América Latina: uma nova oportunidade

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 11 Fevereiro 2018

Muitos movimentos políticos ergueram-se em torno de personalidades com escassa densidade ideológica e perpetuaram-se para lá da morte dos criadores como construções políticas com vida própria.

Nos último anos, graças à subida do preço das matérias-primas, a América Latina ganhou músculo económico e peso político. O Brasil dos BRICS, a Argentina que recuperava da ferida aberta representada pela crise de 2001/2003 e a retórica de emancipação de países como o Equador e a Bolívia projectaram a imagem de um espaço que pretendia afirmar-se politicamente em relação ao Norte. A entrada em cena da China permitiu diversificar os grandes parceiros económicos, pondo fim ao duopólio de espanhóis e norte-americanos, e consolidar uma ideia de autonomia. No entanto, a quebra dos preços da energia e dos alimentos, que teve início em 2013, fez-se sentir em vários países da região, evidenciando a sua dependência em relação ao sector primário.

A última crise latino-americana também demonstrou que os sistemas políticos da região não estão tão consolidados como os anos da bonança poderiam fazer pensar. Com excepção do Uruguai e do Chile, as democracias da América Latina não conseguiram erguer sistemas de partidos estáveis e ideologicamente organizados. O caudilhismo está presente em boa parte destes países. Muitos movimentos políticos ergueram-se em torno de personalidades com escassa densidade ideológica e perpetuaram-se para lá da morte dos criadores como construções políticas com vida própria. Que o digam os herdeiros de Juan Domingo Perón, presidente da Argentina em duas ocasiões, que vão da extrema-esquerda ao ultra-conservadorismo. A política argentina faz-se há mais de cinquenta anos de uma luta quase permanente entre o peronismo e o anti-peronismo, seja o peronismo sinónimo de ultra-liberalismo (governos de Carlos Menem) ou de intervencionismo estatal (governos de Nestor e de Cristina Kirchner).

A personalização da política tem dificultado a consolidação do princípio da alternância. O debate no Brasil é feito em torno da figura de Lula da Silva e do processo judicial que o condenou a 12 anos de prisão; no Peru em torno de Alberto Fujimori, que não governa desde 2000; na Argentina é Cristina Kirchner a figura central, mesmo a partir da oposição; na Colômbia, o antigo presidente Álvaro Uribe utiliza o processo de paz para perpetuar a sua carreira política; no Equador, Rafael Correa, que deixou a presidência no ano passado, foi a figura central de um referendo que visava impedir a reeleição presidencial; e na Bolívia, Evo Morales terá conseguido que o Tribunal Constitucional valide a sua reeleição indefinida. Tudo isto para não falarmos do chavismo sem Hugo Chávez e da forma como Nicolás Maduro subverteu o sistema constitucional venezuelano substituindo um parlamento com uma maioria não favorável por uma assembleia constituinte de partido único.

Apesar de tudo isto, algo está a mudar. Os últimos anos têm demonstrado que as opiniões públicas estão muito mais conscientes e que são mais exigentes com os seus governantes. A economia também parece estar a dar uma nova oportunidade à América Latina: as perspectivas do Bando Mundial, divulgadas em Dezembro, prevêem taxas de crescimento nos próximos três anos acima dos 3% em quase todos estes países. O facto de a actual administração norte-americana desprezar a região também poderá constituir uma oportunidade, tendo em conta o lastro que os Estados Unidos sempre representaram para os seus vizinhos do sul. A China, por outro lado, terá chegado para ficar, com tudo o que o seu mercado e capital disponível representam. Está, sobretudo, nas mãos de uma cidadania mais atenta evitar que o crescimento dos próximos anos represente um novo adiamento da América Latina e que possa impulsionar a estabilização dos sistemas políticos em torno da ideia de políticas alternativas e não de lutas e ódios pessoais.

Nota: O autor escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Presidente da Câmara de Comércio Portugal – Atlântico Sul e professor universitário

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