Caixinhas políticas: os extremos tocam-se

Tenho a forte suspeita de que muita gente anda equivocada e tem posições que são, afinal, defendidas por partidos que não aquele em que militam e votam.

Por uma qualquer razão que desconheço, várias das minhas amizades “facebookianas” partilharam recentemente o resultado do seu teste de coordenadas políticas. Bom, na verdade, o fenómeno não é difícil de compreender: basta que uma pessoa acorde de manhã, lhe ocorra fazer o teste e partilhe o resultado, que depois é só deixar multiplicar-se de modo exponencial.

Curiosamente, há uns dias, por ocasião da apresentação do ensaio “Ditadura e Democracia: Legados da Memória”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, sugeri que seria muito útil para a população portuguesa uma ida à Bússola Eleitoral do Instituto de Ciências Sociais (não, não estou a sugerir que o facto de as pessoas andarem a colocar-se no espectro político resulta deste meu apelo). Isto porque tenho a forte suspeita de que muita gente anda equivocada e tem posições que são, afinal, defendidas por partidos que não aquele em que militam e votam. É ver as conclusões engraçadas a que chegou o Pedro Magalhães.

À semelhança de em outras áreas, a sociedade portuguesa padece de uma profunda iliteracia em Ciência e em Filosofia Políticas. Manifestação disso é que o debate se continue a fazer primordialmente em torno da clássica dicotomia – agora tornada trincheira – da Esquerda versus a Direita. Munidos de apenas duas caixinhas, alguns portugueses acabam a fazer coisas abstrusas como rotular de comunista quem não apoie Trump, Salvini, Bolsonaro e outros que tais. Eu até sou contra a colagem de rótulos em pessoas, mas se o vão fazer, ao menos, munam-se de mais de dois, que a complexidade da realidade política não se compadece com tamanha simplificação. Depois, ficam sem saber o que fazer a Adolfo Mesquita Nunes, que vice-preside ao CDS, mas escreveu um artigo intitulado “Rejeitar Bolsonaro”. Também deve ser um perigoso “vermelho”…

O teste político que anda a circular no Facebook é capaz de não ser coisa feita com grande rigor científico e académico. Em muitas das perguntas, a minha resposta honesta era um “depende” ou um “por favor, clarifique o que quer dizer com isto”. Por exemplo, a minha concordância com a afirmação “Existem muitos programas governamentais que desperdiçam recursos” é fortemente dependente dos governos em questão. Porque há países onde a definição das políticas públicas é sujeita previamente a uma rigorosa análise custo-benefício, com o envolvimento das várias partes interessadas; e outros onde se quer resolver problemas que nem estão bem definidos, muito menos devidamente quantificados. Já a sugestão de que “o governo deveria fornecer assistência médica sem custo para seus cidadãos” é uma impossibilidade, que custos tem sempre, concorde-se ou discorde-se; a questão está em como financiá-los: exclusivamente através de impostos, segundo o princípio de utilizador-pagador, com co-pagamentos, etc.

Mesmo que imperfeito, o teste de coordenadas políticas tem a inegável vantagem de introduzir um segundo eixo, o de Liberal-Comunitário, que se junta ao da Esquerda-Direita. Na minha opinião, continua a ser simplista, sobretudo porque a globalização veio exigir uma terceira dimensão, a que capta a atitude face ao exterior, mas representa já um grande avanço face a uma construção do mundo a preto e branco. Ter gráficos com vermelho, verde, azul e amarelo ajuda-nos a perceber que, às vezes, a opção, mais que entre Esquerda e Direita, é entre Democracia e Autoritarismo.

Nota: A autora escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

Disclaimer: As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente a sua autora.

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