Centeno e o fim da Geringonça

José Miguel Júdice analisa, no Jornal das 8 da TVI, a eleição de Mário Centeno para o Eurogrupo e as pressões sobre a Geringonça. O advogado não esquece Belmiro de Azevedo.

A Índia e Portugal. Baçaim, Damão e Diu, uma experiência inesquecível. Mais de 55 anos depois da saída de Portugal da Índia, quase 45 anos depois do 25 de Abril, é tempo de uma revolução nas relações dos dois países, para que deixem de ser apenas bem educadas.

O cristianismo na Costa do Índico, as pequenas e frágeis comunidades que aguentam a língua portuguesa (trago gravada na memória a missa do goês Padre Manuel, em português, igreja cheia de fervor, com a procissão à noite logo a seguir na fortaleza de Damão com os cânticos da minha infância), o património cultural sobretudo dos séculos XVI a XVIII, tudo isso simboliza o sincretismo, o pluralismo, a globalização e merece respeito e preservação.

Fazer isso deve ser uma prioridade de Portugal, um ato de cultura e inteligência da União Indiana, um investimento da Europa, um património cultural material e imaterial a reconhecer pela Unesco.

Com um primeiro-Ministro de origem indiana, nunca Portugal terá uma ocasião como esta para corrigir os seus erros e ter orgulho do que de positivo deixou nesse País que devemos considerar Irmão como as nossas antigas colónias.

Centeno a presidir ao Eurogrupo

Um acontecimento realmente importante, cujo significado (ao menos lido na Ásia) não me pareceu ter sido realçado como devia em Portugal (com exceção de António Costa, hoje de manhã no ECO). O ministro Vítor Gaspar, após a chegada da troika, foi um procônsul da Alemanha, para o bem e para o mal. Agora, um seu sucessor chega à cabeça do Império europeu com apoio dos alemães.

Dois significados se extraem disso e não são incompatíveis:

  1. Ganhámos de forma clara a confiança dos que mandam em nós, através da alternância política que nada alterou de essencial.
  2. Alguma coisa está a mudar na Europa no sentido de uma política um pouco menos restritiva para os países do Sul.

Esse equilíbrio é a nova forma da ortodoxia europeia corrigir alguns erros, e alterar alguma coisa para tudo fique na mesma. Mas, e nisso o essencial, ao ministro das Finanças de Portugal será exigido mais rigor, por presidir ao Eurogrupo, do que se não fosse ele o escolhido. Escolher Centeno é garantir que será ainda mais difícil do que antes que a pressão do PCP e do BE tenha sucesso na destruição do que tanto custou a conseguir.

Por isso, Jerónimo de Sousa não tem razão quando diz que a escolha de Centeno “não muda nada”. É verdade, mas não da forma que ele antecipa: tudo vai ficar igual na ortodoxia financeira do Estado, é verdade, mas a candidatura de Centeno e a sua escolha prenuncia mais do que qualquer outra coisa, o fim da geringonça na próxima legislatura. Ou seja, vai mudar tudo.

A Autoeuropa: mais do mesmo?

Há meses respondi à minha pergunta (“porquê os trabalhadores votaram contra o acordo feito pela Comissão de Trabalhadores?”) de um modo que, penso, foi diferente do que se dizia na altura. Disse que não foram os sindicatos comunistas que manipularam, foram os trabalhadores que não quiseram. E também expliquei porque pensava que era assim: para a “aristocracia” operária (como é o caso da AutoEuropa), que não perdeu emprego, que pediu empréstimos antes da crise, que está no apogeu da vida profissional, a vontade de gozar o dividendo do bem-estar familiar na meia-idade é mais importante do que o receio de perder emprego e do que a vontade de ganhar mais algum dinheiro. E eu compreendo muito bem as opções deles, que são respeitáveis.

Por isso, há dias, os trabalhadores de novo derrotaram um novo e melhor acordo, que desta vez fora aceite pela nova Comissão de Trabalhadores onde os sindicatos estavam também presentes. Eu tinha portanto razão.

E agora? O Ministro Vieira da Silva disse, com razão, que situações de impasse são perigosas. E é verdade que os trabalhadores estão a apostar em que a empresa alemã se sinta condenada a fazer mais cedências, pois com a fabricação do novo automóvel em curso, mudar para outro país seria bem mais caro.

Mas os alemães têm um provérbio que diz mais ou menos o seguinte: Se as coisas podem ser complexas, para quê tentar torná-las simples? Ou seja, pode no futuro pagar-se caro esta recusa que se repetiu após cedências da VW.

O tempo provou que não era verdadeira a célebre frase “O que é bom para a General Motors é bom para os EUA”. Deus queira que se não venha a provar que seja verdade que “o que é bom para a VW, afinal, deixou de ser bom para Portugal”. Ou seja, temo o pior, ainda que não para já, e, mais uma vez, acho que existe alguma culpa do Governo: tanto disse que tudo estava bem que sossegou talvez demais os trabalhadores da AutoEuropa.

Belmiro de Azevedo

Uma palavra final para alguém sobre o qual todos já disseram quase tudo. Apenas porque me parece que não disseram o que considero o essencial do seu legado. Belmiro de Azevedo é para mim talvez a pessoa a quem no nosso tempo é mais justo aplicar os célebres versos quinhentistas da “Carta a D. João III”, de Sá de Miranda:

  • “Homem de um só parecer / d’um só rosto, uma só fé / d’antes quebrar que torcer / ele tudo pode ser / mas de corte homem não é”.

Belmiro foi um Homem livre e sem medo. Em Portugal, um país pequeno, com um Estado pesado e omnipresente, cheio de tiranetes e de homens de mão, homens livres e sem medo são muito raros e cada vez mais necessários.

Belmiro não se reveria naquilo que o Presidente da República (segundo cita o ECO) diz sentirem os empresários portugueses: “perplexidades e desmotivações”. Ele teria já dito alto e bom som o que lhe iria na alma. O líder histórico da Sonae, nunca fui seu advogado, mas conhecia-o, não era daqueles que “tremem de coragem”…

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António Costa

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