Conta-me como não foi

  • Fernando Sobral
  • 14 Dezembro 2019

Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros, dizia que cair das nuvens era melhor do que cair do terceiro andar. Desde há muitos anos que os portugueses não sabem de onde se despenharam.

Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros, dizia que cair das nuvens era melhor do que cair do terceiro andar. Desde há muitos anos que os portugueses não sabem de onde se despenharam. Sabem, apenas, que ficaram com galos na cabeça e contusões em todo o corpo. E, ao contrário do Coiote dos desenhos animados, que depois de ser esmagado por pedras ou cair de um penhasco, fica pronto para outra aventura, as suas quedas causam dores. Em 1984 os portugueses estavam em trânsito entre algo que tinham sido, o que sonhavam que poderiam ser e aquilo que nunca se concretizaria. Os Lopes, os protagonistas de “Conta-ne como Foi” (RTP1, sábados), são os intérpretes do nosso agradável regresso ao passado. Os Lopes não são uma versão 2.0 da Família Adams. São uma família bem portuguesa. A série, com excelentes actores, é uma sólida adaptação do original feito em Espanha, e é estimulante. É uma série séria. Ao sê-lo, é um soco no estômago no sonolento país de brandos costumes, que alguns dizem sermos. Ideia falsa, porque a nossa história sempre mostrou o contrário. “Conta-me como Foi” poderia chamar-se “Conta-me como Não Foi” ou “Conta-me como Não É”. Porque os sonhos de 1984 foram incinerados ao longo de décadas. Saiu quase tudo errado. Em vez de sonhos, temos telenovelas reais com 800 episódios e actores sofríveis: a corrupção tentacular, um SNS anémico, uma Educação subnutrida, uma segurança interna nos cuidados intensivos.

Não era para ser assim. A década de 1980 começou com um truque de ilusionismo: a RTP deixava as emissões a preto e branco e passava a emitir a cores. Era a metáfora de um novo Portugal. Findo o ciclo do império, saradas algumas das feridas dos tempestuosos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, olhava-se para a Europa. Depois do FMI ter vindo, pela primeira vez, mostrar como se faziam contas de subtrair. Mas esses meados da década de 1980, como os Lopes nos mostrarão, foram um choque eléctrico. Só não se mexeu quem não queria arriscar. Na televisão, depois da liberalização dos costumes que “Gabriela” da Rede Globo trouxera, em 1982 surge a primeira telenovela portuguesa, “Vila Faia”. O modelo televisivo nacional, das décadas seguintes, ganhava o seu farol. Tornou-se uma indústria. E moldou o discurso televisivo nacional das décadas seguintes.

Agora vivemos tempos frenéticos no audiovisual no mundo. Nele juntam-se criatividade e economia cultural. As plataformas de “streaming” têm fome de produtos para exibir. Nelas descobrimos a produção americana, mas também séries polacas, romenas, finlandesas, islandesas. Porque não portuguesas? Porque será? Falta, claramente, uma estratégia a prazo, como fez a Dinamarca. Assente em dois motores: uma indústria de ficção televisiva, mas também, uma forte produção literária que a alimenta e que também se tornou uma “moda” global. Há ali “software” e “hardware”. Num investimento continuado e não ao sabor de tácticas e “árbitros do gosto” de cada momento. E Portugal? Há pelo menos duas décadas que oiço falar de uma “cidade do cinema”, mas tudo se esgota na “selfie” do momento. Continuamos a achar que a aposta na cultura é uma despesa e não uma receita de futuro. Olhe-se à volta: as indústrias criativas cresceram, no Reino Unido, 43% desde o inicio de 2016. Novos estúdos abriram em Londres, Gales, na Irlanda do Norte e em Liverpool, rodando séries para a Sky, BBC e a HBO. Na Escócia o governo financiou mais estúdios junto de Edimburgo. Há riscos: dificilmente a Netflix, a Amazon, a Apple e a Disney conseguirão manter os investimentos de milhares de milhões de dólares que têm feito para alimentar as suas plataforma de “streaming”, que precisam de constantes novidades. Terá Portugal unhas e guitarras para chegar a tempo a este mercado global? Porque, como mostrou a Dinamarca, isso não requer só estúdios. Necessita de estratégia. Coisa que, em Portugal, é um défice maior do que o da República.

Sugestão da semana:

Luís Miguel Cintra, depois do fecho da Cornucópia, está até 29 de Dezembro no Teatro da Marioneta, em Lisboa, com a peça “Canja de Galinha (com Miúdos)”. Com textos de Camilo Castelo Branco, Cintra refecte sobre o teatro de hoje. Criticamente, é claro.

  • Fernando Sobral
  • Jornalista

Uma carta aos nossos leitores

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No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

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