Editorial

Centeno deveria aprender com a (má) experiência de Teixeira dos Santos

Mário Centeno está no centro do debate político, está "inchado" com tanta popularidade, e com o apoio público e declarado de… Rui Rio. Deveria pedir conselhos a Teixeira dos Santos.

O ministro Mário Centeno é a grande carta política do PS nas legislativas de 6 de outubro, o homem das contas certas, por mérito próprio, por poder que lhe foi dado por António Costa, por causa de um contexto político e económico externo, conseguiu o que não é comum, um nível de popularidade inédito para um ministro das Finanças (mesmo para este que transformou a austeridade). Mas deveria rever o que foi a campanha do PS em 2009 e especialmente a participação do então ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e o que lhe sucedeu depois.

Um ministro das Finanças tem sempre um papel ingrato. Quando as coisas correm bem, é muitas vezes elogiado pelo que fez e pelo que não fez. Quando as coisas correm mal, é sempre o principal responsável, mais até do que o primeiro-ministro, porque é o que tem a assinatura vinculativa para autorizar despesa ou para a travar. E isso exige, entre outros pontos, um ministro das Finanças independente do partido que suporta o Governo, da máquina que quer lugares e acesso ao orçamento, como era Mário Centeno há quatro anos. Entrou nas listas em 2015, mas era “mais um”. Em 2019, a história está a ser outra.

A economia portuguesa está a entrar noutro ciclo económico, alinhado com o que já se vê nas economias internacionais. O défice externo está de volta, um sinal muito negativo para o futuro próximo. O papel do próximo ministro das Finanças será mais exigente, mais difícil, com maior confronto dentro do próprio Governo e do partido que o sustenta. Como as sondagens indicam, o PS vai ganhar as eleições, e a questão que está em cima da mesa é mesmo saber se há maioria absoluta. À medida que os dias passam, e depois dos debates a dois e a seis, as sondagens mostram uma descida do PS e sobretudo uma subida do PSD, o que torna mais difícil chegar à maioria absoluta. Ora, este quadro vai tornar o trabalho do próximo ministro mais difícil. E não é por acaso que Mário Centeno andou semanas a criar um tabu sobre a sua continuidade como ministro num próximo Governo. Agora, aparentemente dissipadas.

Neste sentido, Mário Centeno deveria proteger-se, mas, pelo contrário, está a cometer exatamente o mesmo erro que cometeu Teixeira dos Santos em 2009, quando deu a cara pelo PS nessas eleições, entrou como candidato nas listas do Porto e vestiu a pele de militante do PS. Perdeu a independência que explica, talvez, porque é que deixou ir até 2011 o pedido de resgate que ele próprio fez, em rutura com José Sócrates, que ainda estava em negação total.

Não estamos em 2011, não virá o diabo, pelo menos pintado como aquele que “convidamos” naquele ano, as instituições europeias mudaram, as regras de supervisão mudaram, o BCE já não é o que era, há uma união bancária, embora incompleta. Mas os incentivos políticos e o modelo de governação internos não mudaram, continuam os mesmos, o aparelho, a máquina partidária a tomar conta do Estado (não é preciso dar exemplos, pois não?), e isso exigirá um ministro das Finanças com independência, que Centeno está a atirar pela borda fora. Quando mais precisará dela.

Mário Centeno está “inchado”, afinal é o ‘Ronaldo das finanças’, como se vê nas suas sucessivas intervenções, e nos tempos de antena do PS, mas deveria pedir alguns conselhos a Teixeira dos Santos, para aprender com a sua má experiência.

Nota: Este editorial foi escrito esta manhã de segunda-feira, antes do debate de António Costa e Rui Rio na TSF/Renascença/Antena 1, e sobre a discussão “o meu centeno é melhor do que o teu”. Rio quis elogiar Joaquim Miranda Sarmento, o economista que fez o programa económico do PSD, mas até nos elogios Rio é politicamente desastrado. E Miranda Sarmento não merecia. Não é defeito, é feitio. Ao valorizar Mário Centeno, quando o seu “ministro-sombra” das Finanças escreve e critica o que são as habilidade orçamentais de Centeno, está a dar um enorme tiro no pé, e a ajudar Costa. As sondagens mostram que Centeno é mais popular dos políticos no universo eleitoral do PSD e do CDS, e pelos vistos tem um grande apoiante: Rui Rio.

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