Desta vez (também) não deu certo!

O socialismo não é apenas um embuste. É mais que isso. É algo em que só se pode acreditar se se tiver uma Fé imensa

A Venezuela está a ferro e fogo. De um lado a vontade popular e um líder que constitucionalmente será o líder da nação (Guaidó). Do outro um ditador que, juntamente com a sua corte, vive no luxo, enquanto a maioria da população sobrevive na miséria (criada em grande medida pelo regime de Chavez e Maduro). A Venezuela é apenas mais uma prova de que o socialismo (comunismo) não funciona. É a n-ésima prova disso. Mas mesmo assim, há muita gente por esse mundo fora que continua a acreditar no socialismo.

Isto mostra como o socialismo (nas suas variantes, sejam de marxismo-leninismo, ou de trotskismo, estalinismo, maoismo, etc., que a seita é profícua em criar ismos, em função do louco que escolheram seguir), não é apenas um embuste. É mais que isso. É algo em que só se pode acreditar se se tiver uma Fé imensa. No fundo, o socialismo é uma religião (embora tenha nascido como algo que se oponha àquilo que Marx designava como o “ópio do povo”).

Dir-me-ão que aqueles que acreditam em Deus sofrem do mesmo problema. É exatamente o oposto. Aqueles que como eu, acreditam em Deus (Católico, ou de outra religião), têm uma enorme vantagem sobre os socialistas. É que se nós nunca vimos Deus (alguns dizem que sim, mas não convém dar muito crédito a isso), também é verdade que nunca ninguém demonstrou inequivocamente que Deus não existe.

Ora com o socialismo é exatamente o oposto. Há já um número suficiente de observações para que estatisticamente possamos rejeitar a crendice de esquerda. Entre 1917 e 2018 haverá seguramente mais de 60 experiências a nível de países que adotaram o socialismo (numa das suas vertentes). Pode não parecer muito, mas a amostra tem vários aspetos que reforçam a sua robustez: tem um horizonte temporal longo (cem anos) e a maioria das experiências tem também um horizonte temporal longo (20 a 40 anos). É dispersa geograficamente (já foi tentado na Europa, Ásia, África e América Latina). Foi tentado em diferentes vertentes. Cada experiência é independente da outra, dado que é realizada num país diferente, com a orientação de líderes diferentes. Mas nunca deu certo. Claro que de cada vez que dá errado, os seguidores da seita juntam-se e declaram “aquilo não era socialismo”. Apenas uma Fé muito fanática pode aguentar os sucessivos embates com a realidade.

Ora, do ponto de vista estatístico, em 60 observações em que o resultado possível é falhar ou não falhar, estamos perante uma distribuição binomial. É como atirar uma moeda ao ar. Se atirarmos a moeda uma vez, sairá cara ou coroa. Se atirarmos muitas vezes, cerca de metade das vezes terá de sair cara e a outra metade sairá coroa. O que diríamos de uma moeda que atirada muitas vezes, saísse sempre cara? Que estava “viciada”. Isso parece tão evidente que não merece discussão.

Só que quando olhamos para todas (repito, todas) as experiências socialistas, todas (repito, todas) falharam. Na Europa de Leste. Na América Latina. Em África. No Vietname e no Camboja. Na Coreia do Norte (embora mantendo-se no poder, o nível de miséria e atraso do país rotula-o como mais um insucesso). Onde quer que a charlatanice tenha sido tentada.

Ora, o socialismo falha, grosso modo, por dois motivos:

Primeiro, por ser um modelo de sociedade sem liberdade. Isso é contrário à natureza humana, e sobretudo, aos tempos modernos. Desde a Revolução Inglesa e Francesa, mas sobretudo da Revolução Industrial, que os povos perceberam que não tinham de ficar sob o jugo do Rei absoluto ou dos senhores feudais. No socialismo, a liberdade é primeiro condicionada e depois abolida. Já Lenine dizia que “a liberdade é tão preciosa que deve ser racionada”.

Segundo, por ser um modelo económico totalmente errado. A economia são incentivos e escolhas, que levam a uma solução o mais eficiente possível. Nem sempre é a solução mais eficiente (por exemplo o “dilema do prisioneiro”). Mas no socialismo os incentivos estão todos errados, pelo que as escolhas são também as erradas, levando a níveis de ineficiência brutais e que acabam por consumir os recursos de qualquer país. Foi o que sucedeu na União Soviética. Os vastos recursos do país permitiram aguentar o regime comunista durante algumas décadas. Mas quando os recursos se esgotaram, a fraude ficou exposta. As filas para comprar produtos básicos e comida tornaram-se rotineiras a partir de meados dos anos 70.

Mas direi até mais: há vários países capitalistas que não são uma Democracia. Mas não há uma única Democracia que não seja um país capitalista. Falarei disso em breve: como o capitalismo é essencial para a existência de uma Democracia.

Mas vemos a fraude do socialismo mais uma vez na Venezuela. Um país com abundantes reservas de petróleo. Enquanto o preço do crude esteve muito alto, isso foi tapando os erros de política económica de Chavez e de Maduro. Mas a incompetência e a incúria estavam lá há muito tempo. Em 2018, a Venezuela produziu pouco mais de 1 milhão de barris por dia. Há 20 anos a produção diária ultrapassava os 3 milhões.

