Criancices… ou talvez não

José Miguel Júdice analisa, no Jornal das 8 da TVI, dois temas que parecem uma expressão de comportamentos infantis. A Catalunha e a relação entre o Presidente e o primeiro-ministro.

Por questões de programação da TVI temos hoje menos tempo para as minhas perguntas – é pena, pois havia muito mais de que falar, sobre estes e outros temas -, mas estas são as naturais regras do jogo dos canais abertos – vamos em frente que temos dois temas graves, mas que parecem uma expressão de comportamentos infantis.

O primeiro tema é a Catalunha

Há dias, o embaixador Martins da Cruz resumiu a aparente loucura da estratégia de Puigdemont e seus amigos – eu não saberia fazer melhor, pelo que fico por aqui. Numa sociedade desenvolvida e complexa, o governo catalão tinha de saber prever o que veio a acontecer (e era óbvio, sobretudo a nível da União Europeia). Não o fazer é ir direito contra um muro, apenas se discutindo se com os olhos abertos ou fechados (ou seja, por estupidez ou com algum heroísmo).

Tinham de prever a unidade das forças políticas de âmbito espanhol, que estariam perdidos no resto de Espanha se o não fizessem, e, sobretudo, prever a lógica marcação de eleições para Dezembro. Não o fazer é colocarem-se numa situação em que todas as opções são más:

  • Ir a eleições: é transformar a declaração de independência numa farsa.
  • Não ir a eleições: é ficar durante quatro anos sem representação política alguma no território.

E agiram assim, sabendo que não têm maioria popular para a independência, e, ainda mais, que 65% da população quer continuar espanhola e catalã. Parece uma típica birra de crianças mimadas – batem o pezinho – estrebucham – não medem as consequências e depois sentem-se vítimas. Ou será que sabem o que estão a fazer? Em minha opinião, só pode ser isto.

Controlados pela alucinada extrema-esquerda anarquista/trotskista, pelo republicanismo jusqu’au boutiste e pela total incompetência dos moderados que se meteram num buraco (apesar de mais de metade dos seus eleitores quererem continuar espanhóis, ainda que com mais poder para a Catalunha), querem realmente ser derrotados e gritar: a Catalunha é uma colónia explorada.

O que significa isto? Temos pela frente anos de confusão e não me admiro que, do lado dos anarquistas/trotskistas, venham ações violentas, até parodiando as lutas de libertação das colónias nos anos 60 do século passado.

Para ajudar à missa, o Governo belga oferece asilo político a Puigdemont… e já está lá o Governo catalão no exílio. Ou seja, querem ser mártires e ficar na história pelos séculos dos séculos, e que se lixe o resto.

O segundo tema é a relação entre o PR e o PS de António Costa

Depois da humilhação pública que referi há uma semana, o PS e António Costa pareceram reagir infantilmente, viraram-se contra o PR, disseram que estavam chocados, chamaram-lhe jumento e possível ditador após um golpe de Estado… pareciam catalães. E isto não é um elogio.

Até aqui, tudo bem, ou tudo mal. Quem é humilhado tem de gritar um pouco para parecer um verdadeiro macho latino aos seus apaniguados. Mas depois, e como se não bastasse, de repente pareceu que tudo entrou numa espécie de jardim-escola (o PR entrou mesmo, como a televisão revelou, e falou para as crianças como se estivesse a falar para o PS).

O Presidente da República, que estivera excecional até aí, mais uma vez não foi capaz de parar. E de novo perdeu uma boa ocasião de ficar calado. Espetou um pouco mais a faca nas feridas a sangrar do primeiro-ministro, sugeriu que ele amuou (mais uma humilhaçãozita…), mostrou-se irritado com uma manchete do Público e até com reações das pessoas que, nos partidos, servem para estas coisas e a que por isso não há que dar muita atenção.

No fundo, as coisas são o que são, Marcelo desceu ao ring para luta livre com Porfírio Silva e Simões Ilharco, que assim tiveram o seu quarto de hora de glória. Mas António Costa também não se calou e começou a auto-elogiar-se (“nervos de aço”) e Rebelo de Sousa, em resposta, também se dedicou à autodefinição elogiosa (“sou determinado”, etc).

Como na Catalunha, o que isto parece são reações de crianças que não querem dar o braço a torcer, que querem aproveitar o momento favorável, que querem ser o último a cuspir.

Mas será só isso? Acho que não. Ambos sabem que precisam um do outro – como os catalães e os outros espanhóis. Mas ambos estão a atuar como há pouco anos ocorreu na Catalunha, achando que ganham algo com isso. O resultado aqui pode ser como lá.
– Ou então, como dizia um outro António Costa, no ECO, “António Costa não perdoará a independência de Marcelo, o Presidente sabe que não pode contar com nada de S. Bento”. -Seja como for, é melhor para ambos que o ECO não tenha razão, por isso, e parafraseando o que foi dito pelo Rei Juan Carlos a Hugo Chavez, “por que no se callan”?

E, claro, hoje todo este programa foi, afinal, um cantinho das tontices, o que dá jeito para acabar mais depressa…

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