Do fim do princípio para o princípio do fim? O papel dos adultos jovens

Levantar a quarentena de forma gradual para os mais jovens não implica relaxar as exigências em termos de distanciamento físico/social ou de higiene individual para esse grupo.

Agora que se vislumbra alguma desaceleração do crescimento da pandemia em Portugal, torna-se fundamental começar a pensar na saída desta crise. Os elevados custos económicos e sociais da quarentena e dos estados de emergência já não serão evitáveis – mas podem ainda ser minorados, nomeadamente com um planeamento rigoroso da próxima fase da crise.

O mercado de trabalho exemplifica bem a importância deste planeamento. Até quando um lay-off é preferível a despedimentos para uma empresa se não houver um horizonte de retoma da atividade? Para quê manter os planos de recrutamento ou de renovação de contratos sem perspetivas de recuperação? Parte da redução dos efeitos negativos da crise passa precisamente pela criação de perspetivas realistas de recuperação, reduzindo a incerteza atual que é tão inimiga do crescimento.

Como, então, ultrapassar o bloqueio atual? Parece incontornável ter em conta as grandes diferenças dos efeitos da Covid19 associadas à idade de cada pessoa, nomeadamente entre aqueles com entre 20 e 30 ou 40 anos e entre os mais velhos.

Por um lado, o da saúde, o primeiro grupo, os “adultos jovens”, são a parte da população que menos sofre com a Covid19. Por exemplo, o rácio entre mortes e infetados para o grupo etário entre os 20 e 29 (ou para os 30-39) anos está atualmente estimada em 0,2%. Além disso, estes valores baseiam-se nas infeções verificadas, que provavelmente subestimam em muito o verdadeiro valor de infeções, levando a taxas efetivas mais baixas.

Por outro lado, o da economia, são os adultos jovens os mais prejudicados pela crise e pela quarentena. São estes os primeiros a deixarem de ser contratados e os primeiros a serem despedidos, dada a segmentação do mercado de trabalho em Portugal. São também os trabalhadores com menores perspetivas de teletrabalho (link). São ainda aqueles que, em geral, têm menos poupanças e mais encargos familiares – e também por aqui mais expostos às restrições atuais ao trabalho.

Trata-se ainda de um grupo etário com expressão na economia portuguesa e cujo regresso alargado ao mercado de trabalho poderia desacelerar a recessão que se adivinha. De acordo com a análise que desenvolvi dos dados disponíveis de 2017 para o setor privado, o grupo etário 18-29 representa mais de 540.000 trabalhadores por conta de outrem.

Tendo ainda em conta as remunerações destes trabalhadores e o perfil das suas empresas, bem como outras hipóteses de análise, o seu regresso poderia fazer a atividade económica (VAB) crescer em mais de 700 milhões de euros por mês, a partir já desde maio ou junho. (Outra perspetiva implica que, por cada mês que este regresso ao trabalho é adiado, a economia perde este valor, com os reflexos inerentes em termos de menores remunerações, lucros, impostos e segurança social.)

Em função dos resultados deste primeiro grupo, seguir-se-ia – em junho ou mais tarde – um alargamento do relaxamento da quarentena para grupos etários mais velhos, como os 30-39, em primeiro lugar, e os 40-49, posteriormente. O contributo para a atividade económica destes grupos seria ainda mais valioso – 960 milhões de euros por mês para o grupo etário dos 30 aos 39, por exemplo.

Claro que este levantamento gradual da quarentena não está isento de questões práticas que é necessário preparar. Por exemplo, algumas empresas terão dificuldade em funcionar só com os seus trabalhadores mais jovens (mesmo com os restantes em teletrabalho). Outras empresas poderão não ter interesse em reabrir a sua atividade enquanto a quarentena não for levantada de forma completa. Mas na maioria dos casos esta solução gradual e direcionada representará um mecanismo importante para o relançamento económico, possivelmente até dinamizando a contratação de jovens.

Levantar a quarentena de forma gradual para os mais jovens não implica relaxar as exigências em termos de distanciamento físico/social ou de higiene individual para esse grupo. Pelo contrário, poderá inclusive até ser necessária uma atenção especial aos indicadores de saúde daqueles que regressam ao trabalho nas empresas.

Levantar a quarentena desta forma também não implica relaxar as restrições apertadas junto dos grupos etários mais suscetíveis no quadro da pandemia. Mas implica deixar de colocar obstáculos ao trabalho fora de casa a um grupo alargado da população. Grupo esse que, de outra forma, será precisamente o mais prejudicado economicamente – apesar de ser a parte da população menos afetada ao nível da sua saúde.

  • Colunista convidado. Professor de Economia no Queen Mary College, Universidade de Londres

O jornalismo continua por aqui. Contribua

Sem informação não há economia. É o acesso às notícias que permite a decisão informada dos agentes económicos, das empresas, das famílias, dos particulares. E isso só pode ser garantido com uma comunicação social independente e que escrutina as decisões dos poderes. De todos os poderes, o político, o económico, o social, o Governo, a administração pública, os reguladores, as empresas, e os poderes que se escondem e têm também muita influência no que se decide.

O país vai entrar outra vez num confinamento geral que pode significar menos informação, mais opacidade, menos transparência, tudo debaixo do argumento do estado de emergência e da pandemia. Mas ao mesmo tempo é o momento em que os decisores precisam de fazer escolhas num quadro de incerteza.

Aqui, no ECO, vamos continuar 'desconfinados'. Com todos os cuidados, claro, mas a cumprir a nossa função, e missão. A informar os empresários e gestores, os micro-empresários, os gerentes e trabalhadores independentes, os trabalhadores do setor privado e os funcionários públicos, os estudantes e empreendedores. A informar todos os que são nossos leitores e os que ainda não são. Mas vão ser.

Em breve, o ECO vai avançar com uma campanha de subscrições Premium, para aceder a todas as notícias, opinião, entrevistas, reportagens, especiais e as newsletters disponíveis apenas para assinantes. Queremos contar consigo como assinante, é também um apoio ao jornalismo económico independente.

Queremos viver do investimento dos nossos leitores, não de subsídios do Estado. Enquanto não tem a possibilidade de assinar o ECO, faça a sua contribuição.

De que forma pode contribuir? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

Obrigado,

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Do fim do princípio para o princípio do fim? O papel dos adultos jovens

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião