Big Ben Brexit

Assinado o Armistício em Bruxelas, logo recomeça a guerra política no Parlamento. Na aritmética de Westminster, os números para a aprovação do Acordo fogem a qualquer lógica política.

Em política é preciso mentir para chegar à verdade. E a verdade é a face visível dos interesses no presságio dos princípios. Boris estilhaça a atmosfera com declarações bélicas e provocatórias contra tudo e contra todos.”Traidores”, “rendição”, “antes morrer numa vala”; despede amigos e inimigos, acusa uns e outros de “conspiração”, viola o precedente e o costume Constitucional, para finalmente ficar sozinho no pedestal da política. E o primeiro gesto genial é repudiar tudo o que disse e concretizar tudo o que criticou. Como um actor num enredo de primeira, mas com uma plateia de segunda, Boris passeia em triunfo um Acordo que jurou nunca assinar. Que o Acordo não esteja assinado com tinta invisível.

A Europa respira finalmente, como se vivesse sufocada pela cobardia de enfrentar uma saída do Reino Unido sem Acordo. A inversão do ónus da responsabilidade e da culpa deixaram Bruxelas paralisada num silêncio confrangedor, conferindo espaço e tempo para o Reino Unido pensar num discurso político, e numa espécie de estratégia política, alicerçado na figura do filho pródigo que deseja o Mundo com a bênção do Pai. Este compasso de espera retirou força à posição da Europa e abriu espaço para a diplomacia Britânica encontrar a moeda de troca capaz de capturar a atenção política do Império Liberal. E quando o espectador esperava que a cortina escondesse definitivamente a vergonha política dos dois lados da Mancha, eis que surge pela direita baixa o milagre do Acordo.

A moeda de troca na transacção política dá pelo nome de Irlanda do Norte. O Acordo tem a marca do cinismo de Londres e da burocracia de Bruxelas. A base é o Acordo assinado por Theresa May, mas com as cláusulas para a Irlanda do Norte revistas e aumentadas. Com o Acordo, o elemento pivot para a sustentação de uma saída ordenada do Reino Unido transfere-se para os Seis Condados do Ulster.

O conceito político negocial é associar os arranjos políticos a definir no período de transição à regra e ao preceito do “consentimento democrático” do Parlamento de Stormont. O barómetro das negociações terá sempre o seu reflexo no extremo norte dos Seis Condados. Entretanto, a Irlanda do Norte permanece no espaço aduaneiro Britânico e no Mercado Único Europeu. Politicamente os Seis Condados estão no purgatório político. Refira-se que o Parlamento de Stormont está suspenso desde 2017, por dissidências entre os partidos políticos, e as próximas eleições estão marcadas para 2022. Como poderá ser exercido o escrutínio do “consentimento político” nestas condições peculiares, só pode escapar à latitude do Acordo.

Neste cenário, a Europa é beneficiada por que a sua influência política e económica tenderá a favorecer uma lógica “integracionista” com vista à unificação da Irlanda. O Reino Unido é beneficiado por que ultrapassa o bloqueio do Brexit e pode orientar a sua acção política para o Mar Aberto do Comércio Global.

Os Unionistas do Ulster estão de novo na linha da frente, um território assolado por anos de violência sectária entre Católicos e Protestantes, agora também na linha da frente entre a Europa e o novo Reino Unido pós-Brexit. Por vezes a inconsciência política ganha contornos que desafiam as linhas melodiosas que acompanham o sonho de um qualquer Napoleão.

Assinado o Armistício em Bruxelas, logo recomeça a guerra política no Parlamento. Na aritmética de Westminster, os números para a aprovação do Acordo fogem a qualquer lógica política. Um Governo com uma “maioria negativa”, uma Oposição profundamente fragmentada e pulverizada numa infinidade de propósitos políticos.

O Brexit não é apenas o Brexit, mas sim uma verdadeira crise existencial que coloca na linha de fogo todos os equilíbrios políticos. O Labour recusa uma posição sobre o Brexit e deseja o regresso da Grã-Bretanha aos gloriosos anos 70 e a uma era pré-Thatcher – o seu fétiche político são as Eleições Gerais.

Os Liberais-Democratas assumem o papel do Partido Oficial dos Remainers, desejando inverter o equilíbrio das forças políticas para se tornarem os líderes da Oposição que, após as Eleições Gerais, desejam conduzir a Grande Coligação para a revogação do Artigo 50. O SNP tem inscrito na sua cartilha política a Independência da Escócia e apenas a Independência da Escócia. Na colorida confusão de todos os confettis políticos, o SNP tem ainda como desígnio imediato garantir a permanência da Escócia na União Europeia. Os Unionistas do Ulster estão numa posição política complexa e inconfessável. Os Tories já não são o Partido Unionista de tradição Conservadora, mas o braço armado de uma ideia política tóxica que dá pelo nome de Brexit.

O Parlamento Britânico tem sido expedito em votar e a estabelecer o que não quer. Havendo minorias em todas as direcções políticas, não tem sido possível fazer coincidir o número mínimo de minorias para completarem o sentido de uma maioria. Boris tentará ser Churchill após a queda da França e fugir ao destino de Chamberlain após os Acordos de Munique. Boris será tudo o que for necessário para garantir a aprovação do Acordo.

Em pleno Parlamento, é o último dia para o Brexit e o primeiro dia para o Brexit. A História é uma galeria repleta de cópias e escassa em originais. Que o Parlamento seja uma explosão de originais.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico

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