Cães na Estação do Zoo

Se tudo é “compromisso” e nada é “alternativa”, a discussão falha nas matérias políticas essenciais, falha na ligação entre governantes e governados, garante a expansão das linguagens do passado.

Quando o líder do “Podemos” se refere à direita como “cães” que nada têm a ensinar sobre o que representa a Espanha. Quando o líder do “Vox” evoca o orgulho histórico da Espanha contra os “cães” que o querem negar e destruir, a sensibilidade treinada na melodia política percebe que o conflito toma proporções algo distantes do consenso centrista entre famílias políticas que se respeitam. O que retorna à superfície é a solidariedade que identifica os “nossos” e o ódio que denuncia os “outros”. Os “nossos” estão do lado bom da política; os “outros” estão do lado errado da política e devem ser desprezados e destruídos. A política é a guerra das palavras até deixar de usar as palavras.

No complexo xadrez da Europa, nas múltiplas estações da “Zooropa”, o que está a emergir no discurso e na ideologia política é a uma espécie de “Retorno do Político”, o político como a concretização de uma divisão entre “amigos” e “inimigos”, divisão esta que garante e assegura a continuação do processo político. Esta linguagem simboliza politicamente o colapso da “ideologia europeísta”, um expediente operacional que ajuda a classe política a iludir os desacordos e a afirmar publicamente um falso consenso centrado na ficção de um destino comum. A ideologia europeísta limita-se a criar uma planície sem política, um cenário virtual em que a noite é igual ao dia, em que todos os cidadãos são iguais na dignidade das suas opiniões … até que aparece a primeira memória das valas comuns. O consenso europeísta resulta na asfixia do debate, serve sobretudo para manter a variação de um “regime de não-discussão” que, ao tornar-se veículo de uma expressão política única, decreta o fim do debate, repete a litania oficial e grita sempre que uma voz política subverte o guião histórico estabelecido. Se tudo é “compromisso” e nada é “alternativa”, a discussão falha nas matérias políticas essenciais, falha na ligação entre governantes e governados, garante a expansão de um vácuo cultural onde crescem todas as linguagens políticas do passado – marxistas, fascistas, populistas. É a Europa das Pátrias, a Primavera das Nações, com uma procissão de glórias e um cortejo de misérias.

É com o olhar em Espanha que estas linhas são escritas. Quando todos os mitos da esquerda desaparecem entre o crepúsculo das mortes e das mentiras, a Guerra de Espanha permanece no imaginário progressista como o grande símbolo da luta do Bem contra o Mal. A grandiosidade épica de Guernica, a tragédia de Lorca fuzilado em Granada, mas também o outro lado dos grandes cemitérios sob a Lua, a experiência e a literatura de Arthur Koestler e George Orwell que irradiam o lado sórdido da Grande Causa. A Espanha moderna e membro de pleno direito e ambição da União Europeia está suportada por uma “Transição Pactada”, está alicerçada na “Lei da Memória Histórica” – e no centro político de uma Espanha democrática está o PSOE e o PP. A deriva “Republicana” do PSOE, talvez pressionado pelo discurso do “Podemos”, com a tentativa de exumação dos restos mortais de Franco do “Vale dos Caídos”, com a depuração da memória física das ruas e das cidades dos velhos nomes e das velhas referências, com a campanha para localizar as valas comuns e identificar as vítimas da Guerra Civil, nada destas iniciativas culmina na reconciliação da Espanha, mas sim na emergência de um ressentimento silencioso tornado vocal e com expressão eleitoral. Junte-se a questão das Autonomias Regionais e a Independência da Catalunha e eis o cenário perfeito para o recrudescer do conflito entre a Espanha da Frente Popular e a Espanha Falangista. Com um PP enfraquecido e humilhado, com o centro garante do equilíbrio da Espanha pós-franquismo fragmentado, o Vox passa a representar o outro lado da Espanha. No limite, entre o “Podemos” e o “Vox”, entre o “Terror Vermelho” e o “Terror Branco”, uma partícula residual do PSOE é ainda o que resta dos partidos moderados ao centro que construíram a democracia em Espanha. O que causa perplexidade na Europa é o facto de sempre se ter pensado que, por causa da memória da Guerra Civil, por causa da experiência da violência entre duas ideias de Espanha, por causa do Regime de Franco, a Espanha seria uma nação imune ao populismo. Não há imunidades perpétuas em política. O Vox é uma resposta à crise da democracia espanhola, uma resposta centrada na defesa do centralismo, centrada na defesa da integridade da Espanha Unida, mas conservadora em matéria de costumes e liberal nas questões económicas. Em Espanha persiste uma identidade política remota e violenta, dividida entre a eminência do moderno e a essência do eterno.

A Europa das Luzes com sede em Bruxelas não consegue decretar o fim das ideologias, nem o fim da História, nem a abolição das Pátrias, resta-lhe o conforto das notas majestáticas sobre o progresso e o futuro digital. Na deambulação periódica dos cães, os populismos na Europa estão entre a peste e a cólera, mas são também parte integrante da grande Europa da Desolação e da Civilização.

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