Disputa no PSD: Moreira da Silva 1, Montenegro 0

Continua a existir um espaço político à direita que não se esgota na ideia do Estado mínimo dos Liberais, nem no populismo xenófobo do Chega.

O PSD vai a votos a 28 de maio. Frente a frente vão estar Luís Montenegro e Jorge Moreira da Silva. Os dois candidatos a líder têm algumas coisas em comum: são da mesma geração (com uma diferença de um ano), seguiram as profissões dos respetivos pais, um é engenheiro e o outro é jurista, têm uma visão semelhante sobre a economia e, na política, são os dois “passistas”.

Montenegro mostrou qualidades de tribuno quando foi líder parlamentar de Pedro Passos Coelho e Moreira da Silva, ex-ministro do Ambiente de Passos, consolidou um pensamento e uma estratégia sólida para o país a partir do seu think-thank Plataforma para o Crescimento Sustentável.

Mas afinal, o que diferencia um do outro? Um joga à bola melhor do que outro. Quando apresentou este sábado a sua candidatura em Santa Maria da Feira, Luís Montenegro fez questão de recordar o seu passado como praticante de futebol no distrito de Aveiro: “a minha especialidade é rematar à baliza e marcar golos”.

Além dos dotes futebolísticos, o que diferencia Montenegro e Moreira da Silva? Moreira da Silva, ao contrário de Rui Rio e de Luís Montenegro, nunca teve grandes ambiguidades em relação à extrema-direita.

Há um ano foi claro em relação ao que vinha, ou melhor, ao que não vinha: “Nunca, jamais em tempo algum o PSD deve coligar-se, entender-se, dialogar, negociar com um partido que é racista, xenófobo, extremista e radical. Essa é a minha linha vermelha”.

Esta posição contrastou com uma ambiguidade permanente de Rui Rio em relação ao Chega e que lhe custou uma derrota estrondosa nas legislativas de janeiro.

A Rio seguir-se-á Montenegro ou Moreira da Silva. Na semana passada, quando apresentou a sua candidatura à liderança do PSD, o ex-diretor da OCDE foi novamente cristalino sobre o partido de André Ventura: “Comigo, não. Na casa do PSD não cabem racistas, xenófobos e populistas”.

Foi este “não” que Rui Rio nunca soube dizer em relação à extrema-direita e isso assustou o eleitorado moderado. O próprio Rui Rio, quando esteve no Conselho Nacional do PSD a seguir à derrota de 30 de janeiro, reconheceu muito voto útil à esquerda, sobretudo por causa do medo em relação a um possível entendimento do PSD com o Chega. Pode também ter havido medo da IL, com quem Rio admitiu falar, e isso também pode ter reforçado ainda mais a concentração de votos no PS, sugeriu na altura Rui Rio.

O “não” de Rui Rio nunca foi um “NÃO”. Foi sempre um “não, mas”, um “não, contudo”, um “não” envergonhado, o mesmo “não” ambíguo com que Luís Montenegro aparentemente encara a questão.

Este fim de semana, confrontado com o tema de eventuais relacionamentos com a direita xenófoba, Montenegro disse estas três frases:

  1. “Eu não vou olhar para os partidos que estão à direita do PSD como adversários a pcombater. Esqueçam isso. O meu PSD é o PSD que quer dar ao País uma alternativa de Governo.”
  2. “Eu não tenho nenhuma ambiguidade. O meu adversário chama-se António Costa, chama-se PS.”
  3. Montenegro insistiu ainda que não quer vencer o Chega, que “tem o seu espaço”.

Se a posição de Rui Rio gerava desconforto por causa da ambiguidade em relação ao Chega, a posição de Montenegro causa arrepios ao eleitorado moderado. Não quer combater o Chega, defende que o Chega “tem o seu espaço”, e o que o inimigo a abater é António Costa.

Luís Montenegro, aparentemente, não hostiliza porque quer ir buscar eleitorado ao Chega. “Quero que as pessoas que também votaram noutros partidos, como a Iniciativa Liberal e o Chega, acreditem que no PSD têm a esperança da resposta às preocupações que motivaram esse seu voto”, explicou Montenegro, este fim de semana, na Ovibeja.

Moreira da Silva não foi à Ovibeja, mas chamou os bois pelos nomes. Moreira da Silva não é ambíguo, é objetivo, e anda, ao invés, à procura de uma direita moderada e ao centro. Não cometeu o erro político de chamar “deploráveis” aos eleitores do Chega — como Hillary Clinton fez em 2016 ao falar sobre os apoiantes de Trump, — mas traçou uma linha vermelha objetiva que coloca o Chega fora de jogo se ganhar a liderança do PSD. A disputa no PSD mal começou, mas nesta altura um dos candidatos já leva vantagem: Moreira da Silva 1, Montenegro 0.

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