Campo Concentração Covid

A política do Governo face à pandemia está baseada na construção de um muro de seringas. Portugal está entregue a funcionários subordinados dotados de qualidades secundárias.

O carrossel da pandemia está de volta. O Governo e o Presidente da República andam em modo de vendedores de porta em porta a dizer aos portugueses que tudo desliza na perfeição. Levem a vacina e vão para a praia. Depois, vai-se a ver e nada desliza na perfeição a não ser a incompetência do costume e um optimismo patológico. A patologia política nacional confunde o desejo com a realidade e tudo por um lugar ao sol numa esplanada improvisada. A normalidade em Portugal é o terraço de uma esplanada. É o ridículo que mata.

Mais fantástico ainda é a jura do Presidente de que “não voltaremos para trás”, versão moderna e modificada do “Non Pasarán!”, como se o vírus fosse a ameaça fascista numa qualquer guerra civil. Logo o Primeiro-Ministro vem garantir aos portugueses que ninguém pode garantir que “não voltaremos para trás”, palavra de Primeiro-Ministro. As comadres do comentário que dormem como se o universo fosse um erro identificam desautorizações mútuas, descoordenações portáteis, irritações políticas, ambições para a Europa. Neste momento, Portugal não está a ser governado porque está entregue a funcionários subordinados dotados de qualidades secundárias. Existe uma espécie de recreio em volta da pandemia sem que o País perceba que está a pagar as omissões, as indecisões, as hesitações, de uma classe política sem visão e sem verdade.

Escrevo estas linhas enquanto o Presidente da República está em Nova Iorque e o Primeiro-Ministro viaja de Bruxelas para Munique para assistir ao jogo da Selecção Nacional. Os portugueses observam que os principais responsáveis políticos da Nação estão em digressão constante, uma benesse para a indústria da hospitalidade e para os jets privados. Em Portugal, os portugueses contam o número de utentes nos comboios e nos autocarros, ajeitam a máscara de dois dias ao rosto e entram no cosmopolita spa viral até ao destino final. No entanto, escrevo esta crónica numa zona de exclusão, isolada do Portugal real, porque o número das infecções dispara na matriz de risco sem controlo ou competência para a controlar. O País político não tem memória para o passado nem tem tempo para o presente. Somos todos reféns do medo das responsabilidades e da incompetência das figuras menores. Para além das lamúrias, das queixas, da mão estendida, não resta nada do orgulho e da dignidade individual de cada cidadão?

Já se percebe que a política do Governo face à pandemia está baseada na construção de um muro de seringas. Mais nada. Prevenir, prever, antecipar, são objectos políticos de um exercício de governação estranho à cultura política nacional. A lógica da coisa oscila entre os “fantasmas da fé” e os “espectros da razão”, sem que o Governo perceba que este movimento representa apenas o ciclo vicioso de mudar os portugueses de cela em cela. Neste particular, Primeiro-Ministro e Presidente da República desfilam no mesmo nevoeiro arriscando a obtenção de resultados político-pandémicos monosexuais, politicamente estéreis, pandemicamente férteis. Por estas avenidas delirantes os portugueses sofrem uma humilhação quotidiana, vivem uma desvalorização desmoralizante, face ao desfile impune de uma política que serve a glória de Belém e o poder de São Bento.

Uma referência às vacinas e ao Almirante-Génio que um dia deixou o submarino amarelo para se dedicar às incumbências logísticas. É indescritível o fascínio que a cultura política corporativa tem por uma farda. A Esquerda lembra-se do 25 de Abril. A Direita relembra o Estado Novo com pouca política, muita ordem e mais administração. Nas mãos do Almirante navegamos para as Novas Índias com agulhas descartáveis espetadas no braço esquerdo. Eis o reino da Variante Delta. É a promessa da prosperidade, do progresso, da normalidade, enfim, da liberdade. Se o mundo fosse assim tão simples confundia-se com a variação de uma aventura estática. Mas não. As regras mudam constantemente, ora deve-se aguardar o contacto, ora deve-se proceder ao auto-agendamento, ora funciona a happy hour da prática da “porta aberta”, ora recomenda-se uma vacina e administra-se outra, ora sim e mais também. Depois ninguém quer reconhecer que nem todas as vacinas são iguais na sua eficácia. Tal significa que o Governo socialista no seu apogeu igualitário está a criar duas classes de portugueses – os vacinados com vacinas de primeira e os vacinados com vacinas de segunda. Mas claro que qualquer vacina é melhor que nenhuma vacina. Sim.

Julgo que está na hora de um “sobressalto cívico”. Está na hora em que os portugueses devem chamar a si a responsabilidade do cumprimento das regras como modo de manifestar a revolta contra a incompetência e a indiferença do Governo da República. Em vez da clássica desobediência em silêncio, impõe-se o romântico cumprimento de todas as regras, procedimentos, comportamentos, como forma de demonstrar o radical desafio de uma revolta contra a incompetência do Estado. Acreditem que há um Império para além destes dias, não se resignem ao bric-à-brac do momento. Há mais sol depois do sol.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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