Destruição criativa?

Desde o robô que dá conselhos médicos, ao robô que já escreve notícias de jornal, ao algoritmo que corrige testes de universidade, que faz a gestão corrente de uma empresa há de tudo um pouco.

O Governo português acaba de publicar em Diário da República a portaria que regula o novo programa do Ministério do Trabalho, do Emprego e da Segurança Social e que vai pela designação de “contrato-emprego”.

Trata-se, conceptualmente, de uma medida de apoio à contratação ou, melhor dito, de um conjunto de subsídios públicos à contratação privada. As empresas que contratarem “para o quadro” receberão um maior subsídio do Estado. Para além disso, as que também contratarem “públicos desfavorecidos” tais como refugiados, ex-reclusos, ou toxicodependentes em recuperação, receberão mais ainda.

Noutras paragens do mundo, no norte da Europa, a Finlândia acaba de iniciar uma experiência junto de um pequeno conjunto de desempregados. A experiência consiste em atribuir-lhes durante dois anos um subsídio mensal igual ao nosso salário mínimo, independentemente da sua evolução laboral. Assim, quer continuem desempregados, quer arranjem um emprego, aqueles finlandeses receberão na mesma o subsídio durante dois anos. Chama-se a isto “universal basic income” (UBI), um conceito até agora académico, mas que gradualmente começa a ser posto em prática. Os dois exemplos anteriores, suportados numa lógica de subsídio, por oposição a uma lógica de incentivo, cruzam-se e têm um ponto em comum: representam formas de contrariar a disrupção que a tecnologia vai hoje perpetrando sobre inúmeras ocupações profissionais em particular, e sobre o emprego em geral.

Habitualmente, a inovação é valorizada na sua faceta mais benevolente. É a inovação que origina e promove a eficiência e a produtividade na economia. Que faz as nações prosperarem. É aquela que liberta a “destruição criativa” de Schumpeter, a que destrói o “statu quo”, passado e ultrapassado, construindo de seguida um mundo de novas oportunidades. De novas ocupações. De novas empresas. De novos empregos. Que tira milhões da miséria. Que contribui para baixar o preço de bens e serviços, tornando-os disponíveis a consumidores que antes não os poderiam adquirir ou deles usufruir. Socorrendo-me do título de um livro de Jeremy Rifkin, isto é “A Sociedade do Custo Marginal Zero” (um livro editado em Portugal pela Bertrand Editora). É a visão optimista.

Mas há também uma visão pessimista, que vê a inovação como ameaça. Ora, a propósito da ameaça, tem-se discutido muito a origem dos movimentos populistas que vamos observando na Europa e que conduziram também à eleição de Trump na América. Em geral, atribui-se-lhes como causa a globalização que, supostamente, estará na base da desigualdade que alimenta o populismo político.

Porém, entre os estudiosos destas matérias, é frequentemente apontado que a verdadeira causa da desigualdade poderá antes residir na inovação que, tendo contribuído com um conjunto alargado de benefícios, está também a prejudicar um vasto universo de novos desempregados, de novos precários. Um desajustamento de “skills”, sem que no imediato exista uma compensação de novos empregos para velhos “skills”. E isto numa altura em que a tecnologia vai penetrando cada vez mais no domínio dos serviços, aumentando acentuadamente o número de profissões à mercê da modernidade.

Os avanços que hoje observamos na inteligência artificial, na linguagem natural, na robótica, na impressão 3D, no “big data”, na internet das coisas, na realidade virtual, entre tantas outras, têm tanto de fascinantes como de inquietantes.

As alterações estruturais que estão em curso são verdadeiramente imensas e de alcance indeterminado. A título de exemplo, ainda há dias a revista The Economist nos dava conta disto mesmo com um magnífico artigo sobre a nova “super fábrica” de uma conhecida multinacional alemã de calçado desportivo, cujo sugestivo subtítulo era “making trainers with robots and 3D printers”. As implicações apontadas no artigo eram múltiplas, e não se resumiam apenas à tecnologia de produção ou à evidente “optimização” de recursos humanos por ela permitida.

Na verdade, todo o ciclo de produção e distribuição da indústria poderá vir a alterar-se em função da mudança descrita. Ao mesmo tempo, o que dizer das notícias que o ECO e outros media nos têm trazido sob a etiqueta “Tecnologia”? Desde o robô que dá conselhos médicos, ao robô que já escreve notícias de jornal, ao algoritmo que corrige testes de universidade (não apenas de respostas a perguntas de escolha múltipla, mas também a perguntas de desenvolvimento), ao algoritmo que faz a gestão corrente de uma empresa, ao que negoceia em bolsa, ou ao meu preferido – o exosqueleto –, há, enfim, de tudo um pouco, não faltando literatura interessantíssima a pretexto da qual recomendo vivamente o livro “Rise of the Robots” de Martin Ford (editado em Portugal, novamente, pela Bertrand Editora).

Em suma, os populismos que vão emergindo, e que frequentemente são difusos e incompreendidos, poderão ser uma revolta popular contra a evolução potenciada pela tecnologia e pela inovação. Serão porventura receios da incompreensão que resulta deste mundo novo. Talvez uma revanche contra o futuro, mas, ao mesmo tempo, por um passado que dificilmente regressará.

Nesta matéria, reconheço em mim sentimentos ambivalentes. Por um lado, a convicção na visão optimista. Por outro lado, o facto de não poder ignorar o ritmo avassalador desta revolução digital, desconhecendo-se (como não poderia deixar de ser) o ponto de chegada de toda esta locomoção digital. Não quero com isto dizer que iniciativas governamentais do tipo “contrato-emprego”, ou do tipo UBI, sirvam de muito. Bem pelo contrário: têm mais defeitos que virtudes.

A ideia de um subsídio à contratação “para o quadro” traduz-se numa visão anacrónica das relações laborais. E parece-me também inconcebível que o futuro possa ser um de rendimento permanentemente subsidiado pelo Estado ou, no limite, um de permanente ócio – mesmo num futuro em que os algoritmos e as máquinas, para além de capacidades de execução, passem também a ter capacidades de adaptação e de aprendizagem (o que sendo algo assustador, é também, do que leio, algo ineludível).

Porém, e aqui concluo, não deixo de me questionar: se a revolução industrial conduziu à industrialização e a globalização ao comércio, e se as sociedades avançadas evoluíram gradativamente do sector primário para o terciário, para onde nos leva então a digitalização? A um quarto sector? Onde estarão os empregos de amanhã? No planeta Terra ou em Marte?

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