As mudanças trazidas pela pandemia

A disrupção provocada pela pandemia levou a alterações estruturais, e em muitos casos acelerou outras, que tenderão a perdurar no tempo.

Um dos principais riscos que se colocam à economia portuguesa reside na ideia de que, uma vez ultrapassada a pandemia, agora que se vislumbram sinais encorajadores quanto a uma eventual vacina, tudo regressará à normalidade pré-pandemia.

Trata-se de uma premissa perigosa, na medida em que a mesma poderá conduzir a uma certa complacência nas empresas, obstaculizando a adaptação que muitas terão de realizar a fim de se manterem viáveis. A disrupção provocada pela pandemia levou a alterações estruturais, e em muitos casos acelerou outras, que tenderão a perdurar no tempo. O mundo mudou, tornou-se mais exigente, e a situação não está para brincadeiras.

Entre as letras do alfabeto que têm sido avançadas com o intuito de caracterizar a retoma que se aguarda, o cenário que eu antecipo é o de uma recuperação em forma de K. Trata-se do cenário em que depois da queda inicial ocorre uma recuperação transversal a toda a economia, mas em que tal sucede de forma assimétrica. A recuperação é forte em alguns sectores, mas muito frágil noutros. Nos sectores mais frágeis, muitos operadores (e às vezes os próprios sectores) acabam mesmo por desaparecer. Isto já vai sendo visível em alguns dados. Assim, enquanto que à escala nacional o volume de negócios das empresas em Portugal está a diminuir 12% face ao período homólogo (e 40% no caso específico do alojamento e restauração), o volume de negócios nas actividades de informação e comunicação avança 8%.

A pandemia trouxe várias alterações ao nosso modo de viver. Agora socializamos, trabalhamos, produzimos e vendemos de forma diferente. Alguns destes novos comportamentos poderão ser revertidos uma vez ultrapassada a fase mais aguda da pandemia, depois de ultrapassado o medo que aflige muita gente. Será talvez o caso da forma como socializamos, do pequeno ao grande grupo, muito embora as máscaras tenham vindo para ficar – é ver o exemplo dos asiáticos que, depois de problemas afins em décadas anteriores, mantiveram o hábito das máscaras faciais até hoje. Mas noutros domínios, como os do teletrabalho e do comércio digital, as mudanças perdurarão muito para além da pandemia, até pelos investimentos que já estão em marcha.

O teletrabalho entrou bem na população empregada. Inquéritos recentes indicam que a maior parte dos trabalhadores que estão em teletrabalho gostariam de assim continuar. Quanto muito, estes trabalhadores admitem agora vir a alternar os dias passados a trabalhar em casa com um dia ou dois por semana no escritório. Mas a ideia de regressar a uma semana inteira no escritório parece estar longe das novas preferências dos trabalhadores. Esta mudança conduzirá desde logo a outras duas mudanças relevantes: por um lado, à redução das necessidades de espaço de escritório por parte das empresas e, por outro, à transformação de muitos contratos de trabalho (por conta de outrem) em prestações de serviços ou trabalho independente.

O comércio digital é o outro novo normal. Há quem estime que um só ano de pandemia acelerou o avanço do comércio digital em vários anos. Muitas micro, pequenas e médias empresas estão agora, finalmente, a experimentar as vantagens do comércio digital e dos novos meios de pagamento que a ele estão associados. Em breve deixarão de usar cheques e dinheiro à vista. Esta tendência vai também acelerar outras disrupções, designadamente a forma como as empresas investem e como financiam esses investimentos. Sem surpresa, a banca acelerou o passo rumo à derradeira eliminação de balcões físicos, e muitas empresas não financeiras começam a levar mais a sério o investimento em propriedade intelectual.

O teletrabalho e o comércio digital, em conjunto, vão também abrir novas oportunidades para o comércio de serviços. Assim, se hoje podemos falar de uma menor globalização no comércio de bens, embora não tão acentuada quanto a certa altura se pensou, no comércio internacional de serviços – excluindo naturalmente o turismo – o caminho parece ser de abertura. Refiro-me, designadamente, aos serviços que suportam a chamada economia intangível em domínios tão diversos como os da cibersegurança, da robótica, das tecnologias de vídeo e voz, das tecnologias de educação e de saúde, ou de outros domínios como a realidade virtual e/ou aumentada.

Mas no meio de tudo isto existe hoje muita pressão no sentido de o Estado vir a subsidiar o sector empresarial, quer o público quer o privado. As propostas de subsidiação estatal são diversas e vão desde quem proponha o perdão da dívida bancária que beneficia de garantia pública, aos que propõem a transformação dessa mesma dívida em participação de capital a ser detida pelo Estado nas empresas excessivamente endividadas, e por fim também há quem que advogue a injecção directa de novos fundos públicos nas empresas em dificuldade. O problema de todas estas modalidades é que, por um lado, reduzem o incentivo à mudança e, por outro, acabarão por resultar em empresas zombie.

Já aqui defendi a manutenção das linhas de crédito com garantia pública, ainda que as garantias devessem passar a cobrir uma parte inferior do valor em dívida. Também já aqui defendi a ideia de coinvestimento entre o Estado e privados em instrumentos de capital próprio; sugeri ainda um fundo de recapitalização pós-PER que transformasse potenciais párias junto do sector financeiro em empresas com potencial de recuperação. Por fim, desde o início da pandemia que também tenho defendido o “lay-off” simplificado para as empresas cuja actividade é encerrada por decreto governamental. Não se trata, portanto, de defender o “wild west”. Nesta conjuntura, devem existir apoios, sim, mas estes devem ser equilibrados na partilha de risco.

As disrupções trazidas pela pandemia acarretam custos sociais no imediato e, como é sabido, o desemprego é o maior inimigo de qualquer político. Contudo, seria dramático que, aos custos imediatos, juntássemos um outro ainda mais pernicioso: uma economia zombie que durante anos não saísse da estagnação. As empresas zombie, aquelas que não ganham sequer para pagar o serviço de dívida, contribuem negativamente para o investimento e para o emprego.

Assim, manter a economia cheia de empresas inviáveis não só não melhoraria a situação agregada, como também não permitiria, ao desperdiçar capital agrilhoado a projectos inviáveis, a expansão dos negócios que efectivamente estão em condições de crescer e de empregar.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico

Quanto vale uma notícia? Contribua para o jornalismo económico independente

Quanto vale uma notícia para si? E várias? O ECO foi citado em meios internacionais como o New York Times e a Reuters por causa da notícia da suspensão de António Mexia e João Manso Neto na EDP, mas também foi o ECO a revelar a demissão de Mário Centeno e o acordo entre o Governo e os privados na TAP. E foi no ECO que leu, em primeira mão, a proposta de plano de recuperação económica de António Costa Silva.

O jornalismo faz-se, em primeiro lugar, de notícias. Isso exige investimento de capital dos acionistas, investimento comercial dos anunciantes, mas também de si, caro leitor. A sua contribuição individual é relevante.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

As mudanças trazidas pela pandemia

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião