Editorial

Da Champions à liga dos últimos

Vamos ter a Champions em Lisboa, mas na verdade disputamos a liga dos últimos. A jogar em pelados e aparentemente sem treinador. É tudo ao molho e fé em Deus.

No último sábado, o jornalista Filipe Santos Costa assinou mais uma newsletter semanal — o Novo Normal, que pode subscrever aqui — com o título “Isto está a descambar: Sem vacina nem cura“. Porque os sinais, o que vemos, o que lemos, o que ouvimos, nos fazem temer o pior, que traz de volta o medo. “Estamos num daqueles momentos em que, como no filme Match Point, a bola que ficou na rede tanto pode cair para um lado como para o outro. A vantagem, neste caso – refiro-me, obviamente, à pandemia da Covid-19 – é que não estamos dependentes da sorte, ao contrário do tenista do Woody Allen. Sabemos o que podemos e devemos fazer. Parece é que estamos fartos de o saber e de o fazer“.

Lisboa, temos um problema. Temos, mesmo, um enorme problema, e a narrativa do Governo e do cúmplice Presidente da República é desmentida em toda a linha pelos especialistas nas reuniões no Infarmed com a elite política. O Observador revelou que “tanto Baltazar Nunes, epidemiologista do Instituto Nacional de Saúde Pública, como Rita Sá Machado, da Direção Geral de Saúde, “desconstruíram o argumento dos testes”. E também é contrariada a tese de que os ajuntamentos de jovens é outra explicação para o que se passa na Grande Lisboa, porque a coabitação, o trabalho e só depois o contexto social, sendo que, aqui, os transportes públicos são a principal explicação.

Fernando Medina deixava, há dias, críticas implícitas à DG Saúde (sem criticar o Governo, claro) porque se perdeu o controlo dos focos e cadeias de contaminação. Não se perdeu só isso, perdeu-se muito mais. Perdeu-se o norte. Do ‘milagre’, que nunca foi, o primeiro-ministro deixou-se embalar pelo sucesso, pelas sondagens. Agora, haverá um regresso ao estado de calamidade, quem sabe de emergência, o confinamento, o discurso do medo e do policiamento. Quando todos nos lembrámos do 1 de maio, do espetáculo do Campo Pequeno, das manifestações que, estando do lado certo da ideologia e do lado partidário certo, e puderam ser realizadas sem qualquer distanciamento social ou censura pública.

O desnorte está instalado, mas não é só na política de saúde pública. O Banco de Portugal antecipa uma recessão superior a 13% se houver uma segunda vaga. É isso que se vive hoje na Grande Lisboa? Há especialistas a dizerem que sim. Na economia, a degradação das condições económicas acelera, de mãos dadas com o aumento do números de inscritos no instituto de emprego, que já ultrapassa os 400 mil, além de cerca de 800 mil em lay-off, com corte significativo do rendimento. Mas neste orçamento suplementar não se vê o dia seguinte. E para tantas empresas e famílias nem o dia presente. O Governo prolongou a moratória das dívidas à banca até março de 2021, mas considera que não é necessário prolongar, para o mesmo período, o diferimento no pagamento de IRS e Segurança Social, como se a atividade económica em julho tivesse recuperado para os níveis pré.covid-19. À semelhança da incompetência na gestão da saúde pública, o Governo espera pelas falências e pelo incumprimento para, depois, tomar decisões?

E na educação? Não é só a incompetência, é mesmo criminoso, como escrevia há dias a economista Susana Peralta. Depois da pressão mediática, como na saúde e na economia, o Governo vem sinalizar que vai reabrir as aulas na segunda quinzena de setembro — porque os meninos precisam de férias, claro, e nem há matéria para ser recuperada. E finalmente, a reboque, o primeiro-ministro anuncia que as primeiras semanas servirão para recuperar o tempo perdido neste ano letivo. Mas como? Com que professores? Com que dinheiro?

Vamos ter a Champions em Lisboa, mas na verdade disputamos a liga dos últimos. A jogar em pelados, sem o ‘ronaldo das finanças’, aparentemente sem treinador. E com uma estratégia conhecida: Tudo ao molho e fé em Deus.

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