As empresas exportadoras sem zona de conforto

O aumento do peso das exportações no PIB é a mudança estrutural mais importante na nossa economia. Imaginem o que poderiam crescer se fosse uma prioridade política.

Os dados relativos ao ano de 2017, publicados esta quarta-feira pelo INE, confirmam, como anunciou o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, o máximo histórico para o peso das exportações no PIB. Até meados da década de 80, o peso das exportações no PIB andava em torno dos 20%. Com a entrada na Comunidade Económica Europeia, aquele valor ultrapassou os 25%. Em 2007 atingiria 30%, o mesmo valor que em 2011. Em 2014, 40%. Em 2017, as exportações representaram 43% do PIB.

Fonte: INE
O aumento das exportações foi fundamental para o reequilíbrio externo da economia portuguesa e para o sucesso do processo de ajustamento que se seguiu ao pedido de resgate à troika. Entre 2013 e 2017 – cinco anos consecutivos – a balança corrente registou um resultado histórico de equilíbrio ou de ligeiro excedente.

O aumento do peso das exportações no PIB representa também a mudança estrutural mais importante que ocorreu na nossa economia. Uma economia mais transacionável é uma condição necessária para pôr fim ao longo regime de baixo crescimento que tem caracterizado o século XXI. Uma economia muito endividada e em contração demográfica só poderá aumentar a sua taxa de crescimento através da conquista de mercados externos.

Fonte: INE

Por essa razão, deveria ser uma prioridade dos nossos governantes a definição e implementação de políticas públicas que promovessem o crescimento das exportações. Esta é uma condição necessária para termos taxas de crescimento do PIB em torno dos 3% nos próximos anos.

Algumas análises simplistas têm atribuído o desempenho excepcional das exportações à crise económica, que obrigou os empresários a saírem da sua zona de conforto. É verdade que a grande expansão do mercado interno nos anos 80 e 90, permitiu por si só um grande crescimento das vendas de muitas empresas. Mas é um erro considerar que as empresas que hoje exportam e puxam pelo crescimento da economia são as mesmas que antes da crise beneficiaram do mercado interno e das políticas públicas. As empresas exportadoras nunca tiveram e continuam a não ter o conforto do Estado.

Se as exportações crescem é, em grande medida, em resultado da persistência, do trabalho, da visão e da capacidade empreendedora dos nossos empresários. Conquistar novos mercados, noutros países, num ambiente de grande concorrência, exige produtos de qualidade, preços competitivos e uma estrutura logística que demora muitos anos a criar.

Os bons resultados alcançados nos últimos anos poderiam sugerir que as políticas públicas têm favorecido os sectores exportadores. Infelizmente, essa nunca foi a prioridade das nossas políticas públicas. E continua a não ser.

De facto, os sucessivos governos, apoiados pelo PSD e pelo PS, foram capturados pelos interesses dos sectores não-transaccionáveis que, desde o início dos anos 90, dominaram a economia portuguesa. Durante os anos 90 alimentaram o seu crescimento. No século XXI tudo fizeram para desacelerar a sua queda, adiando a alteração estrutural da economia portuguesa a favor dos sectores exportadores. É verdade que no período de intervenção da troika os sectores não-transaccionáveis perderam influência. Mas, para isso, muito terá contribuído a situação de grande fragilidade financeira do Estado.

Mas podemos sempre ver o lado bom desta situação. Se sem o Estado eleger como prioridade a melhoria das condições de competitividade das empresas exportadoras tivemos, nos últimos anos, resultados excepcionais, imaginem o quanto poderão crescer as exportações (e, por arrasto, a economia) quando estas forem, de facto, a prioridade das políticas públicas.

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