As ideias do PSD têm a validade de um iogurte

A mudança do sentido de voto do PSD no tema das creches é o espelho de um partido que parece que primeiro vota, e depois reflete. E não é caso único.

Vou recorrer a uma metáfora com laticínios que o próprio Rui Rio usou aquando do caso das presenças fantasma de José Silvano no Parlamento: “As minhas palavras não são como os iogurtes, que têm uma validade de 30 dias, têm uma validade prolongada”.

Se as palavras do líder do partido têm um prazo de validade longo, o mesmo não se pode dizer dos votos do PSD. A mudança de sentido de voto do PSD, no caso da redução da mensalidade das creches em função da perda de rendimentos sentida pelos pais, é apenas um exemplo de um partido que já nos tem habituado a decisões com um prazo de validade, nalguns casos, de apenas meia hora.

Um exemplo de uma decisão política altamente perecível foi o caso dos sócios-gerentes em que o Parlamento se preparava, na quarta-feira, para votar a proposta que foi vetada pelo Presidente da República quando o PS pediu a interrupção de tempo para tentar travar a repetição da maioria negativa. Uma hora depois, os trabalhos foram retomados e o PSD, nesse entretanto, mudou de ideias e deixou cair a sua proposta, substituindo-a por uma outra mais semelhante ao lay-off, mais ao gosto dos socialistas, mas menos generosa para os sócios-gerentes.

Mais grave terá sido a mudança de voto do PSD na questão da redução das mensalidades nas creches para as famílias que foram afetadas pela pandemia da Covid-19. Na terça-feira de manhã, o PSD votou a favor desta proposta do Bloco de Esquerda, mas esqueceu-se de comunicar aos pais que têm filhos nas creches que a proposta social-democrata tinha de ser consumida, preferencialmente, durante um prazo de cinco horas. Ao final da tarde, cinco horas volvidas, o partido pediu que a votação fosse repetida e resolveu então, de forma leviana, chumbar a proposta dos bloquistas que horas antes havia votado favoravelmente. Leviana porque não explicou o porquê de votar a favor e muito menos o porquê de votar contra.

Este caso não é inédito e é só mais um numa prateleira cheia de decisões políticas tomadas em cima do joelho e com um curto e embaraçoso prazo de validade. No Orçamento aprovado em fevereiro, o PSD já tinha feito algo semelhante numa proposta dos comunistas para que o rendimento dos filhos a partir do terceiro escalão deixasse de contar para o apuramento do Complemento Solidário para Idosos. De manhã fez uma coisa, à tarde outra.

Mas este nem sequer foi o caso mais grave. Ainda todos se lembrarão do caso caricato dos professores em que na especialidade o PSD votou favoravelmente e, perante a incredulidade e ameaça de uma crise política, deu o dito por não dito e recuou na contabilização integral do tempo de carreira dos professores.

No caso da descida do IVA na eletricidade, depois de muitas voltas e reviravoltas nas votações, os social-democratas acabaram por retirar a sua própria proposta de votação e chumbaram uma idêntica do PCP perante gargalhas no Parlamento.

Na prateleira dos temas políticos do PSD com um curto prazo de validade também está um frasco com um rótulo a dizer Mário Centeno. Primeiro, Rui Rio disse que não vetaria “à partida” o nome do ex-ministro das Finanças para governador do Banco de Portugal. Mas defendeu que a próxima administração “não podia ser monolítica”, que é como quem diz, também deveria ter elementos próximos dos social-democratas.

Poucos dias volvidos, esta posição já tinha azedado e passado de prazo e foram os “Sarmentos” do PSD a explicar a nova posição do partido. Primeiro foi Joaquim Sarmento a dizer que não lhe “chocaria Centeno ser governador do Banco de Portugal, mas daqui a 5 ou 10 anos”. Depois foi Morais Sarmento a explicar que afinal a ida de Centeno para o Banco de Portugal tem um “problema sério de incompatibilidade”. E quando a lei que permite travar a ida de Mário Centeno para o Banco de Portugal chegar ao Parlamento, como votará o PSD? Votará contra.

Nesta prateleira de temas políticos e ideologias perecíveis, também está lá uma embalagem a dizer “35 horas na Função Pública”. Depois de ter dito que a decisão dos socialistas de reduzir o horário de trabalho no Estado “degradava os serviços públicos”, Rui Rio acabou por fazer um programa eleitoral em que deixou de fora a questão das 35 horas. Afinal a defesa das 40 horas de trabalho na Função Pública tinha um prazo de validade de apenas 35 horas.

Haverá com certeza várias explicações para que os frascos de compotas políticas laranjas, depois de abertas, tenham um prazo de validade curto. Alguns dirão que as posições políticas do partido evoluem e amadurecem. Outros dirão que apodrecem com o passar do tempo. Outros ainda apontarão o dedo à falta de comunicação entre a direção do partido, o Conselho Estratégico Nacional, a bancada parlamentar e o líder do partido.

Independentemente da explicação, esta inconstância de ideias é um tema que deveria preocupar o líder do partido. Só que nesta altura Rui Rio, aparentemente, está mais preocupado com a ideia de acabar com os debates quinzenais na Assembleia da República porque “o primeiro-ministro não pode passar a vida em debates. Tem de trabalhar”. A ideia é péssima e a justificação é despropositada. Vamos esperar que esta seja mais uma daquelas ideias do PSD que têm um prazo de validade igual ao de um frasco de iogurte.

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