – não nos pode fazer esquecer que as doenças crónicas, como as cardiovasculares, cancro, doenças mentais e a diabetes mellitus, são hoje a principal ameaça à saúde global.

As doenças crónicas sobrecarregam infraestruturas e recursos dos sistemas de saúde, como evidencia o relatório do Fórum Económico Mundial: mais pessoas com doenças graves, a necessitar de apoio prolongado no tempo significa mais despesas e o risco dos sistemas de saúde nacionais que podem não conseguir responder de forma adequada e eficaz.

As epidemias e doenças crónicas não são, infelizmente, os únicos desafios que se colocam. Fatores de risco emergentes como o movimento antivacinas, a resistência aos antibióticos, o aumento da esperança média de vida, a poluição e os efeitos das alterações climáticas desequilibram a procura e a oferta nos sistemas de saúde mundiais, colocando-os em alta pressão. Qual a dimensão deste risco?

O estado dos sistemas de saúde é mote de reflexão um pouco por todo o mundo, mas tem sido particularmente falado em Portugal. Sobretudo porque o setor enfrenta desafios bastante particulares. Os 40 anos do Serviço Nacional de Saúde permitiram-nos uma melhoria sem precedentes na saúde pública, mas o aumento acentuado das doenças crónicas coloca dificuldades na capacidade de resposta, tema que é notícia diária nos media. Se pensarmos a longo prazo, sabemos que em 2050 seremos o país mais envelhecido da União Europeia – para além de planear, é preciso começar a implementar medidas. Estamos a fazê-lo?

Preparar o futuro da saúde

Vitais para o bem-estar, segurança e prosperidade dos países, os sistemas de saúde são, historicamente, um sinal de progresso. Mas, e no futuro? Com as condicionantes atuais e as que sabemos que vêm aí – mais epidemias, mais poluição, mais episódios climáticos extremos, o aumento da longevidade – torna-se essencial criar novos caminhos que mantenham a eficácia dos sistemas de saúde nas próximas décadas. Até porque sistemas enfraquecidos são menos eficazes a travar doenças, a cuidar de doentes crónicos ao longo do tempo e, não menos importante, a combater fake news sobre cuidados de saúde.

Neste rumo, o foco tradicional dos sistemas de saúde – “curar a doença” – preferencialmente dará lugar a práticas sustentáveis de prevenção e controlo. Em paralelo, será essencial reforçar políticas públicas que, por um lado, eduquem e melhorem estilos de vida associados a estas doenças e, por outro, diminuam os fatores de risco ambientais, contribuindo para uma diminuição da exposição ao risco.

Mas é igualmente necessário assegurar outras frentes. Reforçar, por exemplo, o papel das empresas no apoio à saúde e bem-estar dos seus colaboradores e não esquecer os cidadãos, particularmente vulneráveis à sobrecarga dos sistemas de saúde. Neste contexto, o setor segurador tem um papel fundamental: complementar e suplementar os sistemas de saúde, agilizando o reforço da oferta e alternativas. É um contributo que se torna ainda mais premente tendo em conta que poderá acelerar tempos de diagnóstico e resposta clínica às doenças crónicas, melhorando a qualidade de vida de doentes e famílias.

Nesta adaptação a um novo contexto, é necessária uma reflexão profunda entre todos os stakeholders, na procura de soluções partilhadas de apoio à saúde pública. As doenças crónicas, o coronavírus e as epidemias são ameaças sem precedentes. Para além de serem questões de saúde, são igualmente questões económicas e políticas. Urge pensar na saúde e bem-estar das pessoas e comunidades fortalecendo a capacidade de resposta holística dos países a estas ameaças. Em alturas de alta pressão dos sistemas de saúde, a gestão de risco é a medicação a receitar.

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