Do Web Summit a Moimenta da Beira

Para lá do folclore de cada “mundo”, das gravatas de uns e das t-shirts e ténis dos outros, tudo acaba nisto: o que eu tenho para oferecer resolve um problema ou cria satisfação em alguém?

E agora para algo completamente diferente. Foi assim que me senti esta semana quando, por capricho do acaso, saí directamente do Web Summit para outro fórum que, na nossa percepção, está nos antípodas daquele.

Este foi promovido pela Norgarante, realizou-se em Viseu e, durante quase três horas, discutiu “Empresas e territórios pela competitividade” perante cerca de duas centenas de pessoas. Para a conversa estavam representantes de um grupo que nasceu da construção civil, de uma empresa metalúrgica, do sector dos vinhos e da banca.

O primeiro impulso pode ser o de olhar para estes sectores, todos tão “século XX” e a ser discutidos no interior, e decidir à partida que estamos a tratar de dois mundos completamente diferentes. Nada pode ligar o pó do cimento, a ferrugem e o melaço do mosto ao evento global que ocorreu em Lisboa, “high tech” até dizer chega, alcatifado, cheio de oradores que são estrelas planetares e virado para a frente.

O primeiro equívoco é que, para lá das aparências, estes mundos não são paralelos e têm mais pontos de intersecção do que se julga. Depois, esse equívoco de base leva-nos a tratá-los – decisores públicos, media – de forma diferenciada e a agirmos como se se tratasse de dois ramos muito distintos da família que não gostamos de misturar para não causar constrangimentos a ninguém. E isso só vai prolongando os equívocos e, pior do que isso, atrasando a contaminação positiva que pode e deve haver entre os sectores ditos tradicionais e os negócios mais tecnológicos, ágeis e inovadores.

Querem ver? A Insercol é a empresa metalúrgica que referi. Fabrica estruturas metálicas, tem sede em Moimenta da Beira (não conhecem? É no interior do interior) e os anos da crise – entre 2009 e 2011 – foram aqueles em que mais cresceu, sempre nos dois dígitos. Porquê? Porque antes disso tinha contratado designers, diferenciou a sua oferta acrescentando-lhe valor, também através de novos materiais. Ganhou negócios no exterior, onde já faz 20% da facturação. Agora, sinal dos tempos, estão a diversificar para o negócio da energia solar.

Os vinhos do Dão estão a dar a volta, depois de terem quase desaparecido dos radares quando o Alentejo e o Douro se renovaram. O sector sofreu uma enorme transformação, com a saída de operação de muitas cooperativas, que foram substituídas por produtores mais dinâmicos, com maior sentido de marketing, métodos modernos de produção e uma melhor percepção do gosto do consumidor. Mas sempre fiéis às castas diferenciadoras da região.

O tal grupo que nasceu da construção civil tem hoje uma parte importante dos seus negócios nas telecomunicações e turismo e chama-se Visabeira. Cresceu, diversificou e tem dois terços do negócio feito no exterior – agora sobretudo na Europa, porque as conjunturas angolana e moçambicana já não são as mesmas. A sede mantém-se em Viseu, onde está o maior número de trabalhadores do grupo, que prestam o apoio em serviços partilhados para a operação global.

E quem paga isto tudo? Uma parte devem ser capitais próprios, como mandam as regras de uma estrutura financeira saudável, mas depois existe a banca que, muitas vezes com o sistema de garantia mútua, quer que bons projectos lhe cheguem para os poder financiar. Afinal, é esse o negócio do sector e é aí que ganham dinheiro.

Traduzindo isto tudo para “web summitês”, o que tínhamos ali era o “design thinking” na prototipagem, a consolidação de um sector e a recolha de dados de “consumer experience” (ou mesmo “consumer X” para os amigos), um processo de “scaling up” com diversificação e, claro, o necessário “funding” porque nada se faz sem dinheiro.

Com esta caricatura não quero mais do que sublinhar que a essência dos negócios, dos factores de competitividade, das estratégias empresariais e do que separa o sucesso do insucesso são sempre as mesmas, independentemente de estarmos a falar de um sector tradicional ou de uma nova tecnologia, produto ou serviço que ainda não chegou ao mercado. Para lá do folclore de cada “mundo”, dos seus hábitos e formas de estar, das gravatas de uns e das t-shirts e ténis dos outros, tudo acaba nisto: o que eu tenho para oferecer resolve um problema ou cria satisfação em alguém? E fá-lo de forma eficiente e a preços competitivos que as pessoas estão dispostas a pagar? E onde é que vou buscar dinheiro para concretizar isto?

Os mundos que aparentemente são diferentes só ganham em misturar-se. Tradicional e “trendy”. Litoral e interior. Urbano e rural.
Não por acaso, são muitas as grandes empresas, marcas estabelecidas da área industrial, financeiras ou de serviços, que estão a realizar os seus próprios “aceleradores” de ideias e de projectos de negócio que façam sentido à sua actividade, procurando uma capacidade de inovação que muitas vezes não têm condições de fomentar internamente.

Do mesmo modo, um apoio importante aos promotores de “startups” é dado pelos mentores, em regra pessoas com muita experiência e conhecimento nas mais diversas áreas, da tecnologia ao marketing, da finança aos recursos humanos, da comunicação ao processo industrial.

A Uber pode ser uma aplicação fantástica mas não existiria se antes disso não existissem os moldes de plástico tradicionais – que provavelmente até são feitos na região de Leiria – que permitem fazer a estrutura de um smartphone. Ou sem a “velhinha” indústria automóvel.

Mas há ainda outro factor transversal a tudo isto: as políticas públicas e a sua qualidade. A realização do Web Summit em Portugal acontece por uma decisão política do anterior governo que este decidiu continuar, e muito bem. É uma política pública que faz todo o sentido. O Estado investir 1,3 milhões de euros por ano para ter esta exposição e este posicionamento internacional é uma pechincha. Pode dizer-se que é uma política pública de fácil execução e grande efeito: passa-se um cheque e são agentes privados que fazem o resto. É verdade. O sucesso do Web Summit não exige de nós aquilo em que, muitas vezes, somos fracos (o exemplo da floresta aí está para o demonstrar): planeamento a longo prazo, capacidade de execução, força para contrariar grupos de interesse particulares, avaliação e correcção da estratégia.

E isso é que é fundamental alterar radical e urgentemente. Sem planeamento e alinhamento dos agentes públicos, muito do investimento que está a ser feito será ineficiente. O investimento público é, muitas vezes, deitado fora. E o investimento privado precisa do dobro do esforço para ser competitivo e rentável.

Muito mais do que no comportamento dos agentes privados, a maior diferença entre o país do Web Summit e o país real está mesmo aí: o primeiro beneficia de uma política pública que é eficaz e com retorno porque já nos foi apresentada “pronto a vestir”; e o segundo está depende essencialmente da nossa própria capacidade para a desenhar e executar.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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