Como o mercado dos seguros de saúde se adaptou à pandemia

  • Natália Bernardo
  • 19 Outubro 2020

Natália Bernardo, Associate Director, Health & Benefits da corretora Willis Towers Watson, considera que as seguradoras portuguesas responderam bem à crise, mas espera para ver como reagem no futuro.

A pandemia entrou abruptamente nas nossas vidas e forçou-nos a todos, de uma forma ou de outra, a reagir e adaptarmo-nos ao confinamento e ao teletrabalho.

As seguradoras, ao nível dos seguros de saúde, foram confrontadas com uma enorme pressão para encontrar respostas num momento de grande ansiedade.

Recordando que na maioria dos seguros de saúde as pandemias são uma exclusão contratual, começamos por assistir a uma tomada de posição extraordinária das seguradoras, ao estas assumirem a comparticipação dos testes de diagnóstico do SARS COV 2.

E, em consequência, a necessidade de se estabelecerem convenções que permitissem aos seus clientes acessibilidade e custos mais controlados, o que aconteceu tanto para os testes como posteriormente para os “kit de proteção”, minimizando os impactos nos resultados dos seguros.

E desde então, assistimos às seguradoras, com diferentes dinâmicas, velocidades e direções de investimento, a procurarem estar mais próximas dos seus clientes. Investindo em comunicação, em parcerias e em Tecnologia.

O papel da tecnologia

A tecnologia, nomeadamente no domínio da telemedicina, tem vindo timidamente a assumir protagonismo, e não obstante o seu potencial, tem encontrado inúmeras resistências numa sociedade que privilegia a relação direta.

Mas vimos esta resistência ser desmontada pelo contexto Covid. As pessoas necessitavam de alternativas e aderiram às consultas online.

Os serviços clínicos online, que possam estar incorporados nos seguros, geram serviço, conferem acessibilidade, protegem o utilizador de uma exposição social desnecessária, permitem triagens e orientações clínicas, assim como, podem contribuir para despistar eventuais situações críticas, evitando que se adiem ainda mais, por exemplo, diagnósticos com consequências menos positivas.

E, nas seguradoras, houve quem lançasse um marketplace, disponibilizasse novos serviços online, introduzisse novas consultas de especialidade, com a enorme vantagem de que, para além do processo de proteção “social” inerente, salvo algumas exceções o utilizador não tem qualquer custo.

Se pensarmos com os números do Covid a tomarem proporções mais preocupantes e com o inverno à porta, a tecnologia poderá ter um papel relevante. Por exemplo, antes de se dirigir a uma urgência, através do seu seguro, a pessoa pode aconselhar-se e até obter uma prescrição médica e a entrega de medicamento ao domicílio.

A temática da saúde mental

Todos temos ouvido os alertas que a OMS tem dirigido relativamente ao aumento do consumo de ansiolíticos, a nível mundial.

Contudo, não há dia em que não se leia algo sobre a importância os da pandemia, dos efeitos do stress, do isolamento, dos casos de ansiedade e das depressões a tomarem proporções preocupantes.

Recentemente, o conceituado gestor António Horta Osório mencionava que “temos de olhar para a saúde mental como olhamos para a saúde física”.

E esta frase simples, relembra-nos a importância de repensarmos o papel deste campo da saúde, que veio adquirir ainda maior visibilidade, dado o forte impacto na produtividade, absentismo e custos de saúde para o próprio e para a sociedade.

Contudo nos seguros de saúde, os tratamentos do domínio da psiquiatria, psicologia, etc. sempre fizeram parte das alíneas de exclusões, total ou parcialmente, situação que urge também repensar.

A ameaça da insustentabilidade

A existência de seguradoras que estão a procurar encontrar soluções de conciliação que possibilitem um equilíbrio com a variável económica e protejam a sustentabilidade dos contratos é louvável e, absolutamente premente, mas ainda existe um longo caminho.

De acordo com os nossos estudos, a sustentabilidade é uma das grandes preocupações das empresas.

E 2020 trouxe consigo uma pandemia que parece longe de estar controlada e os números alertam para muitos meses de incertezas.

Tentar definir benefícios de médio-longo prazo, pode ser excessivamente ambicioso, mas a nível empresarial será certamente determinante refletir e reavaliar prioridades. Uma aposta nos cuidados de saúde mais críticos, na prevenção da saúde física e mental, a sensibilização para a gestão mais controlada do consumo, é uma mensagem que não é nova, mas que ganha importância.

A sustentabilidade é algo muito crítico, e não é líquido que o confinamento tenha gerado poupanças que não tenham ficado limitadas a esse período temporal. Se, por um lado, por força do confinamento, fomos levados a pensar que podemos ter um ano de ventos mais favoráveis às renovações por menos utilização do seguro, por outro estima-se o retomar desses tratamentos, com uma variável preocupante que é o desconhecimento do efeito desses adiamentos que poderão surgir com um padrão de maior gravidade e, consequentemente, mais onerosos.

De acordo com o nosso estudo 2021 Global Medical Trends Survey “perspetiva-se a retoma a comportamentos de gestão de saúde anteriores, ou até mesmo um aumento da procura e dos custos de saúde em 2021”.

Nos seguros das empresas, os momentos de renovação serão críticos e vêm reintroduzir, mais uma vez, novas variáveis no processo de decisão que não somente o prémio de seguro.

  • Natália Bernardo
  • Associate Director, Health & Benefits da Willis Towers Watson

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