As redes sociais contra a democracia

Em 2020 há dezenas de eleições sensíveis. As redes sociais vão ser parte ativa das campanhas eleitorais, quer queiramos quer não.

São mais de sessenta os países onde vão decorrer processos eleitorais neste ano. Grande parte deles estão sujeitos a atos de manipulação diversos, com atores estrangeiros fortemente interessados em interferir nos processos democráticos em nome de interesses obscuros. As redes sociais vão estar, como desde 2016, diretamente envolvidas nos processos eleitorais. Desde a eleição de Donald Trump e do referendo ao Brexit que se sabe que as redes sociais são veículos bastante eficientes para suprimir a participação eleitoral e para acicatar ódios e preconceitos variados.

No Facebook é o que se sabe: as revelações desta semana sobre a forma como a Cambridge Analytica atuou em diversos países deixa pouco espaço à imaginação. A rede social de Mark Zuckerberg é um veículo ativo para a promoção da desinformação a nível global, lucrando com isso pelo caminho. Na Google, as perspetivas não são melhores: o post do antigo chefe de relações internacionais da empresa mostra bem como o que interessa é apenas a alínea do lucro, estando a empresa a colaborar ativamente com a China e a Arábia Saudita em ataques aos direitos humanos.

Agora que já ninguém acredita nos “esforços de auto-regulação” das plataformas digitais, é altura de exercer esforços reais para resolver os problemas criados e amplificados pelas redes sociais. Vários atos de democracia estão em risco e alguns são mesmo aqui ao lado. As eleições em França, na Polónia, na Grécia, na Sérvia e na Lituânia vão obviamente ser aproveitada pelos hackers russos e pelos populistas para espalhar desinformação sobre a União Europeia e acicatar velhos ódios regionais. A isto é importante responder com regulação efetiva para evitar ataques, e atividade policial e judicial capaz de deter os responsáveis. Muito piores estão os países onde o estado de direito tem dificuldades em afirmar-se e os poderosos de Silicon Valley fazem o que querem.

O primeiro teste à manipulação democrática vai acontecer já em Taiwan, que se continua a querer afirmar contra o gigante chinês – e não é por Pequim não aceitar o Facebook dentro do seu território que os seus ciberexércitos não o sabem usar. Em seguida valerá a pena estar atento aos atos eleitorais no Sri Lanka e em Myanmar, onde o Facebook já serviu para promover campanhas genocidas. Não vai certamente ser este ano que as redes sociais vão deixar de dar abrigo aos terroristas anti-democráticos, mas o que é certo é que há muito mais gente atenta.

Ler mais: Há um relato na primeira pessoa que merece ser lido para que se perceba bem a dimensão manipulativa a que os utilizadores do Facebook estão sujeitos. Christopher Wylie, o programador que deu a conhecer ao mundo o que a Cambridge Analytica fazia, escreveu Mindf*ck para se reconciliar com as ferramentas que criou e que acabaram por subverter várias eleições.

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