A Venezuela é hoje um Estado falhado. Com elevados níveis de miséria, em que parte substancial do seu povo vive com enormes dificuldades para comer e subsistir. Mais de 2 milhões de Venezuelanos fugiram do país. Mas ninguém tem coragem para lhes chamar refugiados. Creio que só a Síria terá hoje mais refugiados. Mas a ONU não se mostra capaz de sequer trazer o tema para o centro do debate mundial. A Venezuela tem hoje uma hiperinflação e uma moeda que pura e simplesmente deixou de ter valor. O PIB caiu mais de 20% no último ano.

Ora, aquilo que Chavez e Maduro fizeram nos últimos 20 anos foi exatamente a fórmula que a extrema-esquerda em Portugal sempre defendeu e continua a defender. Nacionalizações e controlo do Estado de quase toda a economia. Controlo absoluto do pensamento marxista nas salas de aula, da primária à universidade. Um Estado omnipresente. E sem liberdades para quem se opõe. Uma legislação laboral extremamente rígida. Total hostilidade para com a iniciativa privada e o investimento privado.

Como era óbvio para qualquer pessoa com o mínimo de bom senso e conhecimentos de economia, a Venezuela não ia dar certo. Como não deu certo nenhum dos outros países comunistas. Só mesmo os fervorosos adeptos da seita é que podiam acreditar que aquilo teria um final feliz. Não teve. Nunca vai ter. Desta vez também não deu certo!

Mas estranhamente no mundo muita gente continua a acreditar no socialismo. Aqui há umas semanas li que numa sondagem no Reino Unido, uma em cada vinte pessoas não acreditava no Holocausto Nazi. Isso obviamente é estúpido. O Holocausto está perfeitamente documentado como um crime hediondo, uma bestialidade que condena os seus carrascos para todo o sempre.

Mas se fizermos uma sondagem exclusivamente com pessoas que militam no PCP e no Bloco de Esquerda, querem apostar como vinte em cada vinte pessoas dirá não conhecer o Holodomor (a grande fome na Ucrânia, em que Estaline condenou milhões à morte nos anos 30). Vinte em cada vinte dirá que desconhece as purgas estalinistas de 36-39 ou as pós 2ª Grande Guerra. Vinte em cada vinte dirá que nunca leu “o Arquipélago de Goulag” ou “Um dia na de Ivan Denisovich” de Alexandre Solzhenitsin. Vinte em cada vinte dirá que o socialismo trouxe maravilhas no Leste da Europa e que o muro de Berlim ou a cortina de ferro era para impedir os ocidentais de fugir do Capitalismo e ir para o “céu na terra do Socialismo”. Vinte em cada vinte dirão desconhecer os horrores e as dezenas de milhões de mortos provocados por décadas de governo de Mao na China e as loucuras do “grande salto em frente” e da “revolução cultural”, ou as atrocidades de Pol Pot.

A coisa devia ser simples de entender, mas aparentemente não é por muita gente. Há um livro que brinca com a simplicidade com que deveríamos todos perceber que o comunismo não funciona. O livro tem o título “porque o socialismo funciona”.

E a resposta é percetível por qualquer criança de 6 anos que já tenha aprendido a ler. Ao longo de 170 páginas a resposta é dada numa única frase em cada página: “Não funciona”.

Post-scriptum: No próximo fim de semana publicarei aqui no ECO um ensaio sobre o meu próximo livro (estará nas bancas dentro de duas semanas) chamado “A reforma das Finanças Públicas em Portugal”. O livro é apoiado pelo Instituto Sá Carneiro e pela Fundação Adenauer. Mas naturalmente só me compromete a mim. É a minha posição pessoal sobre o tema, fruto de reflexão e trabalho nestas áreas. Naturalmente, defenderei as minhas ideias aquando da elaboração do programa eleitoral do PSD. Mas como em qualquer partido democrático, o programa eleitoral do PSD será a conjugação de várias vontades e opiniões, representando a abrangência plural que sempre o caraterizou.

Este sábado, o Expresso trouxe uma notícia sobre o livro. O livro procura refletir sobre a necessidade de criar um consenso em torno do equilíbrio orçamental e da necessidade de redução da dívida pública, mas também em torno da necessidade de reforma dos serviços públicos e de reformar a gestão financeira do setor público. No livro, tal como já o fiz aqui várias vezes no ECO, defendo que parte do esforço de consolidação orçamental deveria passar por repor o IVA da restauração a 23%, dado que como defendi aqui, essa medida foi um erro de política económica.

Isso não é obviamente a defesa de um aumento da carga fiscal! Pelo contrário. Tenho dito que não será possível reduzir muito os impostos, dado o baixo crescimento da economia e a elevada dívida pública, mas tenho advogado que terá de haver, dentro do que for possível, um ligeiro alívio fiscal das empresas e das famílias. É essa a minha posição. E a posição do PSD é inequívoca: sem comprometer o equilíbrio das contas públicas e a qualidade dos serviços públicos, o Estado deve procurar aliviar as empresas e as famílias da elevada carga fiscal que suportam e deve usar a política fiscal para promover a competitividade da economia e o investimento e a poupança.

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