Causar impacto em comunidade

  • Francisca Lencastre
  • 19 Fevereiro 2021

As comunidades apresentam-se de mil e uma maneiras mas, mais do que a forma como se apresentam, é importante destacar o que faz delas uma comunidade e não um simples grupo.

Afiliações políticas, clubes desportivos, grupos ativistas e até conjuntos familiares. As comunidades apresentam-se de mil e uma maneiras mas, mais do que a forma como se apresentam, é importante destacar o que faz delas uma comunidade e não um simples grupo.

Como refere Seth Godin no seu livro “Tribes”, uma multidão é uma comunidade sem líder e/ou sem comunicação. Ou seja, nem tudo o que parece ser uma comunidade o é efetivamente. Para haver uma estrutura, rigor crítico e a criação de algo positivo – sendo, obviamente, este conceito muito lato e subjetivo e referindo-me, neste caso, à realização de algo que contribua para o alcance do objetivo comum que liga estas pessoas – é preciso que haja uma mensagem/ideologia clara e uma pessoa/figura que atue como representante e que seja facilitador deste processo de troca e partilha de ideias. A partir daqui, uma comunidade que seja bem alimentada – nestes dois sentidos – e que aceite as individualidades de cada um e as celebre coletivamente, funcionará quase em modo piloto automático.

A nossa ação dentro e em comunidade, seja ela grande ou pequena, causa sempre um impacto (tal como chegar atrasado a uma reunião afeta inevitavelmente o dia de todas as pessoas que tiveram que esperar por nós). Por isso, não só é importante percebermos o que ou quem seguimos, mas também quem está ao nosso lado e se somos capazes de contribuir para o objetivo principal, comprometendo-nos a trabalhar individualmente para trazer o melhor para o coletivo. Isto porque fazer parte mas não colocar nenhum investimento pessoal na causa, é o mesmo que levantar problemas, mas ser incapaz de trabalhar para encontrar soluções.

A comunidade é identidade, o que não significa que comunidades com objetivos ou perspetivas diferentes não se possam juntar e criar algo em conjunto. Atualmente, temos vindo a assistir cada vez mais a uma linha de pensamento “perigosa” e “tóxica” que defende que, se alguém não acredita no mesmo, não faz sentido estabelecer uma conversa ou relação.

E é aqui que surge o maior entrave das comunidades. Se estivermos rodeados apenas – ou maioritariamente – de pessoas que concordam connosco, dificilmente iremos evoluir, empoderar ou acrescentar algo às nossas visões e à forma como compreendemos o que está à nossa volta. Além disso, mais nos afastamos do resto do mundo, que está repleto de diversos pontos de vista e formas de vida imensamente ricas. Não me parece sensato fecharmos a nossa mente, o nosso pensamento crítico, e não vermos mais além.

Dizem que os mais sábios são, por norma, os que já viveram mais e partilham as suas vivências e aprendizagens com os restantes; muito fruto do que ouviram e experienciaram ao longo da vida. Porque não, então, assumirmos que, para nos tornarmos sábios, temos de ouvir mais? Assim, quando formos chamados a contribuir, teremos algo mais fundamentado, rico, pertinente e relevante para partilhar. Só através da união é que a transformação será efetiva. Caso contrário, andaremos em loops consecutivos de trocas de poder, sem resultados efetivos.

Como defendem os terapeutas familiares, a chave para um casamento de sucesso é o respeito pelas diferenças, a comunicação aberta e o trabalho para um objetivo comum. As comunidades são, de certa forma, como o casamento mas, para o bem ou para o mal, o número de divórcios é bem menor.

*Francisca Lencastre, gestora de comunidade do IES – Social Business School.

  • Francisca Lencastre

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