Bicicleta na China

A imagem dos tanques em Tiananmen são hoje o símbolo de um poder político e económico avassalador e incontrolável.

Em pleno aniversário do D-Day, Putin recebe em Moscovo o Presidente Xi Jinping. A Rússia e a China prometem uma “aliança sem precedentes”. O simbolismo não podia ser maior – o Mundo Livre recorda o passado na Normandia, o Admirável Mundo Novo faz planos para o Futuro da Humanidade. Putin e Jinping são homens poderosos como Imperadores, e os Imperadores sempre se consideram como Homens Sagrados ao serviço do Bem, sempre se projectam como versões políticas da Revelação Secular ou Configurações Humanas da Divindade. O espectáculo político de Moscovo é a promessa da Prosperidade num qualquer Paraíso em tons de Vermelho e Ouro. Há uma dose de verdade nesta Prosperidade que torna perigoso o simples acto político de acreditar que é uma ficção.

Pelo acaso dos dias, falo com um Amigo de Oxford recentemente regressado da China. A sua ideia é a de atravessar a China de bicicleta, uma típica excentricidade britânica. Entrando pelo Cazaquistão, o meu Amigo fica imediatamente retido na cidade fronteiriça de Tasheng, na Província de Xinjiang. A bicicleta, o telefone, o computador e o passaporte são imediatamente apreendidos. O telefone e o computador são praticamente revistados peça por peça. As “conversas” com as autoridades são calmas e educadas, mas a intenção é a de que o visitante britânico exponha a sua alma em troca de uma chávena de chá, um biscoito, cinco cigarros e um visto de entrada. O meu Amigo revela o mais prosaico pragmatismo da sua alma. Libertado da “conversa”, o aventureiro é escoltado até um Hotel local e informado que não se deve ausentar das instalações. Na realidade, as “conversas” repetem-se por 10 vezes no espaço de 24 horas, sendo a comunicação assegurada por um intérprete, o tradutor automático do Google, tudo no sentido de detectar o objectivo da insólita expedição.

Tendo sido militar e estudado História na Universidade são factores que levantam algumas muitas suspeitas. O facto da Província de Xinjiang ser o território da minoria Uighur, uma população que professa o Islamismo, terá obviamente alertado as autoridades chinesas para a presença de tão insólito ocidental. A minoria Islâmica tem sido objecto de “medidas correctivas”, nomeadamente, os nomes de origem muçulmana são proibidos, a língua, os rituais e as tradições Uighur proibidas, os minaretes das Mesquitas demolidos. Para os que persistem na afirmação da cultura Uighur, o Governo disponibiliza cerca de 1200 “Centros de Educação e Formação Profissional” que, segundo vários organismos internacionais, não passam de Campos de Detenção com uma população estimada em 1.5 milhões de pessoas. A vigilância é total. Quando o meu Amigo sai do Hotel em Tasheng para fumar um cigarro é imediatamente abordado por um agente vestido à civil; quando sai para um passeio de 30 minutos é interceptado por 5 vezes para verificação do passaporte. A presença policial é constante e assinalada por pequenas guaritas que cintilam luzes vermelhas e azuis. A vigilância é implacável, não apenas a presença da polícia, mas as câmaras com software para reconhecimento facial e scanners para impressões digitais a cada esquina – uma Companhia Chinesa controla diariamente 2.5 milhões de residentes em Xinjiang utilizando 6.5 milhões de locais estrategicamente definidos.

Baseado na permanente vigilância electrónica, um sistema de pontuação foi criado para medir o grau de conformidade dos cidadãos com as normas definidas pelo Governo. Deixado prosseguir a sua aventura na improvável bicicleta, o meu Amigo de Oxford é alvo de vigilância constante, basta sair da estrada principal para ser imediatamente interceptado pela polícia, confirmado os dados do passaporte e reconduzido à estrada principal. Em virtude de uma barreira de arame farpado ao longo da rota estabelecida, não é fácil abandonar a estrada principal. A barreira é substituída por muros de 3 metros quando a estrada contorna os “Centros de Educação e Formação Profissional”. Obrigado a notificar as autoridades do lugar onde irá pernoitar, o viajante informado refugia-se na tenda que monta todas as noites debaixo de uma ponte ou viaduto para escapar à vigilância. Tudo em vão. Numa manhã fria, o aventureiro descobre que não tem acesso à internet e que as VPNs que lhe permitem saltar o “China’s Great Firewall” deixaram de funcionar. O telemóvel mantém-se igualmente em silêncio para o Mundo Exterior. Nas estradas de Xinjiang, o circunspecto britânico é controlado 5 vezes por dia, com consultas ao passaporte, verificação de chamadas no telemóvel, fotografias no computador, acesso às redes sociais. Tudo o que não é julgado apropriado pelas autoridades é prontamente apagado com ameaças de confisco oficial de todo o material por ordem do Governo Central.

O meu Amigo de Oxford não acredita em “caminhos de sonho” nem em “rotas da seda” nem em “linhas melodiosas”. Viajou para a China com o Mapa do Metropolitano de Londres para encontrar no Império do Meio a “colónia missionária” onde vive o Homem Novo – o Novo Homem protegido pelos chips que reduzem a realidade a um algoritmo programado. A imagem dos tanques em Tiananmen são hoje o símbolo de um poder político e económico avassalador e incontrolável. Bem visível na frente do carro de combate um símbolo em forma de flor e a legenda – “Inspired by Huawei”.

Nota: Autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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