DJs de Ramallah

Eleições em Israel. No complexo xadrez do Médio Oriente, Binyamin Netanyahu é Primeiro-Ministro de um estado improvável com uma geografia impossível.

Israel é uma democracia próspera que desconhece o sentido da palavra paz, mas que se tornou exímio em garantir a segurança face à ameaça existencial. Com o espectro nuclear do Irão no horizonte, e apesar do outlet do Hamas na Faixa de Gaza, Israel congela politicamente o conflito Israelo-Palestiniano. Na dinâmica da diplomacia não existe espaço para a solução de dois estados, sendo que a cada dia que passa a pressão do Likud cresce no sentido da anexação da Margem Ocidental. Com o apoio incondicional do Presidente Trump, quer pela mudança da Embaixada para Jerusalém, quer pelo reconhecimento da anexação dos Montes Golan, quer ainda pela retirada da América do Acordo Nuclear com o Irão, Israel reforça a sua posição regional ao mesmo tempo que aumenta o isolamento internacional. Com Netanyahu, Israel é visto pelo internacionalismo liberal como um estado imperialista e colonial, mas a questão política persiste – como poderá o estado de Israel ser uma democracia e o lugar dos judeus no Mundo com uma maioria árabe na Palestina?

As ruas de Ramallah enchem-se na confusão das gentes, dos carros e do comércio. Tudo se vende e tudo se compra no bairro do Mercado, os sons e os gestos seculares preenchem o ar com a cor que o Sol ilumina e faz brilhar. Apesar das ameaças de demolições, apesar dos problemas com as autoridades israelitas, tal é a normalidade que não se percebe que esta é uma zona de guerra. Na desordem de um tráfego caótico, um carro estaciona entre duas bancas de fruta.

O condutor com o seu iPhone na mão começa a gravar os sons da cidade, uma malha circunstancial de sons, vozes, ruídos de máquinas, gritos, buzinas, alterações aleatórias de vibrações que emergem da vida normal de uma cidade. O homem que regista a realidade com o seu iPhone branco chama-se Muqata’a, um dos mais destacados DJs de Ramallah. Os ficheiros digitais serão descarregados para um Apple Notebook que haverá de produzir um sample ou bass line a incorporar numa das muitas misturas que percorrem os muitos sets do DJ. Numa rua lateral, um bazar dispara a música estridente das colunas na luz da cidade enquanto Muqata’a percorre caixas de cartão repletas com capas de discos de vinil usados e repassados – música folclórica da Roménia, êxitos populares do Egipto dos anos de 1970, melodias da era da ignorância anterior ao Islão. Depois de escolhidas as capas o vendedor procura os discos e entrega a preciosa encomenda.

No estúdio improvisado tudo será transformado, mais a voz que canta em árabe o quotidiano Palestiniano de Ramallah. Esta é a terceira geração de Palestinianos a viver em Ramallah depois da criação do estado de Israel. No estúdio, eles e elas misturam sons, gravam beats, cantam os ritmos inventados da matéria do Médio Oriente em explosões típicas do techno de Berlim. No estúdio não existem hijabs, nem niqabs, nem burkas, apenas a nova geração de Palestinianos completamente ocidentalizados nas suas t-shirts, jeans e trainers como no subúrbio de uma cidade europeia. Esta é a nova versão da Intifada, sem pedras, sem balas de borracha ou pneus a arder. Os sons celebram a memória e a identidade de uma Palestina mítica que nunca aconteceu e que vive no coração desta gente. Na parede algumas fotos dos anos 40 do século passado, paisagens mediterrânicas de um Médio Oriente extinto e distante. Muqata’a é a palavra árabe para “perturbação”, embora as rimas não sejam iminentemente políticas, estas pretendem com os sons salvar a esperança que fica para além do último céu.

Em Jaffa, os DJs de Ramallah encontram-se no Anna LouLou. Em Haifa, juntam-se no Karabeet. Conseguem iludir a presença do IDF, numa espécie de contrabando de ideias e de gente, acedem a zonas conhecidas da comunidade Palestiniana onde é possível escalar o muro de 8 metros e entrar em território de Israel. Nestes clubs, a última geração de Israel dança lado a lado com a última geração da Palestina – na madrugada que antecede o dia, uns vestem os uniformes do IDF e apresentam-se ao serviço, outros escalam o muro de regresso a Ramallah. O “Amor a Israel” encontra-se com o “Abraço da Palestina” na cumplicidade da noite alucinada pela subversão dos sons. Mas esta é também a alucinação das certezas políticas e do ciclo infinito de morte e de violência. No tempo em que os Deuses eram feitos de tâmaras, as pessoas comiam os Deuses. Poderá dizer-se que é melhor que as pessoas comam os Deuses do que os Deuses devorarem os homens. Em Israel não há resposta para os DJs de Ramallah.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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