Depois de um mês de trabalho

  • R. Coimbras
  • 12 Fevereiro 2019

Não importa em que área do trabalho está a exercer, o que importa é que enquanto dirigente e/ou colaborador de uma empresa, não tenha medo de arriscar.

Uma notícia histórica para o desporto. Um atleta com paralisia cerebral tornou-se no primeiro a assinar um contrato profissional com uma das marcas mais importantes do mundo. O jovem chama-se Justin Gallegos.” – RTP Notícias

Depois de um mês de trabalho, a um ritmo verdadeiramente alucinante, vendo entrar em produção um dos projetos de IT mais importantes da minha carreira de informático, estava enfim descansado no meu sofá, que há muito tinha dado pela minha ausência, a tentar retemperar as forças que sempre são necessárias para enfrentar os desafios de amanhã…

Estava descontraidamente a ver as notícias, quando fui surpreendido pela notícia do jovem americano, de seu nome Justin Gallegos, que tinha acabado de celebrar um contrato de patrocínio com uma grande marca desportiva. “Até que enfim que chegam notícias positivas da terra do tio Sam!”

Enquanto a notícia ia passando, reparei que o atleta estava em grupo, um grupo a quem não foi dado grande destaque mas que, assim à primeira vista, parecia ter uma enorme cumplicidade entre todos eles.

Para a esmagadora maioria dos leitores deste artigo, em especial para quem ter por hábito correr e participar em provas de atletismo, fazer 21 km de uma mini maratona em 2 horas e 3 minutos, está muito longe de ser um tempo brilhante. Aliás, o próprio recorde da maratona (o dobro da distância), foi este ano batido e ficou em 2 horas, 1 minuto e alguns segundos.

Mas o tempo/distância, não são de todo o foco em questão! A questão aqui é todo o esforço, empenho, dedicação e capacidade de sacrifício que é necessário ter para conseguir fazer uma mini maratona, tendo um corpo que acrescenta dificuldades às próprias dificuldades que uma corrida destas acarreta.

Não tenho competências para aferir qual dos dois atletas teve de fazer mais esforço para conseguir atingir os seus objetivos mas, para já, vou, no mínimo, colocá-los em pé de igualdade.

E é aqui que eu quero chegar! Com tempos e distâncias completamente diferentes, esse não é nem deve ser nunca o valor de comparação entre as pessoas com deficiência e o resto da população. Os fatores a considerar terão de ser forçosamente outros, faseados sempre, no mérito, empenho e dedicação.

E a Nike percebeu isso, e este contrato é tão somente o reconhecimento dos fatores que falei.

Não sei qual é o valor financeiro do contrato de patrocínio entre a Nike e o Justin. Agora, sei que o valor desta notícia — espalhado por diversos países por este mundo fora –, faz muito mais pela marca do que um outro contrato de publicidade, com um qualquer outro atleta dito normal, seja lá isto o que queira dizer.

E este é o ponto onde quero chegar agora com este artigo. Caro leitor, não importa em que área do trabalho está a exercer, o que importa é que enquanto dirigente e/ou colaborador de uma empresa, não tenha medo de arriscar e fazer contratos com pessoas com algum tipo de deficiência (onde está incluída obviamente a paralisia cerebral).

Podem, eventualmente, a quantidade, o tempo, a distância ou outro qualquer medidor qualitativo, não ser os mesmos de um colaborador “normal” mas, pode ter, ao seu lado, alguém que todos os dias está a tentar dar o seu melhor, numa “corrida” muitas vezes desigual, mas onde tudo é feito para que as diferenças se embatam.

Isto é justiça, ou seja, dar a pessoas diferentes, oportunidades de emprego e afirmação sócio profissional igual, mesmo que tenha de haver uma redistribuição diferenciada de recursos entre colaboradores, no sentido da procura da real igualdade entre ambos.

Tal como na peça, é notória a cumplicidade de um grupo, que tendo provavelmente objetivos, distâncias e tempos diferentes de corridas, todos são solidários, e mais do que solidários, cúmplices na realização de um objetivo comum.

Este não é, nem nunca será um processo ou projeto sozinho. Quem assim pensar, vai no caminho errado, a caminhar sozinho. É um processo que tem de envolver toda uma comunidade (social/empresarial) e este é o desafio que queria lançar a si, que teve a paciência de ler este artigo até este ponto, no sentido de transformar a sua empresa num local inclusivo e, mais do que inclusivo, num local onde pessoas com deficiência possam fazer parte do ecossistema produtivo!

Poderá não ser um desafio fácil para quem está arredado destes temas, mas não há como não tentar e dar o benefício da dúvida e arrancar com projetos na área da responsabilidade social, projetos esses que podem fazer a diferença na vida de muitas pessoas.

Escreveu este artigo um cidadão com paralisia cerebral, com 48 anos de idade, já com 24 anos de serviço, quer no setor público do Estado, quer no setor privado (desde ano 2000) que tem tido a oportunidade de trabalhar em duas empresas multinacionais, e que tem tido na sua chefia e nos seus colegas de trabalho, todo o suporte e cumplicidade necessárias para termos, em conjunto, feito este percurso. No final do dia, saímos todos a ganhar!

#euquerosernic(k)e

  • R. Coimbras

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